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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

09
Out19

Crónicas de assim dizer

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Parto sem dor

 

Depois de uma demorada e prolongada espera de ansiedade e angústia pelo meio, o médico apareceu no corredor e disse a frase que o pai esperava: “Mãe e filho estão bem.”

 

O processo passou por altos e baixos, situações de stress extremo, em que todo o investimento físico, mental e emocional fizeram o “boneco” crescer numa bolsa de líquido amniótico que protegia a cria contra traumatismos vários, caso ocorressem. E ocorreram.

 

A mãe manteve, desde o início e durante toda a espera, uma fé que nem ela sabia onde tinha ido buscar. Tinha, não cometo o erro de dizer: nascido forte, porque ninguém nasce assim, mas tinha-se tornado forte. Tinha, ao longo de toda a sua vida, lidado e combatido com toda a estupidez, ignorância, crueldade e insensibilidade de que um ser humano é capaz e isso fez dela uma heroína, capacitou-a para não desistir em nenhuma fase da vida. Afastou monstros, aprisionou fantasmas, saltou abismos, fintou emboscadas, planou, sobrevoou, viveu e sobreviveu. Deu-se a luxos quando se podia dar a luxos e sofreu miséria quando não havia nada nem ninguém no horizonte. Teve vários filhos, uns prematuros, uns a termo e outros depois. Quando, chegada a hora, o médico lhe perguntou: “Como quer o parto? Normal ou com epidural?”, ela respondeu tranquilamente: Com anestesia geral. O médico não estava à espera, não percebeu porque a parturiente não tinha pressa de ver o rosto da criança e escolhia a possibilidade de acordar horas depois, quando podia vê-la já, mas ela acrescentou: Não há por que ter pressa, sei o que aí vem, é muito bom, posso esperar.

 

Quando despertou, não perguntou onde está a criança e o médico continuou sem perceber a atitude: “Então não quer saber como...” Não, eu não pergunto, mas não é porque não quero saber, eu não pergunto porque já sei: Nasceu com 49,5 cm, pesa 3, 250 kg, ligeira icterícia neo-natal que a fototerapia está a solucionar, grupo sanguíneo 0 positivo. Respira autonomamente. Foram-lhe aspiradas algumas secreções brônquicas, é normal. Hoje, chega-me isso.

 

Mas...

 

Hoje, chega-me isso! E partiu sem dor, tendo no entanto ficado. Pariu sem dor, foi mãe sem dor, como é que os médicos não percebiam? Era o seu destino, a contrariar o preconceito de que o sofrimento precede sempre a plenitude. Não era assim, havia coisas que naturalmente eram apenas boas.

 

Cumpriu-se, enquanto pessoa, atingiu aquela coisa estranha e pouco frequente de nada mais haver a fazer. O mundo estava ali, a seus pés. Tinha finalmente um nome, uma razão de ser, um propósito e ela, sem dor, sorria e dizia: Se me tivessem dito que isto era tão bom, já tinha acontecido muito antes! Mas ninguém lho tinha dito, as pessoas são assim, a vida é assim, a de uns não justifica a de outros.

 

Hoje, são exactamente essas crianças que fazem rolar o mundo e que contrariam desde o início a tradicional frase, modificando-a para: Parir não é dor, criar é amor. Pois assim foi.

 

Cristina Pizarro

 

 

 

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