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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Set19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

Animais por instinto

 

Pouco passamos de animais. Se tirarmos algumas coisas, não passamos muito de animais. E essas coisas são menores: peças de vestuário, acessórios, adornos, detalhes, maquilhagem, roupagens! Vestimos o animal como em crianças vestíamos uma boneca, para lhe dar um ar de graça, para nos distrairmos, para nos entre termos, a nós e à boneca. O animal não é menos nem mais por isso, não é outro em vez disso! Pode parecer, a quem de fora o olha sem o ver ou a quem o vê sem o observar, ou a quem o observa sem estar atento, mas não a nós que o vestimos, que o decoramos, que o adornamos.

 

E a boneca anda, corre, rodopia, sobe e desce, às vezes dança, parece que cresce, mas é sempre um fruto verde, imaturo, pendurado na árvore que a sustenta, a quem ninguém alimenta, porque ninguém repara que ali está e quando, raramente acontece, alguém se apercebe dela, diz: aquela árvore dá fruto naturalmente, não precisa de ninguém que a alimente, que a regue, que lhe combata as pragas a que está sujeita, que a proteja da agressão de que é alvo, que a abrigue do frio, da geada e do granizo! E não reparam que o fruto da árvore não sorri. Não precisam disso, não lhe sentem a falta!

 

E a boneca fala, a boneca pensa, a boneca vê e a boneca sente.

 

Mas não passamos de animais que, quando famintos, começam a fazer e a procurar coisas, como se ao gostar de si gostassem deles, como se ao querer para si quisessem para eles e oferecem-se e dizem: “Estou aqui para ti”, mas estão ali para eles, estão ali para beber deles o sangue de que se alimentam, como vampiros inconscientes, sôfregos, insaciáveis, insatisfeitos, negligentes, achando-se com direitos ao que não lhes pertence, e nem o que são lhes pertence. Não somos os donos de nada, não somos donos, não somos nada.

 

Às vezes os animais parece que amam, como golfinhos que acasalam fora do período fértil com cio, mas ainda assim o instinto é o mesmo, sem ser o da procriação, é o da sobrevivência, aqui de forma mais egoísta, sem sequer pensar na espécie, na sua continuidade ou até no planeta que, em parte, também ajudam a manter!

 

E a boneca persiste, insiste, existe. Só por isso, por mais nada! Mas a boneca chora e não parece viver por instinto! É só aqui que alguém pergunta se se trata realmente de um animal! A boneca não responde, os animais não falam!

 

E os animais gravitam! Ignoram o silêncio, a distância, o mutismo. Tinham por certo, o que era incerto. Por infinito, o finito. Por razoável, o impensável! Por verdade, o insustentável!

 

Mas eis que chega a boneca. Meu Deus, a boneca vem nua! Não que se despisse, tiraram-lhe a roupa! Os animais rasgaram-lhe a roupa, os animais comeram-lhe a roupa, os animais beberam-lhe o sangue, os animais sugaram-lhe toda a energia... e os animais pararam em frente à boneca nua, detiveram-se, fizeram perguntas, gritaram respostas, pediram promessas, exigiram desculpas... e a boneca não falou.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

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