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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

25
Set19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

No Serviço de urgência

 

 

A sensação era de angústia ou de ansiedade. Nunca soube distinguir muito bem estas duas coisas, embora as saiba não sinónimos; mas percebi que naquele momento isso não era importante. Aquele estar a respirar com a convicção de que o momento seguinte é provável, mas sem certeza nenhuma disso!

 

Mesmo assim, ainda conseguia ver. Esta coisa de termos dois olhos permite-nos ver coisas que só com um nunca conseguiríamos ver. E vi, através do vidro da janela que dava directamente para a rua, uma mulher deitada no chão. Dormia, aparentemente dormia. Mas as coisas não me pareciam bem e demorei poucos segundos a reagir. Fui ter com o Segurança e informei-o. Seguiu-me e quando viu a mulher disse: “Ah, já é normal! Tem HIV, tuberculose… foi aqui vista esta noite. É melhor que não se chegue perto dela, percebe?” E afastou-se. Já era normal...

 

Uma coisa que numa primeira vez não é normal, acaba por sê-lo pela repetição, embora a situação seja exactamente a mesma que nos faz reagir na primeira vez, mas não nas vezes que a ela se sucedem! Não, não percebia.

 

Será que ao consentirmos no habitual estamos, sem ter consciência disso, a permitir que ele se converta em normal quando pode até ser aberrante?! Parece que o uso está a prescindir de critérios e isto é perigoso.

 

Passado algum tempo a mulher acorda com a realidade, ou com a luz do Sol a bater-lhe no rosto e que lhe serviu apenas de despertador. E levanta-se da realidade da noite para a realidade do dia.

 

Entretanto chamaram-me e entrei.

 

Quando saí, a mulher estava sentada no muro do hospital, em frente ao Serviço de urgência. Vai passar o dia a ver chegar e partir ambulâncias, com pessoas debilitadas, provavelmente mais do que ela, e vai ficar com aquela sensação de “conforto” que nos deixa tragicamente a frase, depois de mentalmente verbalizada: “Há pessoas que estão muito piores!”

 

Os hospitais têm isto de bom: em alguns casos as pessoas saem de lá melhor do que quando entraram! Mas também têm coisas de mau: às vezes não saem e outras vezes saem não pessoas. Dizem que é a vida, quando mais parece ser a morte.

 

A angústia não me passou nesse dia e a ansiedade também não. Agravaram-se as duas, individualmente, porque são não sinónimos; mas agora que falo nisso, percebo que está na altura de as abandonar, deixo-as aqui.

 

O Planeta, apesar dos maus tratos de que é vítima, continua a correr e a rolar pelo espaço à velocidade de trinta quilómetros por segundo e, ainda que inadvertidamente, leva pessoas consigo.

 

 Se calhar é mesmo normal!

 

 

Cristina Pizarro

 

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