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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

13
Nov19

Crónicas de assim dizer

cabecalho-assim-dizer

 

 

A conquista

 

Podia-se dizer que tomei a cidade de assalto, mas mentia-se. Verdade verdadinha, conquistei-a. E foi fácil, nada de nos armarmos em heróis, não nos fica bem nesta idade. Foi genuinamente fácil. Bastou ser, genuinamente ser.

 

Claro que os habitantes tinham, têm todos, um património histórico, dito por alguns cultura, por outros crenças, que dificultam a chegada e que é vista, de início, como invasão. Mas com o tempo tudo se dilui. O que é tido como agressão passa rapidamente a desafio, o que é visto como abuso passa a surpresa e o que é entendido como excessivo passa a brincadeira.

 

Começa-se um processo de diálogo que mais não é do que uma negociação. Celebra-se um contrato a que não damos este nome, porque temos alguma repulsa por coisas escritas que advém do medo do assumir compromissos, escudando-nos em termos nobres, de disso substituição, como liberdade, ideologia e democracia, mas que não passam de uma areia miudinha que nos atiramos aos olhos. Enfim, pode ser saudável. As cláusulas do contrato são em número elevado, têm notas, ressalvas e excepções, abordam contextos infindáveis, circunstâncias várias e para o que não temos solução ou remédio escrevemos: não se aplica.

 

Pouco tempo depois, quando voltamos a ler o contrato, percebemos que é bilingue! Não foi isso que assinámos! Na altura pareceu-nos que estava tudo claro, que não havia dúvidas nem segundas intenções. E se hoje nos fosse dada a possibilidade, que não é, teríamos escrito isto em vez de aquilo. Apelamos então a um tradutor para clarificar as coisas e quanto mais o consultamos mais as nossas ideias ficam confusas. Desistimos de nos meter por aí e fazemos bem.

 

Voltemos à cidade onde atrás ficámos. Fizemos primeiro uma visita guiada e comentada, mas o tempo era limitado e houve coisas mal vistas. Curiosos como somos voltámos lá, mas desta vez sozinhos e a cidade pareceu-nos outra. Saímos e voltámos a entrar. Achando que tínhamos estado desatentos ou demasiado cegos na primeira vez, regressámos com um maior nível de tolerância, flexibilidade, consciência e atenção.

 

Começámos então a ver as coisas só com os nossos olhos e não submissos à interpretação de um guia, que tem uma perspectiva diferente da nossa porque tem um grau de envolvimento diferente e outra experiência de vida. Isto não nos interessa porque não nos ajuda nem a compreender nem a aceitar.

 

Notamos então que as ruas da cidade não levam aonde nos disseram, que as fachadas dos edifícios reconstruídos têm outros alicerces que não os originais e que as pessoas que neles habitam têm outros usos e costumes. A única coisa que se mantem é a fachada, uma obrigatoriedade legal. Começamos a ficar com alguma instabilidade por achar que fomos enganados e decidimos dar um passo atrás para ver, mais que o tronco da árvore, a floresta inteira.

 

Dá-se uma espécie de colapso. Muda completamente o paradigma. É aqui que decidimos que a conquista da cidade, que então fizemos com enorme entusiasmo, não nos beneficia em nada. Ou seja, temos um espaço que até pode ser nosso, habitantes que até podem falar a nossa linguagem, mais coisa menos coisa; temos um nome inscrito numa placa, quando a cidade começa, e o mesmo com um traço noutra, quando a cidade termina e, feitas as contas, estamos pior do que antes da sua conquista, sentimo-nos ainda mais estrangeiros.

 

Nesta fase surge-nos uma necessidade. Sentimos a urgência de deixar a cidade porque lá não estamos a fazer, objectivamente, coisa nenhuma e, porque somos boas pessoas, não nos permitimos habitar uma cidade que não é nossa e à qual não pertencemos.

 

Neste processo começamos por fazer um balanço, não vá a gente precipitar-se numa altura em que já não há tempo para brincadeiras destas, e o resultado é surpreendente: nos pratos da balança notamos que uma coisa má equilibra com dez boas. Tinham-nos dito, no curso de formação, que a relação era uma para quatro, mas não consideraram uma variável importantíssima e decisiva, o factor idade. À medida que o tempo passa a correspondência varia desta forma proporcional.

 

E o que no princípio era tido como desafio passa rapidamente a agressão, o que era visto como surpresa passa a abuso e o que era entendido como brincadeira passa a excessivo.

 

Feitas as contas, deixamos a cidade.

 

 

Cristina Pizarro

 

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