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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

05
Dez18

Crónicas de assim dizer

arrabalde-3

 

Como eu me propus a educar deus e falhei

 

Em termos gerais, digamos que nesta idade, quando tropeçamos em deus e de repente Ele nos aparece à frente, só agora, quando teve a vida toda para o fazer e nunca o fez, e sabe Deus como às vezes era mesmo preciso para continuar, a nossa primeira tendência, em termos de atitude, porque a vida também já se encarregou de nos dizer que certos registos de comportamento em que teimamos insistir e não é pleonasmo literário porque o uso no sentido de reforçar a teimosia, ao limite, que às vezes temos, dizia, a nossa primeira tendência é agradar-Lhe e fazêmo-lo por vários razões: uma delas é porque Lhe reconhecemos, sabe-se lá porquê, alguma superioridade, ao menos em determinados aspectos, depois porque nos convencemos que Ele tem qualquer coisa para nos ensinar e adoptamos aquela atitude de professor e aluno: calamos quando não concordamos com Ele, fazemos que não ouvimos quando Ele divaga e começa o seu discurso do Eu, remetendo-nos, a nós, para a nossa insignificância de seres apenas humanos e quando Ele chega ao ponto, porque Ele chega com frequência a esse ponto, de se achar único e com direito a tudo, e deveres em nada, ignorando e desprezando os sentimentos que eventualmente tenhamos em relação ao que Ele nos diz, nós baixamos a cabeça!

 

Mas de repente começamos, com naturalidade, por causa daquela capacidade que temos de nos indignar e que é saudável pela característica peculiar que alguns de nós têm do espírito ou capacidade crítica, a perceber que talvez tenhamos escolha à imposição de que Ele nos quer ver reféns e de que se sente com absoluto direiro: “é assim que eu quero que faças” ou “eu não gosto disto em ti e por isso, se queres continuar a frequentar a minha igreja, vais ter de mudar, independentemente de gostares ou não, independentemente de sofreres ou não com isso, independentemente de seres ou não capaz. Eu não gosto! Eu não quero!”

 

Neste ponto começa a trabalhar em nós uma coisa que nem sempre sabemos que temos e aqui depende de sermos homens ou mulheres, porque uns temos umas e outros têm outras: as hormonas, chamemos-lhe assim só porque temos de lhe chamar alguma coisa e para que possamos avançar nesta exposição em que, arrisco dizer, o nome que damos às coisas não tem assim tanta importância, desde que a gente se entenda e se fixe mais no sentido que queremos dar às palavras do que noutra coisa qualquer. Ja percebemos, nesta altura da vida, que a questão da nomenclatura passa imediatamente para segundo plano quando temos em mãos coisas muito mais importantes como o entender das coisas.

 

Começamos então, nesta fase em que agora estamos, a equacionar diferentes formas de nos relacionarmos com Ele porque, apesar de tudo, e nós temos consciencia disso, nós queremos continuar a relacionar-nos com Ele e queremos até mais do que isso: que a relação seja saudável e que nos traga ou continue a trazer um ensinamento das coisas e uma aprendizagem da vida, sobretudo sobre aquela parte dela em que ainda não vivemos.

 

Julgamos, ou estamos convencidos, que vem a dar no mesmo, que mercê do título, Ele sabe mais do que nós, está mais preparado, tem mais experiência, mais sabedoria e conhecimento e até, ao ponto que nós chegamos, está seriamente preocupado connosco, supostamente seus filhos. Independentemente da metáfora ser cordeiros, somos filhos de Deus.

 

Pois parece-me agora que é exactamente aqui que nos enganamos. E não é fácil:

 

Primeiro, tomar consciência de que nos enganámos;

 

Segundo, achar que aquilo que tínhamos como perfeito tem imprecisões, algumas do tamanho do universo que Ele próprio criou;

 

Terceiro, pôr a hipótese de ser um crápula e

 

Quarto, suspeitar que, sabe-se lá por que razões ou motivos, Ele se quer vingar de nós.

 

E somos de facto engraçados neste ponto, depois da primeira reação que é o sofrimento de nos sentirmos abandonados e desprezados pelo pai, a coisa que fazemos logo a seguir é arranjar justificações para a sua atitude: talvez tenha tido uma vida difícil antes de chegar à coroação, ao altar que agora ocupa em todas as igrejas, acima de santos, anjos, arcanjos e do resto da família religiosa, dita assim, uma vez que não há em toda essa descendência o pecado da carne, a hereditariedade e a genética a justificarem o aumento exponencial dos defeitos ou a tendência para aprimorar qualidades que, de facto, não tem.

 

Percebemos, só neste ponto, que certas características ou qualidades que tínhamos como certas, estão nele não só em défice e mesmo ausentes como ainda tem a percepção de se convencer intimamente que é o único a tê-las e a considerarnos, a nós que o veneramos, como menores, incapazes e limitados, no que se refere a pensamentos, deduções, convicções e atitudes que afirma, em oração, gostar de ver em nós e que não vê! A questão que Ele nem sequer coloca, é que as temos todas, varia apenas nelas a importância que lhe damos e a forma como lidamos com elas. No nosso caso muito bem, no d’Ele incapaz de as saber interpretar porque lhe falta o resto: elasticidade mental!

 

E se há coisa que não lhe podemos perguntar, mas nunca, é: meu deus porque nos abandonaste? Só porque ele nunca nos vai dizer a verdade e vai desatar numa ladainha que nos vai fazer acreditar muito injustamente, isto não se faz a ninguém e muito menos a um filho, que a culpa é nossa. E isso é manifestamente impossível! E a razão é tão óbvia que até dá pena: nós não temos poderes!

 

Nota: Há um erro no texto de que já todos deram conta: onde se lê “Ele”, deve ler-se “ele”. Fica a nota para os não tão atentos a estas coisas da Língua.

 

Cristina Pizarro

 

 

 

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