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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Crónicas de Assim Dizer - A inconsciência das palavras

23.05.18 | Fer.Ribeiro

assim dizer

 

A inconsciência das palavras


Nunca tinha olhado para as palavras sob este ângulo de visão, perspectiva, ponto de vista e a série de sinónimos que porventura virão no dicionário, se eu o consultasse!

 

As palavras são completamente vazias, ocas, nuas! São um invólucro, uma cápsula, um veículo, um meio de transporte, uma caixa… dentro, não têm nada. São um vaivém onde nós colocamos mensagens, significados, intenções, expectativas, crenças, pensamentos, sentimentos, emoções… Depois, colocamos-lhe um destinatário, um endereço, e elas vão.

 

Pelo caminho encontram outras, ficam na conversa, trocam impressões, contam o filme que viram no dia anterior e de que não gostaram, a peça de teatro fabulosa que a outra viu e que recomenda à amiga, uma terceira queixa-se do marido que não lhe dá o apoio que ela precisa, uma quarta fala do filho adolescente que lhe dá água pela barba, uma quinta do mau feitio da sogra que lhe põe os cabelos em pé, uma outra fala do chefe que a faz trepar pelas paredes, outra ainda comenta como é insuportável, em determinados dias, lidar com a solidão, outra feliz conta que se apaixonou e que está pela primeira vez a sentir coisas que nem sabia que existiam, outra ainda fala dos momentos inesquecíveis que viveu, não se lembra agora com quem, ainda outra fala das viagens recentes que fez pelo mundo e comenta como é inaceitável haver palavras que não viajam!

 

Depois desta conversa toda passou tempo, algumas entregas eram urgentes! Certas coisas ficaram esquecidas, sobrepostas por outras que, entretanto, entraram na memória das palavras, algumas eram importantes! Parte delas dissolveu-se no percurso e ficaram para trás, algumas eram inadiáveis! As mais pequenas como artigos, conjunções, pronomes, perderam-se por entre os bolsos rotos das palavras mais desleixadas e tiraram todo o sentido à frase!

 

Há ainda aquelas que pelo caminho sentiram frio ou calor e foram a casa mudar de roupa, antes de chegar ao destino! O nosso destinatário não as reconhece, quando chegam, como sendo nossas e diz depois que nós mudámos, que estamos diferentes e começa a fazer perguntas como: “O que é que mudou?, Porque é que estás assim?, O que é que tens?, Estás diferente, não pareces tu!, Aconteceu alguma coisa?, Porque não me contas? Fazia-te bem abrires-te!”

 

Depois há as distraídas, com défice de atenção e concentração, com falhas graves de memória que quando encontram o destinatário já não se lembram muito bem de qual era o recado a entregar, “tinha a ver com quê?, espera aí, estava relacionado com…, qualquer coisa do tipo…, não, não era nada disso, esse recado acho que era para outra pessoa! Como é que te chamas?”

 

Depois há as amputadas, aquelas a quem nós transmitimos sentimentos por inteiro, mas que têm limitações físicas ou mentais e que convertem o que dissemos em resumos, isto é, o todo em parte. A escolha que fazem na mutilação é completamente arbitrária, fica ao seu critério, não ao nosso. Tudo perde sentido!

 

Há também as inconscientes, que ficam com a informação e não dizem nada, por pura estupidez ou imaturidade.

 

Há ainda pior, as convencidas, as que se querem substituir a nós, fazendo juízos de valor e seleccionando na mensagem o que julgam importante e o que não. Estas são perigosas, apoderam-se da nossa vida como se fosse delas, põem e dispõem e nem sequer nos dão satisfações. São ditadoras, prepotentes, controladoras, arrogantes, julgam-se donas do mundo.

 

Depois há as sem escolaridade mínima, que julgam que coisas do tipo pontuação, parágrafos e outras coisas do género, são irrelevantes e prescindem delas na entrega como se fossem papel de embrulho, envelope ou selo de correio, que deixa de fazer sentido quando “entregue por mão própria”.

 

E haverá mais, haverá certamente muitas mais. Hoje lembro-me destas, em todo o caso temos de ter algum cuidado com as mãos em que colocamos as palavras porque a culpa, se a há, está repartida, depende das palavras que nós dizemos, das mãos em que as pomos e a quem as enviamos!

Seja como for, é com elas que temos de comunicar! Ou também com elas! Sim, principalmente com elas!



Cristina Pizarro