Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Out21

Crónicas da Quarentena

Terceiro Dia

3-diaquarentena-5

1600-cabecalho-1

 

TERCEIRO DIA

Segunda-feira, 19 de Outubro de 2020

 

Cem mil.

 

Estatisticamente, um número relativamente irrisório face à nossa demografia. Menos de um por cento da população portuguesa.

 

Simbolicamente, uma sombria avantesma pairando sobre o país, anunciando a previsível e inevitável chegada da centena seguinte. Um avejão que recorda os hiperbólicos seis mil, que nem metade seriam, atribuídos pela imaginação popular ao topónimo da pequena aldeia de Sesmil.

 

Seis mil, que afinal estariam acampados mais para S. Pedro de Agostém, preparando-se para cercar a pequena vila medieval, legitimar pela força o novo rei e a nova dinastia e testar a honra e a palavra de um alcaide. Cem mil para cercar o nosso imaginário, inquietar o nosso quotidiano e testar o nosso âmago e os nossos medos.

 

Pessoalmente, um número do qual já faço parte. E a serenidade com que aceito esta realidade surpreende-me. É como se estivesse assintomático de angústias, ansiedades ou sentimentos.

 

Saio para respirar um pouco deste ar de outono e ver a robusta verticalidade odorífera do loureiro, tendo o Leiranco por fundo. Ali, por entre fragas de ciclópica memória, a escassa vegetação, que nunca terá tido silvestre espessura, é agora encimada por aerogeradores que procuram escravizar o poder das antigas divindades eólicas.

 

3-dia-quarentena-6

 

A meu lado, descansando calmamente numa folha de figueira, aquecida pelo sol do final da manhã, uma estática borboleta procura prolongar a cálida amenidade da primavera e do verão.

 

Mas a imobilidade desta borboleta deixa-me inquieto, fazendo-me temer que o seu próximo bater de asas venha a causar um cataclismo, iniciado num outro hemisfério mas extensível a todo o mundo.

 

Assaltado por atávicos medos medievais, receio começar a ver prodígios celestes, aves de mau agouro e outros sinais do fim do mundo.

 

Os corvos marinhos que habitualmente sobrevoam a veiga, seguindo a linha do rio, surgem-me agora como velozes manchas, esguias mas aziagas, aguardando apenas a chegada dos exóticos e inusitados papagaios urbanos de Lisboa, verdes, estridentes e mais periquitos de colar que papagaios, de diurnas corujas e outros arautos do inominável, para criarem uma apocalíptica corte celestial.

 

Entre a serenidade e a inquietação, pareço desenvolver uma esquizofrenia, como se mudasse não apenas as lentes com que registo estas imagens mas as próprias máquinas fotográficas. Como se visse uma parte da realidade através de toda a complexa designação da Canon EOS 5D Mark III e outra através da desarmante simplicidade alfanumérica que a Nikon D800 tem no seu nome.

 

Talvez deva deixar de ver a realidade apenas através destas lentes fotográficas.

 

Augusto de Sousa

 

 

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Zé Onofre

      Boa tardeAcerca deste texto tenho a dizer duas coi...

    • Ana D.

      Linda foto! Obrigada pela partilha!

    • Anónimo

      Atravessei as poldras muitas vezes, na época em q ...

    • cid simoes

      Lindo! O Sr. Madureira está a melhorar. Parabéns.e...

    • Anónimo

      Imagens fantásticas desta Vila Termal, de Vidago, ...

    FB