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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Crónicas Estrambólicas

23.02.17 | Fer.Ribeiro

estrambolicas

 

A Estadia da Rainha em Chaves

 

O deslumbramento com que a maior parte das pessoas fala duma estadia num hotel é uma coisa que me deixa parvo. Ao ouvir as longas conversas sobre os muitos e variados detalhes das hotelarias, nunca percebo a excitação com a coisa de passar umas noites fora do ninho, fico sempre a pensar “Será que esta malta ainda dorme em casa nuns colchões de palha com uns liteiros por cima?!”. É que a mim ninguém me tira o meu quartinho com os meus livrinhos e as minhas coisinhas, só por muita necessidade durmo num quarto onde já dormiram milhares de pessoas e, segundo estudos recentes, cujos lençóis nem sequer são mudados entre hóspedes (se é gente chique que vai lavadinha para a cama, nem se dá conta…). A excitação da malta é tanta que às vezes chego a pensar que a própria Isabel II de Inglaterra se põe a magicar em coisas, lá para os lados do palácio de Buckingham onde tem um criado para lhe pôr pasta dentífrica na escova e outro para lhe limpar o cu, e imagino-a nos seus pensamentos “Ah, que farta estou de andar de palácio em palácio, já não posso ver palácios à minha frente, o que eu gostava mesmo era de passar uma semaninha num hotel chique, até podia ser o Aqua Flaviae, em Chaves na rotunda ao pé das termas. Depois disso é que ia ser conversar com as minhas amigas rainhas sobre os colchões, os pequenos-almoços e os SPA’s, ia ser óptimo para variar desta chiqueza bafienta!”. Um dos temas das típicas conversas sobre a chiqueza dos hotéis é o pequeno-almoço. Mas isso só me faz desconfiar que a malta come em casa uma malga de leite rançoso com pão de 3 dias, tal é o deslumbre com a fruta e o fiambre hoteleiro. Eu, pela minha parte, fico sempre desiludido com os cereais ensopados em iogurte ou com as insípidas tostas. Nunca nos hotéis chiques me serviram pequenos-almoços de eleição, como um carolo de folar com uma malga de café, uns rojões em cima dum bom pão centeio ou mesmo um mata-bicho a sério, um bom bagaço com umas nozes. Fico sempre desiludido. Outra coisa que me impressiona na gente chique, frequentadora dos hotéis mais exclusivos, é o pouco apetite que eles parecem ter por refeições fora dos hotéis. Ouço sempre o mesmo “O pequeno-almoço era tão bom que nem precisávamos de almoçar!”. Desconfio que nem almoçam nem sequer jantam fora do hotel, pois pelo que vejo por aí, há gente a fazer tantas sandes e a enfiar para o bolso, que certamente passam o dia a digeri-las. O que a gente desta seita também gosta é do mini-bar ao lado da cama. Julgo que gostam do frigorífico anão pelo aparato, porque quem não tem 5 euros para gastar numa diária não me parece que se metam a desbundar água a 2 euros, especialmente sem espectadores para impressionar. Também dispenso bem essa coisa do mini-bar, preferia ser surpreendido com algum livro interessante ou talvez mesmo um penico, que seria mais útil. Se calhar o mini-bar é mas é útil para guardar as sandes do pequeno-almoço até ao jantar, e talvez mais algumas coisas. Não me admirava nada que algumas pessoas levassem para casa alguns quilos de queijo e fiambre que vão acumulando no mini-bar.  Juntando o queijo e o fiambre a mais duas ou três toalhas, um robe, uns litros de gel de banho e de champô, se calhar uma estadia num hotel de luxo acaba por ser mais interessante do que uma ida ao Continente para compras, que deve ser a explicação para tanta excitação.

 

Luís de Boticas

 

 

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