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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

08
Jan20

Crónicas de assim dizer

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Do outro lado da rua

 

Uma das maiores capacidades que temos é vermo-nos como se fôssemos um outro, observarmo-nos de fora, vermo-nos, por exemplo, a atravessar a rua e do lado de cá, olhos nos olhos, descrever o perfil psicológico do outro que de nós se separou e que agora está, atravessada a passadeira, do outro lado da rua!

 

Seriamos capazes de lhe ver as qualidades e os defeitos, manter umas e corrigir ou melhorar as outras!? Estabelecer diálogos, usar argumentos que servem nos dois sentidos: na concordância e na oposição; e assistir, sem interferir, ao desfecho da conversa!? Ver como reagiríamos no caso de ela ser controversa ou, em oposição, assistir simplesmente ao debate de ideias, mais do que ao embate? De que lado ficaríamos? Com qual nos identificaríamos mais? Seriamos mesmo capazes de comunicar, fazer amizade?

 

É possível isto? Sairmos do corpo mantendo a alma incólume e subdividindo-a, sem a fraccionar? Levar de tudo a parte que seria precisa para reconstruir uma nova personalidade… Seriam gémeas? Falsas ou verdadeiras? Verdadeiros irmãos, digo geneticamente, filhos do mesmo pai e da mesma mãe?! Ou talvez nos surpreendessem as personagens que então se formariam e, a partir daí, se desenvolveriam! Seriam compatíveis!? Viveriam numa luta constante ou, ao contrário, partilhariam a parte que lhes fosse comum, respeitando as diferenças entre si!?

 

Assim me vi, de fora, do outro lado da rua e persegui a imagem tentando espiar ou perceber o que faria ela sem parte de mim! Deambularia, por certo, pela cidade à procura de um canto, de um recanto, onde se ou me encontrasse! Onde esconderia os medos incapacitantes, os desejos não fazíveis, os sonhos não realizáveis, as vontades não expressas, os sentimentos não assumidos, as emoções irreprimíveis e os pensamentos livres, sem dono nem mentor!? O que seria eu longe de mim? Sentiria alguma ausência, algum espaço por preencher, algum vazio no espírito que, agora, parecia livre e se arriscava em voos intangíveis, inacessíveis, como se de repente tivessem, no corpo ausente, surgido umas asas que permitiam à alma planar sem esforço, sobrevoando a terra, o mar e as sombras no imensurável céu, por cima das nuvens, onde sobeja o sol?! E o outro como se sentiria, o que não atravessou a rua e ficou do lado de cá da passadeira? Ou de lá, que eu não quero tomar partido nisto!

 

Se se perdessem nas ruas da cidade, deixando um de perseguir a curta distância o outro, conseguiriam encontrar-se, reconhecer-se, identificar-se!? Teriam, nesse momento, presente que se tratava de um reencontro ou teriam necessidade de se apresentarem como se de dois estranhos se tratasse!? Qual ou quem o faria?

 

Teria o acaso o poder de isso determinar, sem estar antes escrito? Pois como o poderia estar se a decisão, a ser tomada, teria partido de uma parte deles que o outro desconhecia? Desconhecia a decisão, mas conhecia a parte que, em parte, isso decidiu. É possível, pelas circunstâncias, reconhecer-se o interior das coisas, fora delas?

 

Parece arriscado o exercício! E arriscado dizê-lo sem se conhecer do que dele resultaria. Mas temos o quê a perder, objectivamente qual é o risco que corremos? Pois não sabemos e quando não sabemos, o ser irrequieto que há em nós experimenta, quase sempre, porque tem a expectativa de vir daí alguma coisa mais.

 

Assim fiz, deixei que o outro atravessasse a rua e, de propósito, enquanto ele escolhia a direcção que iria tomar, virei-me de costas. Quando retomei a direcção do anterior olhar, ele já lá não estava!

 

Percorro hoje as ruas da cidade sem propósito consciente, consciente de não precisar que haja um, embora tenha a lucidez de perguntar constantemente: o que procuro eu? E não sei, como tudo o que há em mim para ser: não faço nenhuma ideia do que seja!

 

É importante isto? Talvez não seja, mas cresce em mim a convicção de que nunca o encontrarei, embora tenha ao mesmo tempo a certeza de que se, por um acaso ou sem ele, nos cruzarmos um dia, ah sim, eu vou reconhecê-lo no primeiro olhar. Sei também que vou sorrir, mas já não tenho a certeza se o vou abraçar!

 

Pensando bem, o que é sempre difícil de fazer, talvez seja melhor ideia não o perder de vista. É ao menos mais seguro e o não saber é sempre um desconforto para a alma e para o corpo.

 

Estava exactamente a tirar esta conclusão quando, por escassos segundos, o olhar se desviou irrefletidamente no empenho do pensamento e quando retomou o lado de lá da passadeira, ele, já lá não estava. Aconteceu o que já tinha acontecido, primeiro sem pensar, depois com a consciência disso!

 

Confesso aqui, porque não me permito mentir-me, que a distracção não foi de propósito, embora eu faça muitas vezes isso. Desta vez não. Foi sem querer que perdi o outro de vista, das duas vezes! E vem talvez daí este sentimento ou sensação de que anda sempre alguém atrás de mim ou comigo e vem daqui o inconformismo, este não aceitar, esta quase culpa de ter perdido uma parte de mim por não me levar, o quanto devia, a sério.

 

Mas lido bem com isso, nesta fase há poucas coisas com que não lido bem. Fica, no entanto, o alerta de que pode ser perigoso experimentar isto em casa!

 

Cristina Pizarro

 

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