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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Chaves D'Aurora

06.03.18 | Fer.Ribeiro

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  1. TEATRO.

 

Até que o silêncio se desfez em cacos pela própria Adelaide – Ah, meu Deus! E não é que já estava a passar o motivo, ó Florinda, pelo qual eu vim cá te visitar?! – e entregou, então, alguns convites para os Bernardes assistirem à comemoração do aniversário da corporação dos Bombeiros Voluntários de Chaves. Constava do programa, no Cineteatro Flávia, encenado pelo Grupo Dramático da Corporação, o drama em três atos “O Bombeiro Voluntário”, “seguido de um interessante acto de variedades, com 14 números, constituídos de monólogos, recitativos, cançonetas, fados, coros etc.” A açoriana, a não caber em si de contente, era uma das atrizes convidadas.

 

Sabe-se, já, serem bem raras as oportunidades que o chefe do clã concedia à mulher e às filhas, para saírem de casa a fim de se divertir. Restringia-se a vida social daquelas mulheres aos compromissos estritamente necessários. Adelaide, portanto, nem acreditava que elas viessem a comparecer, menos ainda em companhia de João Reis e ficou muito feliz ao vê-los honrar o convite. Mais ainda, quando todos os parentes foram cumprimentá-la, ao fim do espetáculo.

 

– Ora viva! Os meus queridos Bernardes, no teatro! E para me verem representar! Bem-haja! Bem-haja!

 

Ciente das tendências histriónicas da amiga, fora ou dentro do palco, Florinda implorou às filhas que, nas cenas mais sérias, se o já conhecido e esperado viesse a acontecer – Pelo amor de Deus, meninas! Não me venham a rir! – sem deixar de lembrar que os risos discretos e comedidos, como soem ser próprios a toda rapariga de boa família, fossem liberados somente nas partes cómicas.

 

Surpreendeu-se. Primeiro, pela plateia do teatro que estava à cunha mas, ao contrário do que se ouvira falar, parecia estar agora mais educada, a assistir em silêncio, pondo-se a rir apenas diante de uma ou outra situação engraçada. Pasmou-se, mais ainda, com Adelaide, pois embora esta não fosse dotada de grande talento para os dramas e sim para as comédias, desempenhou seu papel com a maior concentração e gravidade, conforme exigia a personagem.

 

Mamã pensou o mesmo que Aurita e Aldenora. O amor, sobretudo a perda do amado, transforma a vida de qualquer ser humano. Também lhe parecia que, no caso de Adelaide, o jovem Luís Miguel fora o maior e talvez o único amor verdadeiro da açoriana, em toda a sua, nem sempre tão alegre existência.

 

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