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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

30.01.18 | Fer.Ribeiro

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  1. MOINHOS.

 

Na quinta Grão Pará, a vida girava como se fosse o Moinho dos Agapito, à beira do Tâmega. Para deceção de Aurita, Hernando parecia ter ido embora de vez, naquele primeiro comboio, pois se passou muito tempo sem que ela tivesse dele qualquer notícia. Sabia apenas que ele não estava ao Raio X e isso era, por certo, motivo de muita angústia para ela. Teria voltado o cigano a viver com a rapariga de Valpaços?!

 

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Moinho dos Agapito, Chaves antiga (PT). Postal Foto Alves.

 

Afonso, após concluir os estudos secundários, começara a trabalhar no escritório do pai, mas continuava a perseguir o seu maior ideal. Via-se, o tempo todo, a sonhar de olhos abertos e, tal como Sidónio, a gozar também das festas e patuscadas próprias de rapazes, entre as maltas de estudantes, pelos becos e ruelas de Coimbra. Já se lhe vestiam as batinas e tinha as capas dobradas sobre os ombros, cheias de apliques bordados, brasões e outros símbolos coloridos, em contraste com a negrura dos uniformes. Entrevia até seu Papá e sua Mamã a se deleitarem com ele, por altura da queima das fitas. Atirava-se então aos estudos e, do mundo em volta, bem pouco estava a se interessar. De mais a mais, quando pensava em raparigas, sempre se lembrava do Popó.

 

Também Aurélia, ainda voltada para o seu mundo de infância, apesar de já passar dos dezasseis, não parecia pensar em qualquer namorado. Passava horas a brincar de bonecas e jogos infantis com Arminda.

 

Mindinha, porém, já crescera. Começava a querer se dar por rapariga madura e não mais uma menina, o que forçava Lilinha a amadurecer também, junto com ela.

 

Alfredo prosseguia com os estudos no Liceu. Ainda que fosse bem ao Português, ao Latim e à História, estudar não lhe era um dos melhores prazeres da vida. Assim, pois, ainda que inteligente, estava sempre a se ver em malabares com Ciências, Matemática e até mesmo outras matérias menos exatas. Se as férias ainda estavam longe de chegar, o rapazola ansiava pelos feriados. O que lhe apetecia bastante, aos sábados à tarde, era folgar com os rapazes de sua idade, sentados a algum café do Largo das Freiras ou à Confeitaria Flaviense, então o ponto chique da elite de Chaves.

 

Punham-se os jovens ali, à sombra, para ver e serem vistos pelos alegres buquês das raparigas em flor, que passavam ao sol, mas cujos pais, migalho a menos, migalho a mais, eram tão severos quanto Reis. Se deixavam sair as filhas com as amigas era porquê, na verdade, algumas delas iam sempre com alguma tia solteirona a lhes servir de dama de companhia. Como astuta Mata Hari dos costumes, essa matrona agia como vigilante, ao mesmo tempo, não só de sua monitorada pupila, quanto das coleguinhas que a acompanhassem, embora todas fossem consideradas meninas direitas, atadas aos férreos liames dos conceitos e padrões da época.

 

Papá vivia às turras com o Alfredinho, por este só querer estar às pândegas. O rapazote corria então a se refugiar nas bordas da saia de Mamã, com quem trocava afetuosos carinhos, sendo impossível a Florinda ocultar que ele, para todos os efeitos e consequências, era o seu “ai-jesus”. Com frequência, porém, mesmo à amorosa Flor estavam a desgostar suas preocupações com o traquina, que sumia por horas, algumas vezes por um dia inteiro.

 

Mal saído da puberdade, o puto era um verdadeiro traga-mundos, dentro daquele universo entre o Brunheiro e o Barrosão. Quando o pai perguntava – Por onde andaste, seu maroto? – ele respondia com um sorriso que aborrecia ao Reis, mas desarmava aquele sempre disponível advogado de defesa, o coração materno – Meu querido Papá, minha queridíssima Mamã… estava por aí, de lés a lés, pelo mundo. Estava por aí, a estudar a vida.

 

Por aí, por acolá, era Vidago, Vila Real e as aldeias do Concelho, ou mesmo Verín e Ourense, que ficam logo ali, além da raia, na Galiza, para onde o Alfredinho, com o seu Azeviche, movia-se com um grupo de rapazolas, descomprometido de tudo. Acampavam a céu aberto no verão ou na primavera, com vinho, guitarra, castanhas assadas na fogueira e a eventual e bem-vinda companhia de algumas raras, alegres e liberadas raparigas.

 

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