Quarta-feira, 11 de Abril de 2018

Crónicas de assim dizer

assim dizer

 

Autodeterminação

 

Um dia a Vida chegou ao pé de mim e disse-me: vou-te dar uma tarefa para os próximos 10 anos. Vais ter de a fazer o melhor que podes e o melhor que sabes. Não te admito falhas! Tendo-as, terás que assumir a total responsabilidade delas e ultrapassá-las. Independentemente do seu grau de dificuldade, tens de ser capaz de saber lidar com as suas consequências e arranjar alternativas de forma a colmatá-las completamente, resumindo, é melhor que não falhes.

 

Esta tarefa vai requerer tudo de ti, todo o teu tempo e todo o teu empenho. Cabe-te a ti gerir os periodos de descanso, mas, como advertência inicial, é bom que comeces já um processo de treino e adaptação, de forma a aumentar e dilatar as tuas capacidades para que possas resistir durante todo esse tempo com o mesmo grau de eficácia. É bom que não coloques a hipótese de desistir porque não há ninguém que faça essa tarefa por ti. Se precisares de ajuda, podes pedi-la, mas não te aconselho a fazê-lo porque isso de alguma forma te enfraquece aos teus próprios olhos, que têm de olhar para ti sempre com admiração e porque mais tarde ou mais cedo, sabes como é, terás de retribuir em dobro e não o terás!

 

Eu percebi à primeira e a Vida percebeu que eu percebi, de forma que nem eu pedi para ela repetir nem ela o fez. Também não houve questoes adicionais nem frequentes em casos destes nem sequer um comentário.

 

10 anos depois a Vida chegou novamente ao pé de mim e disse-me: cumpriste a tarefa mais ou menos bem, aqui e ali acrescentaria alguma coisa e faria algum reparo, mas no geral não há grande coisa a lamentar, de forma que te vou poupar a apreciações e juízos de valor, até porque em alguns dos casos eu também fiquei com algumas dúvidas se fizeste mal ou bem!

 

Agora vou-te dar outra tarefa, esta por tempo não determinado. Terás, ou não, que a fazer o melhor que podes e o melhor que sabes.  Desta vez admito-te falhas, cuja responsabilidade terás, obviamente, que assumir, ultrapassá-las, saber lidar com as suas consequências e arranjar alternativas de forma a colmatá-las, resumindo, de vez em quando talvez seja melhor falhares porque o peso da tentativa de perfeição, neste caso, já é um risco elevado, não te compensa.

 

Esta tarefa vai requerer muito de ti, grande parte do teu tempo e muito empenho da tua parte. Vais ter de tomar decisões, consultar opiniões não te servirá de muito porque quem tem depois que lidar com o resultado delas és tu. É melhor que não as peças. A pior coisa que há é arrependermo-nos de ter seguido os conselhos dos outros quando eles não estão em nós e os outros nunca estão em nós, por mais próximos que estejam ou pareçam estar. Seriam dois os arrependimentos em vez de um e um já é demais para cada coisa.

 

Não adianta muito lutares contra ti própria, desta vez o resultado não vai ser como na outra, em que resultou sempre. Deves esforçar-te, porque tudo na vida merece o nosso esforço quando o bem que depois retorna supera o sacrifício. É bom que faças algum, mas sempre com a certeza de que nem sempre ele compensa, não é como da outra vez, em que compensava sempre! Esquece isso, estamos a falar de coisas muito diferentes.

 

Aqui não tens de pensar nas atitudes como sendo um investimento futuro, aqui o retorno, se o houver, é imediato e tudo o que seja pensares o contrário disso só te vai trazer desilusão, porque não vai haver maior retorno que o de investimento. Pode haver, mas não é a regra!

 

Esquece tudo o que aprendeste, desta vez tens de viver a curto prazo. Enquanto na outra missão a atitude era: tens de fazer hoje porque amanhã podes não estar e isto, tens toda a razão, era o melhor conceito de eternidade, porque caso no dia seguinte já não estivesses as coisas ficariam por fazer e isso não te era permitido. Aqui não, apenas convem para ti que faças hoje, mas se não fizeres, morreres amanhã e as coisas ficarem por fazer, não acontece nada, aqui não há consequências insustentáveis. É na mesma a sério, mas sem grandes consequências.

 

Eu assistia a toda aquela descrição com o ar de que, desta vez, eu não a estava a levar muito a sério. A filha da mãe percebeu e disse: a postura é exactamente essa, dou-te a tarefa, mas, desta vez, é só se quiseres!

 

Cristina Pizarro

 

 

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publicado por Fer.Ribeiro às 00:56
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