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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

26
Set18

Crónicas de Assim Dizer - O Vulto

arrabalde-3

 

O vulto

 

 

Via ao longe um vulto que transportava qualquer coisa às costas e cujo peso lhe vergava a imagem vertical da silhueta. Era um ser humano. À distância a que estava, qualquer conclusão que quisesse tirar era precipitada. Vinha na minha direcção. A primeira sensação que me provocou foi uma vontade inata de o ajudar. Mesmo sem saber nada dele, não me pareceu justo que alguém carregasse fosse o que fosse, que fosse tão difícil de transportar! Logo após o meu primeiro juízo de valor vem, acto contínuo, o disparate: e se fosse o produto de um roubo ou até um cadáver?! Maldito pensamento, detesto-o quando começa a emancipar-se de mim e a pensar sozinho como se existisse independente de tudo, sem nada a elaborá-lo, contrariando teorias de filósofos de que pensa sem ninguém haver a suportá-lo! Acabo com as divagações e noto que a distância entre nós não diminui. Deduzo que deve ser, por isso, muito grande, pois que o decorrer do tempo não se torna perceptível nela, embora caminhando nós ao nosso encontro. Continuo embrenhada em juízos de valor!

 

O que haverá dentro do saco?

 

Culpa?! Que outra coisa haverá que pese tanto?! O que se não disse? O que se não fez? O que se disse mal? O que se fez mal? Mas isso é tudo culpa! O amor que se sentiu e se não mostrou?! Culpa ainda! A vontade que se tinha de fazer e se não fez, as palavras que subiram até aos lábios e que foram engolidas no silêncio que saiu ou o beijo que se mordeu e não se deu? Culpa ainda! As mãos que se trocaram sem se darem, os abraços que se deram sem se apertarem ou os corpos que se penetraram sem se fundirem?! Culpa também?

 

As lágrimas que não correram para o rio, mas que secaram nas faces, sendo completamente inúteis; os risos sem sorrisos ou o brilho do olhar instantâneo sem continuidade, sem permanência, sem eternidade?

 

Ainda a culpa? Ou começa agora aqui já a desilusão? O que pensávamos que era e não era, o que era naquele momento e nós queríamos para sempre, como se as coisas durassem no tempo o que o tempo não dura!

 

Ah, talvez nem tudo seja culpa! Talvez o vulto naquele saco carregue também a desilusão de ter pensado que o sonho que sonhou era a vida que vivia! Qual pesa mais? Talvez se trate de um sonhador ou de um imbecil, estas coisas não são assim tão diferentes.

 

Talvez ele tenha pensado que o que tinha dentro dele era mais do que o suficiente para ser feliz; que dando tudo de si, recebia alguma coisa dos outros. Talvez tenha aprendido, por conta própria, que há pessoas que não dão nada, embora tenham tudo lá dentro; porque têm as coisas fechadas à chave com medo que lhas roubem, e tenham tanto medo que também fecham a chave à chave e entretanto baralham-se todas e já não sabem o que abre o quê; de forma que quando é preciso abrir uma porta nunca encontram a chave certa e fica tudo por abrir e dão cabo da cabeça a quem não lhes consegue encontrar a chave, quando foram elas que a esconderam e que se calhar até a perderam ou já passou tanto tempo que a própria fechadura já se deformou e não abre com coisa nenhuma!

 

E vem a frustração, a derrota pessoal, o sentimento de incapacidade, de não conseguir coisas tão simples porque não sabemos os motivos, só conhecemos as consequências e tudo isto pesa que se farta, só porque não há a honestidade de alguém nos dizer que o problema não é nosso; porque pesa menos para eles que sejamos nós a suportar o peso!

 

E quanto mais pensava, menos percebia como é que o vulto conseguia dar um passo que fosse e cheguei mesmo a pensar se ele não estaria parado! Mas foi só por um instante porque era parvoíce da minha parte: se estivesse parado tinha o saco no chão, a não ser que fosse burro, que isto nos amantes há de tudo.

 

Eu estava cada vez mais empenhada a decifrar a carga que o vulto transportava no saco e nem por um segundo me veio à ideia que podia estar completamente enganada! Esta coisa das convicções dá-nos cabo da lógica!

 

Sim, também podia ser a memória das coisas boas, também pesa muito! Será que ele viveu uma história de amor intensa, que o arrebatou, alguém a quem ele se entregou completamente, que lhe levou o coração e lhe deixou no seu lugar um vazio que lhe causa uma dor profunda e insustentável, que o faz debruçar e curvar daquela forma mais que o peso do que transporta, que pode até ser roupa ou algodão-doce?

 

Como é que eu não me lembrei disto antes?

 

Não, uma coisa não tira as outras! Pode ser tudo, primeiro ter acontecido isto, “a causa das causas”, e depois as outras. “É isso, é isso!”, veio-me à cabeça, como se tivesse acabado de descobrir a última peça do puzzle, já sem espaço para ela!

 

Após um grande silêncio, olho novamente o vulto e noto já alguma diferença na distância que nos separa e, de repente, vem-me a pergunta fundamental que ainda não tinha feito, mas que se impunha:

Como é que eu o vou ajudar, o que é que eu lhe vou dizer quando o tiver justamente à minha frente?

 

Baixo os olhos para o asfalto, continuo a caminhar em direcção a ele e começo a pensar na resposta.

 

Digo-lhe que cada dia é um começo, que as coisas que hoje parecem más amanhã podem ter outro aspecto, que não nos conhecemos o suficiente para sabermos como nos sentiremos no dia seguinte, que somos muito mais capazes do que pensamos, que a nossa riqueza interior não tem limites, que temos muito para descobrir, que cada dia é uma surpresa, um descobrimento, que é preciso ter os olhos e o coração muito abertos para apreender a beleza das coisas, que tudo está à nossa disposição, à nossa espera, que temos de ser nós a ir ao seu encontro?! Digo-lhe ainda que para que isso aconteça temos primeiro de nos libertar do passado, de esvaziar o saco que carregamos às costas, seja o que for que ele tenha dentro?! Que o melhor ainda está para vir, que devemos começar cada dia como se fosse o primeiro, fazer como o Sol, que quando nasce é para esse dia, o outro já passou, foi ontem, houve uma noite pelo meio em que se dormiu, em que se esqueceu. No dia seguinte volta tudo a estar à nossa espera e nós temos que voltar a estar disponíveis para ir ao seu encontro, de asas soltas como uma andorinha na Primavera. Digo-lhe isto tudo?!

 

Sorri, senti a alma mais leve e levantei os olhos para ver a que distância estava o vulto: tinha desaparecido, nem sinais de culpa nem vestígios de desilusão!

 

O sol brilhava tanto que me queimaria a pele, não fosse a brisa agradável que se fazia sentir àquela hora, naquele lugar.

 

Sem perceber o que tinha acontecido e meia atordoada olhei o asfalto: notava-se por baixo dos meus pés, de forma indelével, uma marca curiosa, parecia a sombra de uma nuvem, embora ela não existisse no céu! Talvez, não sei bem, a memória de um grande amor.

 

 

Cristina Pizarro

 

 

 

 

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