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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

20.02.18 | Fer.Ribeiro

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  1. PULGA DE CINEMA

 

Hortênsia, que sempre dizia – a boa hora ainda não chegou para mim! – ou, a brincar – “Vaso ruim não se quebra” – já estava em plena forma, mas Aurora continuava a sair com a Zefa, para levar até à boa senhora os votos de saúde da Mamã e da Lilinha, a pródiga afilhada. Florinda, porém, começou a considerar que, pelo assim e pelo assado, a tia estava muito malzinha, cada vez pior e que deste ano não passava. Foi então visitá-la e, ao vê-la tão bem disposta, ficou a cismar sobre as engenhosas aldrabices da filha – Ai cabeça de flor despetalada, olha que aí... “tem mouro na costa”!

 

Zefa logo se viu posta a interrogar por Flor, mas a Mamã, como inquisidora, era uma ótima Santa Isabel, aquela generosa rainha que dava esmola aos pobres, contra a vontade do marido opressor. Este, ao que se conta, vendo-a levar alguma coisa no avental dobrado, perguntou-lhe – Que levas aí, contigo? – e ela – Rosas, meu senhor – mas o tirano – Pois mostra-m’as, portanto! – ela então, pesarosa em mostrar os óbolos proibidos, desdobrou as faldas do avental. Eis que de pronto, para surpresa dos mais e de si mesma, caiu-lhe aos pés um verdadeiro roseiral.

 

A esperta barrosã que, de resto, só sabia das idas da menina ao cinema, mas sem atinar com quem mais, nem qual menos, tratou de desconversar. Passou a contar mil pataratices acerca da criada de dona Hortênsia, cujos hábitos de higiene e as tontarias na cozinha muito deixavam a desejar.

 

A Florinda, porém, uma pulga (e dessas grandes, assíduas frequentadoras de cinema) saltou-lhe para trás da orelha, naquele inverno do início de 1923, quando foi com João Reis e as filhas assistir, no Cineteatro Flávia, a um filme que, ao marido, muito apetecia ver.

 

Era “O Guarany”, produção da “Carióca Film” do Rio de Janeiro, em 7 partes, baseada no romance de José de Alencar e na ópera homónima do famoso compositor brasileiro Carlos Gomes. Além de atraente per si, os anúncios no jornal “A Região Flaviense” registavam que, em Lisboa, sua exibição integrara as comemorações de um feito histórico, a chegada ao Brasil dos aviadores Gago Coutinho e Sacadura Cabral, no hidroavião Lusitânia, ocorrida no ano anterior. Os dois patrícios realizaram juntos a primeira travessia aérea do Atlântico Sul.

 

Figurava-se ao Papá uma razão muito especial para ver “O Guarany”. A motivação era que certa vez, em Belém do Pará, estivera bem próximo ao Maestro, após a estreia daquela ópera no Theatro da Paz quando, em companhia de um parente que era amante da música erudita, Reis fora cumprimentar o músico e já se lhe notava a aparência enfermiça. Pouco tempo depois, em 1896, acompanhara, ao lado de milhares de pessoas, o traslado dos restos mortais do artista, desde a casa onde Carlos Gomes passara os seus últimos dias até ao Conservatório de Música (para o qual o Maestro fora nomeado diretor e hoje leva seu nome), onde seu corpo seria velado, antes de o levarem para Campinas, sua terra natal.

 

Ocorreu que, à entrada do Cineteatro, onde tantas vezes Aurita, por motivo de óbvios cuidados, sempre entrara e saíra sozinha, com um xaile da cabeça aos joelhos, quase a lhe cobrir inteiramente o rosto, o parvo e indiscreto porteiro foi todo sorrisos para a rapariga – Boa noite, menina, folgo em ver que, desta vez, não veio cá sozinha, veio com o Papá e toda a família, não é? – ao que todos os mais pararam, emudecidos, uma expetativa de segundos que, para a assustada Aurora, pareceram milénios.

 

Ela, porém, já contaminada pelas maroteiras de Hernando, aumentou o fio de voz que lhe dava um nó à garganta – Desculpe, meu senhor, mas estás a me confundir com outra pessoa, nunca pus os pés neste lugar! – o que deixou o porteiro, de pronto, a tentar remendar, com o rosto mais pálido do que defunto no caixão – Des… desculpe-me, senhorita, é que a menina... quase me dava os ares de uma rapariga que vem sempre aqui.

 

Assim acabou o namoro de Aurora com a sétima das Artes. Conformadinha como sempre, ficou só a lamentar as oportunidades perdidas de se encontrar com o seu amado. Também lastimava o facto de não poder mais assistir, como já se anunciava nos reclamos, “a verdadeira maravilha da arte nos cinemas de todo o mundo”, o filme de longa metragem “Intolerância” (exibido em duas jornadas, cada uma com 5 partes).

 

Com o frio da estação mais intenso, geadas eventuais e a temperatura a descer, por vezes, a 4 graus abaixo de zero, a rapariga permaneceu por um longo tempo sem sair de casa, dando ao Camacho, em termos de beijos roubados e devolvidos, um demorado jejum.

 

Pouco a pouco, Florinda esqueceu as desconfianças que tivera em relação à filha, ainda que, tais e mais, alguma dorzinha lhe trouxessem à cabeça. Como o Reis nunca tocara no incidente do cineteatro, talvez por acreditar na convicção e firmeza com as quais a filha se dirigiu ao atarantado porteiro, Mamã jamais comunicou ao marido as suas maternais preocupações.

 

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