Crónicas da Quarentena
Décimo Segundo e Último Dia


DÉCIMO SEGUNDO E ÚLTIMO DIA
Quarta-feira, 28 de Outubro de 2020
Regressarei esta manhã.
Olhando para lá da lua em quarto crescente, sinto-me perplexo perante a aparente simplicidade de todo este complexo universo cintilante, repleto de pequeníssimos grãos de mica que, em momentos de inocência, nos permitem augurar e imaginar outros universos em cada um deles.
Pirilampos numa noite japonesa, pétalas de cerejeira a esvoaçar, longos e ondulantes cachos de glicínias, o salto de uma rã num charco ou num poço, a singela poesia de Bashô desdobrando-se em miríades de sons e sensações.
Um minimalista golpe diagonal numa superfície uniformemente pintada, múltiplos salpicos espontaneamente dispostos numa tela, um quadrado negro sobre a obsessiva negrura da tinta, longilíneas e frias luzes fluorescentes, a indizível emoção das cores no testamento de Vieira da Silva.
A inabalável e cómica seriedade de Pamplinas competindo com o bigode e a bengala de Chaplin, um irreprimível e súbito esgar no primeiro plano de um film noir, andróides insomnes contando ovelhas eléctricas.

O lento, profundo e plangente som do violoncelo de Guilhermina espraiando-se e transfigurando-se nos avermelhados tons de uma tela de Augustus John, a esquecida voz de Francisco de Andrade vibrando e rebrilhando na branca e esplendorosa figuração de um retrato de Max Slevogt.
Tudo isto entre um enlevado e sublime Nimrod, liberto da pomposidade de Elgar, e as hipnóticas e hieráticas composições de Pärt.
A magia de quem inventou a primeira escrita, ou a primeira representação dos números, ou a notação musical… Todos os mundos sonhados ou por sonhar… Toda a milagrosa desmultiplicação da senhora dos mil nomes… Todo o misterioso mistério da maternidade…
E a maravilhosa revelação dos avermelhados crisântemos, em esbranquiçada transfiguração, coroando a brancura da açucena que desafia o nome da rosa.
Talvez a visão de tudo isto me deixe regressar mais apaziguado.
Augusto de Sousa


