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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Jul18

Crónicas de Assim Dizer - A pedra que pensava

assim dizer

 

 

A pedra que pensava

 

 

A lenda é antiga, data de há vários séculos. Não se sabe hoje, com rigor, quando e onde ela teve origem, que circunstâncias exactas determinaram essa passagem mítica da pessoa, do ser humano, à pedra de contornos humanos que hoje, em forma de estátua, ocupa o centro da rotunda por onde os carros circulam, ignorando, os mais novos, semi-embriagados pela sua juventude, a razão do estar ali.

 

Há várias correntes, várias filosofias. Uma diz que a causa partiu mesmo do coração, desse órgão único cuja força vital se foi, em declínio progressivo, esgotando; que a origem esteve numa falha de comunicação entre aurículas e ventrículos, que o sangue que fluía de umas para outros se foi, em quantidade, tornando menor ou, em velocidade, desacelerando, a ponto de o sangue se perder e se encontrar nos pequenos canalículos sem sentido, sem saber se era de lá que vinha ou se era para lá que ia.

 

Aquele modelo teórico que nos ensinaram nos liceus e nas faculdades, do sangue arterial e venoso circularem em artérias e veias próprias sem nunca se misturarem, sabemo-lo hoje, corresponde unicamente a um modelo académico, de acordo com uma das correntes de ensino que defende que para melhor se entender em determinada fase da vida, se ensina mal, para depois, quando o amadurecimento do aluno já o permitir, se contradizer e se ensinar o contrário disso. Certo ou errado, ninguém acredita hoje que assim seja e dizem alguns que essa mistura de sangues conduziu a um caos interno onde, sem rei nem roque, os eritrócitos se atropelaram uns aos outros, asfixiando os que transportavam CO2 aqueles com O2 em reserva, que os pulmões ali tão perto ficaram, sem razão aparente, a léguas de distância, onde as trocas gasosas se tornaram cada vez mais difíceis sem poder evitar o colapso final. Que depois disso o processo foi gradual e cientificamente previsível porque todos os outros órgãos entraram, primeiro em falência, depois em enfarte generalizado, até à necrose final.

 

Outra corrente diz que o processo se iniciou pelas extremidades. Devido a um arrefecimento brusco da temperatura exterior, o sangue dos dedos das mãos e dos pés, como acontece às vezes aos alpinistas no monte Evereste, começou a circular com dificuldade, a impedir os movimentos destes e a estagnar, diminuindo a sensibilidade dos membros, que ficaram esquecidos até à inoperância, antes que a pessoa reagisse e quisesse combater o drama, iniciando movimentos rápidos de aquecimento. Depois disso instalou-se um processo de gangrena progressiva, que por um destino latente se tornou impossível deter.

 

Seja qual for a razão, os factos são estes: o ser humano em causa, do qual não consta, mesmo em livros muito antigos, o mais pequeno registo da sua vida anterior, acabou por se petrificar, mantendo apenas incólume a característica do pensamento. (O tal pássaro na gaiola que não consegue voar, como dizem alguns, mas que continua a bater as asas!)

 

Dizem aqueles que, com frequência, se sentam no largo da rotunda à sombra da pedra, que já a viram chorar, que em determinados momentos lhe correm lágrimas verdadeiras pelas faces ou vertentes.

 

Aparecem, é claro, logo os cépticos a explicar o fenómeno físico da condensação do vapor de água na superfície fria da pedra, se bem que não consigam explicar muito bem a origem do vapor de água e porque se condensa só em determinadas partes da estátua coincidentes com a suposta localização dos olhos, metendo os pés pelas mãos, com saturações de vapor, higroscopicidade da atmosfera e outras tretas quaisquer que até se definem por equações matemáticas.

 

Dizem também, aqueles que conhecem bem a estátua, por passarem horas a receber o calor que dela emana após um dia quente de Verão, que também já a ouviram rir. E vêm logo os mesmos cépticos explicar que os raios solares ao incidirem e penetrarem nos vários ângulos da pedra se interceptam no seu interior e que atingem, ou podem atingir sob determinadas condições, que eles são vagos, a temperatura de cisão, originando uma fissura, ruptura ou sei lá o quê, cujo som ao propagar-se, do interior para o exterior, se pode ouvir de fora e que não é mais que um simples fenómeno físico, mais um, aquilo a que os homens de “pouco saber”, uns incultos outros incautos, chamam de verdadeiros risos.

 

A estátua está lá, é de pedra, mantém a faculdade do pensamento e a energia que transmite às aves que sobre ela repousam, descansando das correrias da sua vida e ganhando novo alento, nova força, para dali se reiniciarem em voo.

 

Há pessoas que se sentam ali durante horas e conversam com a estátua em monólogo interior, dizendo que colhem ensinamentos, que a pedra lhes dá respostas para o incompreensível, que o contacto com ela lhes transmite uma força e segurança que julgavam perdidas. Que lhes dá conselhos e sabedoria de vida e os ajuda nos seus percursos sinuosos, intempestivos.

 

Há quem adormeça junto a ela e acorde um outro ser, reforçado, com mais vontade de viver.

 

Há outros que, com uma enorme convicção, dizem que a estátua tem olhos e apontam, com os dedos fixos no granito, dizendo que “são ali!”, porque “é dali que se soltam as lágrimas quando ela chora!”.

 

E há os que ouvem isto e ficam sem saber o que pensar, mas sentem!

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

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