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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Out21

Crónicas da Quarentena

QUINTO DIA

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QUINTO DIA

Quarta-feira, 21 de Outubro de 2020

 

Chegou a chuva, embora não tão tempestuosa como se anunciava. Tendo ainda na memória ecos da prosa que ontem encerrou o meu registo, saio para o jardim, procurando aspirar a humidade do ar, procurando identificar as suas múltiplas fragrâncias, procurando distinguir os diferentes cheiros das árvores, dos arbustos, das ervas. A tudo isto se sobrepõe o ancestral cheiro da terra molhada e das folhas que se vão entretecendo no solo. Húmus.

 

A meu lado, num prenúncio de inverno, uma roseira, despida já de rosas, ostenta entre os seus ramos uma orvalhada teia sem qualquer aranha à vista. Neste brilhante dédalo de gotículas, apenas uma pequena folha, acastanhada, está suspensa na malha, rasgada.

 

Uma voz angelical afirmou que a rosa é sem porquê. Talvez. E talvez a causa do seu misticismo não seja apenas a essência metafísica do seu aroma. Sem qualquer preocupação em obter resposta, pergunto-me por que razão nunca procurei cultivar rosas landora. Não sei. Não faço ideia.

 

Mais longe, alguns crisântemos começam a desabrochar. As flores dos mortos, como algumas pessoas dizem. As flores com que, no dia de Todos os Santos, honramos e reavivamos a memória dos nossos antepassados. Tradicionalmente, há gladíolos, também. Mas os crisântemos brancos encerram em si a ideia das almas purificadas. Estes são de um avermelhado tom sanguíneo que coloca à prova a versatilidade da paleta cromática da nossa língua.

 

1600-quarentena (543)

 

Recordam-me os mon japoneses de que Wenceslau fala nos seus Serões e eu reproduzi, todo pimpão, numas folhinhas fotocopiadas, inventadas por um amigo, no dealbar dos nossos vinte anos.

 

Um dos dois mon de uso exclusivamente imperial é o do crisântemo de dezasseis pétalas. Um crisântemo dourado. Um tom perfeito para combinar com os tons do momiji, o outonal esplendor das mil e uma cores que iluminam as árvores de folha caduca.

 

De novo me invade a ideia do húmus e da secreta humidade que se oculta sob o espesso manto das folhas caídas entre soutos, carvalhos e nogueiras. E também a memória daquela minúscula rã ibérica, afastada de qualquer charco ou linha de água corrente mas aconchegada sob as largas folhas, húmidas e orvalhadas, dos centenários castanheiros que pontuavam a ténue neblina de Montesinho.

 

E um avassalador apelo, telúrico e ancestral, ascende em mim.

 

Com a Feira dos Santos cancelada, talvez daqui a uma ou duas semanas esqueça a desilusão desta tradição urbana interrompida e consiga perder-me pelos montes, para ir aos cogumelos.

 

Augusto de Sousa

 

 

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