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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Crónicas de Assim Dizer - A PDI

06.06.18 | Fer.Ribeiro

assim dizer

 

A PDI

 

Chega uma altura na vida em que atingimos a chamada PDI, em que decidimos de forma consciente por quem nos deixamos enganar, por quanto tempo e de que forma. Alcançamos a similitude da balança, temos os pratos e temos os pesos.

 

Escolhemos a operação matemática: identificamos as parcelas, se optamos pela adição ou subtracção; os factores, se escolhemos a multiplicação; e, o dividendo e o divisor, se optamos pela divisão.

 

Temos o conhecimento e não o denunciamos (aqui é nitidamente um e, que não pode, ou não deve, ser substituído por um mas)!

 

Vamos até onde virmos vantagem nisso, até onde nos for confortável, até onde formos capazes, até onde isso nos compensar. Vamos sem esforço, sem luta, sem amargura, sem tristeza, sem desencanto e sempre com muita calma.

 

É um processo racional, mera e unicamente racional, os sentidos ou a intensidade deles é que são diferentes. O que há de mal nisso? Nenhum mal. Chegámos a uma fase da vida em que já adquirimos alguns direitos, por competência e merecimento.

 

Poderá parecer, assim para quem só lê, que há mágoa nisto! Nenhuma, o que há, e muito, é sabedoria! Sim, que vem com a vida!

 

As coisas passam a fluir como a água de um rio que não cavalga rochedos perdendo a força, antes os contorna, ganhando ânimo e velocidade, aceleração, em alguns casos.

 

A malograda falha na expectativa é um risco que não corremos, porque já partimos com ela definida. Não há surpresas desagradáveis, só boas. O resultado atingido supera, nas mais das vezes, o esperado.

 

Não precisamos de planos B, de criar alternativas, arranjar soluções improvisadas no percurso, estamos preparados para tudo. Se correr bem, é bom! Se correr mal, correu mal!

 

Ainda assim aprendemos. A atenção com que assistimos a tudo o que se passa à nossa volta é talvez a única coisa que nos consegue surpreender. Reparamos em tudo: nas palavras escolhidas, na inflexão da voz, na quebra do olhar, na frequência da respiração, na posição das mãos, no contorno dos lábios, nos batimentos cardíacos, nos movimentos esboçados, nos gestos treinados, no número de silêncios, na quantidade de hormonas libertada, ... Bom, em quase tudo!

 

As pessoas passam a ser-nos transparentes e nós para elas invisíveis. Não notam que nós notamos, por estarem excessivamente concentradas em fazer-nos parecer o que podem não ser. Não digo que não sejam, digo que podem não ser, e digo ainda que em muita parte até podem ser e às vezes são. Não o dizemos, essas coisas não interessam a mais ninguém a não ser a nós. Não vamos perder tempo nisso. O tempo que temos é cada vez menos, estatisticamente menos, provavelmente menos, embora não o saibamos ao certo, mas há sempre a probabilidade de. Nesta altura, basta-nos essa para tirar conclusões.

 

E, novamente, para quem só lê, pode parecer isto uma atitude desprendida para com o mundo, de total desilusão com os outros, de não querer saber! O contrário disso: agora sabemos exactamente o que nos interessa, o que queremos e o que não queremos. A cereja no cimo do bolo é que esta atitude sublime, subtil e elevadíssima só nos traz prazer e nunca dor! A felicidade pode bem ser isto. Assustador, de facto, mas são sempre assim as grandes obras: impressionantes, ininterpretáveis, surpreendentes, inimagináveis e, no entanto, deliciosamente possíveis!

 

Cristina Pizarro