Crónicas de assim dizer
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Nostalgia
A casa envelheceu, aquela fotografia de quando eras nova... envelheceu. A cadela estava triste, ninguém lhe disse nada, mas ela percebeu. Não ouviu a tua voz e estranhou.
Primeiro correu bem, como se te víssemos ao longe, mas depois passou algum tempo e tu não chegaste. Esperámos, ficámos ali a conversar à espera que entrasses, de vez em quando olhávamos para a porta, mas ela não se mexeu.
Deitámo-nos e no dia seguinte, ao contrário do que durante décadas aconteceu, ninguém nos acordou. O leite com as torradas não veio ter ao nosso quarto, na cozinha não havia nenhum barulho. Aquela conversa habitual que todas as manhãs tinhas com o pai não aconteceu e nós pensámos que, finalmente, tinhas posto a conversa em dia e hoje não tinhas de que falar! Ao fim de 62 anos era normal, não?
Apanhei a roupa do estendal, já estava seca, mas agora não sei onde a arrumar. Também não sei o que encomendar para o almoço, hoje dizem que há cozido e bacalhau com broa, mas está tanto calor! Se calhar era melhor uma salada fria, mas de quê?
Onde raio é que te meteste?! Já peguei não sei quantas vezes no telefone para te ligar, mas depois dou conta e volto a metê-lo na carteira. Há tanta coisa que te queria contar e outras perguntar… Aquelas de que não me lembro bem, porque não estava muito atenta, aquelas outras que só tu é que sabias... porque é que não as contaste a ninguém? Se calhar contaste, mas eu não sei a quem e agora está tudo espalhado, repartido e eu sinto-me tão perdida!
Também não percebo o sentido daqueles sinais que colocaste a lápis no livro que te dei e que andavas a ler! As interrogações, era quando não percebias ou quando não concordavas? E as cruzes, era porque não gostavas ou para sublinhar o que te agradava? E as bolinhas, o que raio significam?
Ficou tudo por acabar, tudo por concluir, tanta coisa por dizer! Não te cheguei a explicar, pensava que tinha tempo...
E o que faço com as coisas que me disseste? Posso dizê-las? Devo? Quem é que vai acreditar? Se eu as disser, é pela minha voz que as ouvem e não pela tua! Tens razão, não serviria de nada e nem eu posso ter a certeza de que foi assim, porque o mais que me é possível é que eu percebi assim, mas nunca vou saber se foi mesmo isso que tu me disseste! Guardo para mim, vou guardar tudo para mim, porque só assim é que eu posso ter a integridade ou a lealdade do que me foi dito, partilhado. Mas dói-me isto e custa tanto não ter alternativa! Pode haver uma, mas é cedo ainda!
Diz!? Ai desculpa, pareceu-me ter ouvido a tua voz, ainda agora estavas aqui…
Não te cheguei a explicar daquela vez, lembraste?, em que tu me perguntaste, e depois nunca mais tive oportunidade e agora que tenho sinto-me tão ridícula!
Sei que não te competia a ti, nem estava em teu poder, mas fazias tanta coisa…, porque é que não me avisaste? Nem tu sabias, foi só por isso, caso contrário ter-mo-ias dito. Aliás. num daqueles últimos dias começaste com uma conversa a meio da noite que eu achei suspeita, não era nada teu, mas não tive a inteligência de perceber que aquela conversa, àquela hora da manhã, podia ter outra intenção, ainda que não consciente! Mas quem é que pensa nisso quando está a meio da noite, a tentar dormir, exausto….
Aparentemente foste só tu que morreste, eu vi-te, não estava mais ninguém dentro daquela caixa, mas todos os dias me faltam novas coisas e eu não me lembro onde as deixei! Claro que sim, sempre, continuo com o teu número gravado para o caso de ser mesmo preciso, mas não quero estar constantemente a incomodar-te e vou fazendo mentalmente uma lista, para depois tas dizer todas juntas.
Primeiro, tenho de perceber o que aconteceu. Sabes como sou, enquanto não encontrar lógica nisto, o meu cérebro não avança em termos de entendimento. E eu sou exigente como o raio, ando atrás da fórmula matemática que me trará o conhecimento pleno! E não é só isso, não são só as coisas a faltarem-me, é também a relação com as pessoas… fragilizou-se, quebrou-se. Como se tu fosses a linha invisível que as sustentava, o elo de ligação que as mantinha próximas e algumas dessas pessoas tu nem conhecias. Como é que é possível? É que não percebo isto, e ando incansável à procura da razão.
Dizem-me, aquelas pessoas que percebem destas coisas, agora há especialistas e peritos para tudo, até para cabeças de alfinete: isso é porque ainda estás a fazer o luto! Claro que dizem isto e não se apercebem que na minha cabeça se formula de imediato a pergunta: e esse processo termina quando?! Não faço a pergunta porque sei a resposta que me dariam: depende da pessoa. É claro que eu acrescentaria um "s" a fazer plural: da que parte e da que fica. Acabámos de acrescentar mais uma incógnita à equação, que eu sinceramente duvido muito que tenha solução. E vêm logo os peritos dizer: o tempo cura tudo. Mas, exactamente: quanto tempo? Depende das pessoas. Aqui já acrescentaram sozinhas o "s", sem eu ter feito nenhum reparo, como se os que ficam fossem sempre mais que os que partem! Aqui acho que concordo. Por cada um que parte, ficam vários. Mas isto não facilita nada as coisas nem as simplifica nem as agiliza nem as torna mais percetíveis nem mais suportáveis.
Até do teu silêncio sinto a falta!
Cristina Pizarro


