Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

09
Mai18

Crónicas de Assim Dizer - Uma ida ao teatro

assim dizer

 

Uma ida ao teatro

 

 

A imagem não é das melhores!

 

Um triângulo de queijo com buracos grandes ocupa o centro do palco do qual dezenas de ratazanas se alimentam. Enquanto os animais famintos, nojentos e desprezíveis, vindos do esgoto urbano, devoram o melhor do queijo, as pessoas assistem ao espectáculo imóveis.

 

 O queijo permanece indiferente a toda aquela azáfama. Os bichos aproximam-se, contornam com os dentes minúsculos, mas afiados, os buracos do queijo roendo tudo o que ele tem de bom, de comestível, deixando apenas o vazio, o buraco de ar onde o queijo não tem nada dentro.

 

Depois de saciados abandonam o palco e vem gente nova para o mesmo ritual. Provavelmente foram contar à família ou aos amigos mais próximos, que ali há alimento disponível, sem predadores por perto, onde se podem abastecer em segurança.

O queijo tem, com toda a certeza, um ego fortíssimo! Ter maior ou menor dimensão, não lhe afecta a alma e deixa-se comer com uma tranquilidade que faz impressão a quem assiste ao espectáculo.

 

As pessoas começam a agitar-se nas cadeiras, se bem que não sejam confortáveis, não parece ser esta a razão do seu incómodo. Ninguém se ri, a peça não tem graça.

 

O queijo está cada vez menor, não parece haver consciência da parte dele de que quando só restarem os buracos, já não é queijo que se chama. Tem a alma incólume e acha que é essa a sua eternidade, que nada nem ninguém lhe pode tirar o que é! Que não depende dos outros o ser e o não ser.

 

A sua tranquilidade faz, de novo, impaciência a quem assiste, a quem pagou bilhete e não está a perceber nada do que ali se está a passar!

 

O queijo tem o nome, de batismo, que o pai e a mãe lhe deram e não sente necessidade nenhuma de defender isso em público. Atingiu um estado adulto, curado! Não se trata de um qualquer queijo creme de marca branca, acondicionado em embalagem e comercializado em hipermercados por todo o país! Nada disso, o queijo não está acessível dessa forma, é procurado por apreciadores da especialidade, entra em provas com peritos do mais alto nível, que atestam a sua qualidade, com critérios muito exigentes. São apreciados além do sabor, do cheiro e da cor, características como a textura, a homogeneidade, a aparência, a sensibilidade, a resistência ao corte, a lucidez, a inteligência, a perspicácia, o poder intuitivo, a fidelidade, a lealdade, a honestidade, a seriedade, a capacidade de digestão, a quantidade de microrganismos presentes, a composição proteica, lipídica e em hidratos de carbono, o valor energético por 100g, o grau emotivo, o índice de acidez e o de segurança, o prazo de validade ou a esperança média de vida calculada à nascença, tendo em conta os nados mortos e os nados vivos no primeiro ano de vida por 1.000.000 de habitantes.

 

O pensamento do público esbarra e divaga, entre passado, presente e futuro e ninguém percebe o que raio está ali a fazer o triângulo de queijo no palco e as dezenas de ratazanas que se apoderam dele, deixando apenas os seus buracos, com uma atmosfera só respirável, mas onde nada se respira!

 

Neste momento o queijo transformou-se já num sobrevivente, está amputado de braços e pernas. Já não consegue deslocar-se nem arrastar-se. Está imóvel. Continua a ser comido por animais imundos a quem não deve nada, a quem só alimenta por uma questão de solidariedade.

 

De repente ouve-se um grito, seguido de um silêncio arrepiante. Os espectadores ficam com pele de galinha. A música para subitamente, as luzes acendem-se e uma voz reclama: Chega!

 

Do queijo resta apenas a cabeça, ninguém percebe porque é que o realizador deixou isto ir tão longe! As ratazanas assustam-se e fogem em debandada, escondem-se por todo o lado. Saltam do palco para a plateia, caem no colo dos espectadores, metem-se dentro das carteiras das senhoras, dos chapéus dos senhores, dentro dos bolsos das gabardines e disfarçam-se no aconchego dos casacos de peles verdadeiras.

 

Todos se levantam a correr e se atropelam em direcção às portas de saída do Coliseu dos Recreios.

 

A sala fica quase vazia, mas o espectáculo ainda não tinha acabado: era tudo a fingir, quem se aguentasse até aqui era presenteado com uma fantástica peça de teatro. As luzes apagaram-se e uma voz firme e determinada ouve-se em toda a sala:

 

Senhoras e senhores, pedimos o favor de desligarem os telemóveis.

Não é permitido tirar fotografias ou registar imagens em vídeo.

O espectáculo vai começar.

Divirtam-se.

 

No dia seguinte, em entrevista dada pelo realizador da peça ao Jornal de Notícias, lia-se:

- São cada vez menos as pessoas que ficam para assistir à segunda parte do espectáculo. Como homem de teatro, sinto-me realizado.

 

 

Cristina Pizarro

 

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

Olhares de sempre

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Fartei-mede rir quando li a estória do sr.Taveira ...

    • Anónimo

      Julia, O meu voto vai para a Igreja da Misericordi...

    • Anónimo

      Hoje, dia 12 de Outubro de 2018, acabo de ler este...

    • Anónimo

      https://m.youtube.com/watch?v=glT3deDW0_o

    • Anónimo

      Olá Fábio, Gostava muito de lhe oferecer um livro ...