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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

02
Out19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

Memórias

 

 

O que raio havemos de fazer com as memórias?! Está tudo em pastas de arquivo: as boas, as más, as assim assim, as mais ou menos... A ordem do arquivo não tem qualquer critério, é quase aleatória, às vezes chega a ser caótica, embora uma coisa possa não estar directamente ligada à outra. Há as que envelhecem e morrem, as que nascem e crescem, as que se modificam, as que se inventam, as que se avivam, as que se contorcem, as que incomodam, as que se sentem incomodadas por outras, as próximas, as amigáveis, as familiares, as oportunas, as inoportunas, as desajustadas, as pouco adequadas, as mentirosas, as enganadoras, as submissas e as prepotentes, as subversivas, as dissimuladas, as voluntárias, as solícitas, as passadas e as antepassadas, as tristes e as alegres, as apressadas, as atrasadas, as equívocas e as inequívocas, as claras e transparentes e as nubladas, as leves e as pesadas, as capazes e as incapazes, as calmas e as histéricas, as ternas, as amorosas, as imprevistas, as impensáveis, as...

 

Se isto fossem só palavras, podíamos bem, mas são memórias! O disco rígido não tem capacidade para guardar tanta informação e quando queremos adicionar uma nova, pede-nos para apagar uma de que não precisamos. Qual escolher? Como avaliar a mais importante? Juiz em causa própria!

 

Tentamos enganar o sistema, não deitamos nada fora, resumimos, abreviamos, mas a quantidade de MB libertada não é suficiente. Arranjamos um plano de contingência, sem pensar muito: apagamos as mais antigas e mantemos as mais recentes. Damos logo conta da asneira: as mais recentes ainda nos lembravamos delas, não precisavam de ser guardadas! Desperdiçámos espaço de memória para o que ainda estava lá, sem necessidade de ser guardado. Há então vários tipos de memória... Já nos tinham falado disso caramba, da memória recente e da memória antiga, até têm nomes clínicos para a sua perda, alguns estrangeiros, porque não fomos nós a inventá-los.

 

E eu estou aqui lucidamente, conscientemente, a fazer todo este exercício que parece patético porque o que eu verdadeiramente queria era trazer-te de volta, mas como é que eu faço isso se não me sais do pensamento?! Se ainda não fazes parte da minha memória?

 

Na verdade, algumas coisas sim. Lembraste daquela vez em que me foste acordar e me deste um beijo no pé? Disseste: “Acorda meu bebé grande!” Eu não era assim muito grande, só tinha 18 anos e também acho que não estava a dormir, senão não tinha ouvido isto que me ficou na memória. Isto e outras coisas, como daquela vez em que eu te estava a comunicar que me queria casar, uns dias depois de me teres dado o beijo no pé, e tu me disseste: “Parece-me cedo, mas a vida é tua. Se te sentes preparada e é isso que queres, não sou eu que te vou impedir.” E eu, em silêncio, a perguntar-me: Preparada para quê, como é que eu sei o que quero?! E percebi, que se fazia as perguntas, era porque a mim também me parecia cedo.

 

Desculpa estar aqui a dizer isto, só agora reparei que nos estavam a ouvir, mas não tem mal pois não? Não disseste que era segredo, eu só o guardei porque achei bonito.

 

Sabes, tenho a cabeça cheia de memórias, agora mais do que antes, porque agora já não tas posso contar, como fazia dantes e elas acumulam-se na mimha cabeça e já te disse, não há espaço para tudo!

 

Agora, com estas normas internacionais da qualidade, obrigam à política de substituição, ou seja, quando alguém se ausenta, seja porque motivo for, tem de haver alguém a substitui-lo. Acho que nunca te cheguei a dizer isto e agora é tarde!

 

Mas hoje é o dia dos teus anos, é a primeira vez que não fazes anos no dia dos teus anos e eu, que não sou Deus nem tenho Deus dentro de mim, quero dar-te de presente a eternidade e dizer-te que, enquanto eu for viva, vais fazer sempre anos no dia dos teus anos.

 

Mas acho tão pouco! Porque o que eu realmente queria era trazer-te de volta! Vens? Vá lá, dá-me esse presente no próximo dia dos meus anos, porque este ano não os fiz, porque tu não estavas!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

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