Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Out19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

Manifesto intemporal

 

As pessoas pensam que se conhecem e estamos tão enganados! Achamos que o “com viver” nos dá acesso aos mistérios delas, aos segredos, ao como são, ao que pensam, ao como sentem, ao que querem, ao quem são! Nada disso! Conhecemos o boneco, o actor, o autor correndo bem, mas nunca o ser humano. É sempre uma surpresa o do que elas são capazes, o do que elas são possível!

 

Dizem que somos “intelectualmente sadios”, procurando obter nisso a desculpa, o perdão do seu comportamento quase psicótico, do seu padrão narcísico insustentável, da sua essência precária no que respeita a emoções, da sua falta de solidariedade enquanto parceiros num mundo adverso, o que temos! E nós estamos ali a ouvir aquele discurso fluente em palavras, mas vazio de sentimentos, com percepções distorcidas, ambíguas, canalizadas em direcções enviesadas, onde destino algum faz sentido! Ouvimos, damos a ideia que compreendemos, mas só percebemos! A nossa inteligência tem um filtro que nos não permite o alinhamento de conceitos viciados que têm por propósito o convencimento do irreal no outro, que é de carne e osso! Nós somos assim, em nós tudo é de carne e osso! Chama-se a isto autenticidade.

 

A conversa flui, o interlocutor não se apercebe dos abismos que está a deixar, grão a grão, no caminho e que só lhe vão servir como desorientação no percurso de volta que vai fazer, mas que não sabe, porque naquele momento não pensa nisso, deixa-se apenas ir, achando inconsequente esse movimento que o suporta, que o desloca e o conduz a um precipício iminente!

 

Não o dizemos. Nesta fase de descontrolo a pessoa não está atenta aos sinais, não os vê, não os apreende, não os identifica, não os percepciona. É como se eles não existissem, embora estejam assinalados por todo o lado e em todas as inflexões do trajecto. Atempadamente colocados todos os sinais de trânsito. Bandeirinhas a delimitar o percurso, semáforos intermitentes e às cores, bandas sonoras de alerta, avisos de aproximação de perigo: a 500m, a 300m, a 100m, desprendimento de pedras em precipício, curva perigosa à direita, pendente de x%, trave com o motor, reduza a velocidade, no túnel acenda os médios, faróis de nevoeiro, derrame de óleo, rua de sentido único, estreitamento de rua... O condutor não se apercebe de nada disto. Está como que num estado de embriaguez, com os reflexos atenuados, reduzidos, mas a achar-se capaz e com tudo a funcionar. Damos conta, é claro que damos conta. A lucidez tem isto de bom: vemos com a luz apagada!

 

Façamos um intervalo como que para avaliar o ponto da situação. Meu Deus, só era preciso ter aberto os olhos na altura certa! E nós com eles abertos e a não querer ver, a teimar em não querer ver. Parece que de vez em quando temos o diabo no corpo! Talvez seja preciso exorcizá-lo, alguma coisa há-de haver que possamos fazer! E ficamos ali por tempo indeterminado, com a dor anestesiada, ligados a máquinas de suporte vital, entubados até aos ossos ou à ponta dos cabelos e quando temos alguém lúcido na nossa vida que vê por nós e nos pergunta: “Então e hoje, como é que se sente?” Nós respondemos estupidamente: Bem! Claro que a partir daqui ninguém faz nada, as pessoas são nossas amigas e dão-nos o direito de nos suicidarmos lentamente. Pois se é consciente, se até deixámos um papel escrito a dizer que o permitíamos! Não, não estou a falar de eutanásia, ou pelo menos não daquela que ainda é discutível; falo de uma eutanásia mental, um processo involutivo donde só acordamos, se acordarmos, tarde demais. E o tarde demais significa: não a tempo de evitar o pior, que é sofrer. Falo assim, mas isto é bom, porque enquanto este sofrimento durar estamos protegidos de nos meter num pior! E convenhamos que pode haver sempre pior, não podemos perder a razoabilidade. Percamos tudo, o bom senso não. O que achamos servir para os outros, deve servir para nós. Feito o exercício, regressemos agora ao ponto onde atrás ficámos.

 

Naquele ponto do discurso começamos a dividir a nossa atenção, somos capazes disto quando queremos, entre o que nos é dito e o que não! E chegamos primeiro ao destino, cortamos a fita da meta, mas não dizemos vitória, porque não é isso que queremos e porque isso não tem interesse nenhum para nós. Quando o outro chega finalmente ao que pretende, nós já estamos de volta. Claro que regressámos por outro caminho, porque nos apercebemos, no improvável deixarmo-nos ir, que aquilo tinha uma sementeira de minas, como quem planta batatas a céu aberto! Alguém que venha atrás que as cubra. Não vamos ser nós!

 

Da bifurcação por onde saímos, por onde cortámos, na auto-estrada, o nosso interlocutor não deu conta, chegámos ao nosso porto de abrigo. Tínhamos deixado lá um farol, era muito difícil perdermo-nos!

 

Estamos finalmente em casa, em paz, como fomos é como vimos.

 

Chama-se a isto maturidade. E podemos ser na mesma, em adultos, os meninos da aldeia como nascemos, os líricos que se resignam e explicam porquê ou seja lá o que for! São coisas diferentes! Há que saber ver diferença no que é diferente para sermos imparciais!

 

Depois há outra coisa, que deve ser servida, nestes casos, como sobremesa, porque o melhor se deixa para o fim, ainda que nos apeteça desde o início: a dignidade, aquela coisa que se nos colou à pele ainda no útero materno e que banho nenhum remove por mais agressivo que seja o gel ou a pressão da água, porque é intrínseco ao Ser Humano.

 

Mas todo este discurso tem uma ressalva. Se estivermos a falar de crianças, que obviamente também são Seres Humanos, a elas isto não se aplica, por causa daquela coisa de à nascença ainda não termos completa a maturidade pulmonar, hepática, imunológica, etc.

 

Dizem, e é verdade, que leite materno, na altura certa, resolve quase tudo! O tempo,

 

feliz aliado, faz o resto.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

Comentar:

CorretorEmoji

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Que bom! Só espero que isto vá despertando os fla...

    • Anónimo

      adorei ler sobre o local onde nasci e vivi e que m...

    • Anónimo

      ...

    • Anónimo

      Bem vindo amigo. Espero que volte com toda a sua f...

    • Anónimo

      Aí nasci estudei aonde é hoje o solar de ...