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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

30
Out18

Chaves D'Aurora

1600-chavesdaurora

 

  1. ANUNCIAÇÃO (2).

 

As mulheres da época, em todas as classes sociais, tinham para com os esposos um respeito quase monástico ou militar. Ainda que em alguns lares já fosse como hoje, quando “a última palavra”, como se costuma comentar em tom jocoso, é sempre a do marido – Sim, senhora, sim, meu bem, sim, minha querida! – ou, até mesmo, como se expressa no dito popular – “Se é varão, manda ele e ela não; se é varela ora manda ele, ora manda ela; se é varunca, manda ela e ele nunca” – em termos de mando, as relações de Florinda com Reis eram bem tradicionais, ela nada e ele tudo. Chegava a se dirigir ao marido, muitas vezes, em voz baixa e temerosa, quando precisava contar algo dos filhos ou das criadas. Ainda assim, só o fazia quando tal lhe parecesse um tantinho mais grave ou impossível de ocultar.

 

Lembremos que só em 1910, mesmo ano em que o divórcio entrou em vigor em Portugal, foi que as mulheres passaram a ter autorização para trabalhar na administração pública. Só em 1918 puderam exercer a advocacia e, tão-somente, em 1931 é que lhes foi concedido o direito de votar. Este, porém, só podia ser exercido pelas mulheres que tivessem estudos de grau secundário ou universitário, enquanto que, aos homens, bastava saber ler e escrever. Já corria o ano de 1969, em plena efervescência de movimentos revolucionários por mudanças de costumes, na Europa, nos Estados Unidos da América e em vários outros países, quando se facultou às mulheres portuguesas atravessar a fronteira com a Espanha, sem permissão dos maridos. O pasmo dos pasmares, todavia, advém ao sabermos que a lei pela qual se autorizava os homens a abrir a correspondência de suas esposas, só foi abolida em 1976!

 

 Assim, àquela altura, não restava a Florinda senão dirigir-se ao oratório e rezar ao Todo Poderoso, para que este lhe desse forças, quando o Reis tornasse a casa, à hora do jantar. Como ela era, antes de tudo, um padrão de mãe amantíssima, ao sair do quarto afagou os cabelos cor de trigo da filha, agora a se esvair em lágrimas. Beijou-lhe a testa e disse com suavidade – Que o bom Deus te perdoe, minha menina… e também, com muito mais compaixão, a esse homem que te pôs a perder!

 

Deixou-se ficar inerte, sorumbática, durante o resto daquela tarde. À chegada de Nonô, Mamã achou por bem e por direito, mesmo antes de contar tudo ao marido, notificar logo o facto à sua outra menina, prestes a escolher o vestido das bodas e as pequenas prendas com as quais, à hora do copo d’água, iria mimar os convidados. Aldenora chorou, a quantas pudesse – Ai que a desgraçada da minha irmã não devia nunca ter feito esse desatino! Ai se, por causa disso, muitos convidados nem me forem à igreja, no dia das minhas bodas! Porque ela fez isso comigo?! – e Florinda consertou – Contigo não, minha filha, com todos nós; mas há que perdoar à tua irmã. A tentação de Satanás e de outros demónios que estão a povoar nossa mente é sempre bem forte, e nós, mulheres, nunca seremos santas o bastante para enfrentá-la, a não ser com muitas preces à Virgem Santa.

 

A rapariga, no entanto, para já prenunciava o quanto e como esse facto poderia prejudicá-la. Desandou a sacudir a mãe pelos ombros – E agora, Mamã, o que vou fazer?! – e Flor, enérgica – Não penses só em ti, menina, melhor dizeres: o que VAMOS fazer?

 

(continua)

 

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