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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

15
Abr18

crónicas estrambólicas

estrambolicas

 

Ficção Científica Economista

 

Depois de 20 anos de crescimento económico exponencial, Portugal era em 2048 o país com o maior PIB per capita do mundo, mas com desigualdades de rendimentos aberrantes, que quase provocaram uma guerra civil em 2047. Para solucionar o problema, o governo implementou-se uma solução radical: inverteu os rendimentos das classes. Aqueles com ordenados mais baixos passaram a ser os mais bem pagos, e vice-versa. Seria uma experiência social programada para durar 10 anos e que tinha como objectivo apagar os genes da desigualdade que se transmitiam através das gerações. Logo que foi anunciada, a lei foi recebida com grande festa dos pobres e desespero dos milionários. Pouco tempo depois, a festa e o desespero mudaram de lados. A lei forçou os pobres a levar vida de milionários, apesar de continuarem a manter exactamente os mesmos cargos. O inverso acontecia com os milionários, que não tinham outra escolha senão levar vida de pobre mas continuando em altos cargos e donos das grandes empresas. As funcionárias das fábricas de têxtil, por exemplo, apareciam na fábrica de ferrari, saltos altos e vestido de noite. Os trolhas trabalhavam de smoking enquanto os patrões apareciam em fato de treino e sapatilhas nas reuniões das empresas. Isto era causado pelos pagamentos serem feitos de maneira a que os pobres recebessem ordenados milionários e só pudessem usar as notas maiores, ao passo que os antigos ricos tinham a exclusividade das moedas e notas pequenas. Cedo começaram a aparecer problemas de insatisfação e a situação começou a tornar-se insustentável, motivada pela inveja do povo, como sempre... Nas ruas do Porto, por exemplo, cheias de ferraris, bentleys e outras máquinas milionárias, podiam observar-se cenas do tipo: um opel corsa com 30 anos e a cair de podre (uma raridade e um luxo), preso no trânsito, com o bisneto do Azevedo ao volante. Ao lado, viam-se pessoas a abrir os vidros dos ferraris e gritar “Capitalista de merda, andas aí a comer-nos os pastéis de bacalhau e a beber-nos o vinho de Murça! Baixa-nos mas é os ordenados, ó urso do carago!”. No início, o povo achou muita graça a refastelar-se com luxos, mas a dieta diária de lagosta, trufas, caviar e outras coisas que tais, não demoraram muito a provocar enjoos. As saudades que algumas pessoas tinham dumas sardinhas em cima dum bocado de broa eram tão graves que obrigavam a visitas aos psiquiatras. Porém, não havia alternativa, os pobres recebiam em notas tão grandes que só tinham acesso ao mais caro e mais exótico. Não havia maneira de arranjar moedas para ir a uma tasca comer um bolo de bacalhau em pão e botar abaixo um bom copo de vinho carrascão, isso era uma frugalidade luxosa inacessível aos pobres. Por outro lado, os ricos passaram a viver em casas modestas e a fazer almoços de negócios nas tascas, falando de tostões, enquanto aviavam uma massa à lavrador CEO e uns campaneros de tintol. Numa dessas tascas mais porcas (mas cotadas na bolsa), uma tarde, o bisneto Azevedo e o bisneto Amorim, conversavam, enquanto mamavam umas pataniscas em pão e botavam abaixo uma litrada de maduro. Pergunta o Amorim “Ó Azevedo, qual é a sua opinião sobre esta mudança radical que nos aconteceu?”. Responde o outro “Amorim, se quer que lhe diga, não me estou a dar mal. As casas são pequenas mas as outras eram demasiado grandes, os carros não fazem diferença, têm todos 4 rodas e pouca gente tem tão pouco dinheiro para ter um carro tão podre como o meu, que me dá o status que um banal ferrari não dá. A comida surpreendeu-me. Nunca tinha provado sardinhas, por exemplo, e estou viciado. Se quer que lhe diga, nunca gostei muito de lagosta ou caviar, comia porque era a dieta oficial. A gravata era um sufoco, o fato de treino é muito mais confortável e agora até é roupa de gala, apenas se trocou a convenção. Também estava farto de ter que comparecer na ópera para gramar aquelas mulherzinhas aos berros, antes o bisneto Carreira! Ando a pensar que quando voltarmos ao estilo de vida que tínhamos, vou pagar mais aos funcionários, eles que fiquem lá com as lagostas! Nem sequer me falem em voltar a andar de sapatos de sola o dia todo, que aquela merda rebenta-me com os pés!”.

 

Luís de Boticas

 

 

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