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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

01
Abr20

Crónicas de assim dizer

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Os protagonistas

 

 

Há pessoas que têm uma realidade que é só delas! Não se consegue lá entrar, porquê não há portas de acesso. Pensamos que sim, ficamos curiosos e andamos ali à volta da casa de madeira com janelas onde através delas se não vê nada, nem de fora para dentro nem de dentro para fora. É um mundo estanque, onde não há qualquer interacção. Primeiro achamos que é um mundo, uma realidade, inconsequente; mas com o tempo vamos percebendo que a palavra adequada é: irresponsável. Como pessoas sérias que somos, mas atraídas pelo abismo e arrastadas pela curiosidade com que nascemos e que se não esgotou na infância, andamos ali por perto a querer perceber o que não tem explicação. Só muito mais tarde é que damos conta.

 

Investimos tempo, emoções, sentimentos, energia, quase nos esgotamos num esforço inglório de encontrar nem que seja alguma lógica, algum porquê, naquilo tudo. Racionais, como também somos, partimos para a análise sem nos apercebemos que os pressupostos estão viciados, porque nos são apresentados de forma díspar, ora revestidos por um conceito ora por outro. Quando estamos, finalmente, a formar uma opinião coerente, mudam-nos os princípios. E nós andamos ali às voltas, à toa, como marionetas de uma peça de teatro sem direcção de artistas, mas com guião. Valorizamos isso, apreciadores das pequenas coisas da vida e, porque pagámos o bilhete, insistimos.

 

Convencemo-nos que a peça tem um qualquer propósito, que não o exclusivo de servir o ego do seu actor principal. Surpreende-nos o facto de a casa de madeira resistir como uma árvore milenar a toda e qualquer tempestade, a toda e qualquer adversidade; verga temporariamente, mas não parte. Reconstrói-se do nada, como naqueles filmes de ficção científica onde é patente que as imagens estão completamente fora da realidade. Aqui não, parece-nos tudo a sério. O boneco está bem feito, a caracterização do personagem brilhante, não há carnaval assim que não possa ser verdade, ainda que limitado no tempo.

 

Voltamos lá. Umas vezes batemos à porta, outras esperamos cá fora que de dentro a abram. Entramos sem pensar, mas pouco tempo depois somos projectados violentamente para as águas geladas do rio que banha os pés da casa. Quase nos afogamos, pedimos ajuda; mas ninguém está por perto, ninguém nos ouve. O proprietário da casa já ligou a música e colocou os phones! Finda a tarefa diária que o alimenta, recolhe-se no desconforto da sua precaridade; que novamente reveste de magno conceito, virtual. Tudo nele é grande e falso.

 

No dia seguinte voltamos lá com o pequeno almoço, alimentando o predador por o acharmos inofensivo.  Vamos uma e outra vez, até ao dia em que novamente projectados a pontapés para as águas geladas do mesmo rio, encontramos um peixe que nos diz, um peixe que fala: estreia hoje no cinema Trindade um filme francês, não, desculpa, no Teatro do Campo Alegre, que se chama...

 

Fomos ver. Quando o filme terminou e enquanto ficámos colados ao assento a digerir o que tínhamos acabado de ver, decorria atrás de nós uma conversa cujo interesse se sobrepôs e alinhou com o nosso pensamento. Depois de pedirmos licença para nos juntarmos a ela, apreendemos finalmente o que há muito tempo, em surdina, nos andava a dizer o macaquinho cá de dentro, aquele que se aninha acima do pescoço: Olha que não é o que tu pensas! É sim senhor, dizia o outro macaquinho que também temos cá dentro, aquele que se aninha entre os pulmões, assim mais para o lado esquerdo. E nós ali a vacilar entre os dois, sem saber muito bem a quem dar ouvidos, porque o primeiro é traiçoeiro e o segundo engana bem.; íamos saltando de ramo em ramo, fazendo uma acrobacia aérea no meio daquela selva digna de circo, onde só não ouvimos palmas no fim porque o espectáculo decorria à porta fechada.

 

Estranho foi termos furado a lona da grande tenda gigante sem termos perdido a vida. Bem, sinceramente, não foi assim tão estranho. O leão dormia, o tigre era fêmea e amamentava a cria, a grande pantera negra alimentava-se, o elefante rezava o terço, a família de hipopótamos em reunião, a serpente deixava-se encantar e o urso era ainda bebé, inofensivo. A única coisa que nos aconteceu foi ter tropeçado num macaco, que até nos deu a impressão de ter sorrido, ao ver-nos em fuga. Os macacos são um bocado estranhos, acham piada a tudo.

 

Cristina Pizarro

 

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