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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

13
Mar18

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. CLAUSTRO.

 

Com a casa de Bernarda Alba, a de Alba Bernardes guardava algumas semelhanças. Tal como na peça de Frederico Garcia Llorca, o poeta mártir do fascismo na Guerra Civil Espanhola, a Quinta Grão Pará transpirava uma clausura quase monástica.

 

Arminda andava às voltas com os explicadores e os deveres por eles exigidos. A essa altura, Aldenora era quem lhe dava aulas de Etiqueta Social. Monsieur Béjart resolvera desobrigar-se de tais funções, amolado com os risinhos (ainda que discretos e contidos) das pessoas da casa, durante certas lições de elegância, tais como usar os dedinhos ao segurar uma tacinha de licor ou levar aos lábios, lentamente, uma chávena de chá ou de café.

 

Nonô colecionava todas as cartas que o noivo lhe mandava de Braga e ficava a marcar, no calendário, os dias que faltavam para as férias de Sidónio ou para algumas de suas vindas eventuais a Chaves. Sempre a mergulhar nos livros, estava a ler, agora, as obras de Guerra Junqueiro, cujo falecimento recente fora muito pranteado. Logo as deixaria de lado, todavia, por não aceitar as posições anticlericais do autor.

 

Seu maior sonho, que também já estava a se refletir em Arminda, era ver todos os seus participarem da chamada elite social de Chaves, da qual viviam quase inteiramente à margem, mesmo sendo Papá um dos mais ricos homens do Concelho. Antevia que, em seu casamento com Sidónio, adviria finalmente a oportunidade de se abrirem, para ela e os seus, as portas do restrito grand mond flaviense.

 

Muito gostava que ela e as irmãs viessem a ser, por exemplo, como essas “gentis meninas de nossa terra”, das quais falava um dos jornais locais, “que estão a promover um garden party, com objetivos beneficentes”. Com uma tômbola de prémios a girar, essas “raparigas de elite” estavam a “angariar rendas em prol do Hospital da Misericórdia” e a todos os doadores de prendas, eram distribuídos malmequeres e algumas folhas de hera, nas quais estavam escritos, a bico de pena, alguns versos seletos do saudoso António Granjo.

 

 Felizes eram Alfredo e Afonso, agora às voltas com o Futebol. Muito lhes agradava assistir aos jogos no Campo do Tabolado, como naquele tão memorável dia em que a equipa do Flávia Sport Club desafiou a do Império Sport Club do Porto e muito se festejou, por toda a vila, a vitória do Flávia por 3 a 1. Mal acabara essa festa e os irmãos já estavam a torcer pelos alunos do Liceu no Jardim Público, em disputa da Taça Flávia, contra a linha formada por sargentos da Infantaria 19.

 

Aurora sentia-se entediada, por não conseguir dedicar-se a mais nada, senão a pensar em um lenço que virava rosa e esta, colocada em seus lábios, logo iria fazê-la se ferir com os espinhos da saudade. Ia com frequência à janela, o que sempre despertava a implicância de Aldenora – Que tanto fazes aí, a olhar para os bois e os carroceiros? Ou será que estás a esperar… ai, minha irmã, não sejas tonta demais! Não fiques a desejar, com essas águas paradas, mover moinhos que te não merecem!

 

À adolescente Aurélia, um pouco disso, um pouco daquilo, já lhe bastava. Distraía-se a confecionar bonecas de pano que, regularmente, enviava a um orfanato no Porto. Ninguém a namorar. Nada se conhecia do que lhe havia de mais íntimo e pessoal. Somente muitos anos mais tarde é que ela iria contar a Aldenora um incidente que lhe ocorrera, quando tinha apenas seis anos.

 

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