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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

27.02.18 | Fer.Ribeiro

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  1. AFILHADOS.

 

Uma tarde, com um belo sol de início da primavera, Florinda ouviu algumas gargalhadas à porta. Desceu a escada lateral e logo viu, à frente da quinta, alguém cuja visita lhe trouxe, para já, uma enorme alegria. Há muito tempo não via Adelaide, que andava a morar fora do país, a gozar os encantos de Madrid, Paris e Berlim, no propósito de tentar amenizar as dores pela morte do seu meigo, terno e inesquecível “afilhado”.

 

Na boleia da Carochinha, estava agora um jovem tímido e desengonçado, mas trajado com certo apuro. No rosto, malgrado seus belos traços, muitos cravos e espinhas haviam deixado a sua assinatura. O corpo, todavia, era bem desenvolvido, tornando-o, em termos gerais, um beneficiado pela Natureza. Adelaide pediu a Maria que o encaminhasse à cozinha e lhe desse, por gentileza, um copito de tinto maduro, ao que Flor acrescentara – E uma talhada daquele folar que a Francisquinha nos mandou!

 

Naquele dia, as irmãs haviam saído e, à sala, estava apenas Aurora – Ai, que cachopa! Cuida que a tua menina está a se pôr! Cada vez mais jolie, minha cara Florinda, très jolie! – e logo Mamã, temente ao marido, fez sinal para que a filha saísse, o que não escapou à viúva – Ora deixa a menina cá estar, ó Flor! Ela já tem bastante idade para aprender sobre as coisas do mundo. Se bem que ela... ora, pois, muitas coisas não sou eu quem lh’as vai ensinar... – soltou, então, uma risada cristalina – Além do mais, tu sabes, Florinda, que eu não sou dada a conversas vis nem palavras chulas. Tento ser o que chamam os franceses de une femme d’esprit.

 

Florinda foi leal e sincera – Sim, sim, por certo, Dedé, considero-te e sempre hás de ser para mim uma dama – ao que a outra ajuntou – Claro que sim, minha Flor, sou uma dama em qualquer salão! – mas segredou aos ouvidos da amiga, tornando as faces desta mais coradas do que um pimento encarnado – Embora deixe de sê-lo, quando me apetece, em certos sítios e a certas horas – e soltou mais uma de suas estrondosas gargalhadas.

 

A cavaqueira já ia alegre de per si, quando Aurora cometeu a mais indiscreta das perguntas – Esse rapaz, esse seu novo cocheiro… ele também é seu afilhado, tal-qualmente o Luís Miguel? – no que, à menção daquele que se fora, Adelaide ficou séria de repente, tirou de sua bolsa um lenço cinza rendado de bordas negras e o levou aos cantinhos dos olhos. Não havia, nesse momento, qualquer dramaticidade da atriz diletante, nenhuma encenação teatral.

 

Fez-se um silêncio, um tanto quanto constrangedor, finalmente quebrado pela repreensão de Flor – Aurita!!! Isso são coisas que se perguntem?! – mas Dedé logo se refez – Deixa estar, minha amiga. A menina não me está a falar nada demais. – Pausou um pouco e – Ai, Florinda, jamais vou esquecer o meu putinho adorado! – então repetiu a pergunta que, a este narrador, não lembra quem, nem onde, mas que em um filme ou peça teatral, alguém já disse ou escreveu – “porque morrem os jovens”?!

 

Depois de outro silêncio pesaroso, solidário, Mamã colocou as mãos de Dedé entre as suas. Esta virou-se para a rapariga – Não, filha, este aí, para mim, é apenas um... um secretário-geral, digamos assim. Compra-me os precisos da casa, cozinha, põe a mesa, separa-me as roupas para entregar à lavadeira… – e para Flor, em tom mais baixo – Muitas vezes, é claro, também me serve como valet-de-chambre. Ah, mas quanto a esse ofício… percebes, minha Flor? Esse aí, em nada se compara ao Miguelito!

 

Dessa vez, mais por curiosidade do que em segundas intenções, quem se viu inconveniente foi Mamã, que logo se pôs a corar de pejo, assombrada pelo que, ela mesma, estava a perguntar – O Luís Miguel… batizaste-o já rapaz? – o que levou Adelaide a fixar na anfitriã os olhinhos miúdos, mas vivíssimos – Ora pois, minha amiga, o Miguelito já lá ia pelos dezasseis anos, quando o conheci. Era um dos criados da quinta onde eu estava a festejar as bodas de uma sobrinha, lá na Madeira, em… em que aldeia era mesmo? Bom, o que vale é que eu… ai minha rica saudade, quando me lembro daquele dia!

 

Como se estivesse em um Cinematógrapho, seus olhos pareciam acompanhar o filme que estava a descrever. – Havia, no meu quarto, uma janela que dava a um pequeno ribeiro, desses bem rasinhos. O Miguelito… ou melhor, o Miguelão... ele atravessou esse ribeiro e me chegou todo encharcado, da cintura pra baixo… molhadinho. Como eu que, de outro modo, também já estava... percebes? Ai, meu Deus, agora falo eu: isso são coisas que se digam?! – e sussurrou para Flor – Enfim, pra não me pôr a palavrear demais, só tenho a dizer-te que batizei o menino ali mesmo, com a água do ribeiro, sem sal, sem vela de cera, nem com os unguentos sagrados, percebes? – após o que, ao seu feitio, pôs-se de novo a gargalhar e nem escutou a repreensão da amiga – Dedé!!!

 

Logo, porém, a visitante entristeceu-se de novo e levou o lenço ao nariz – Te lembras como ele era? Ajudei-o a se tornar um cavalheiro, dei-lhe escola, ensinei-lhe as boas maneiras… nunca me haverá ninguém como ele! – enquanto Aurora e Mamã fitavam-na caladas, sem saber o que dizer. Certas dores não passam com remédios, nem se curam com o mero e vão consolo dos amigos.

 

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