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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

13
Nov20

Crónicas Estrambólicas

Crónicas de um Primeiro-Ministro sobre o Barroso – 13

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Composição vista desde a Serra do Larouco

estrambolicas

 

Crónica de um Primeiro-Ministro sobre Barroso 13

 

Mais uma crónica do antigo Primeiro-Ministro António Granjo, um ilustre flaviense. É a uma das 15 crónicas sobre Barroso publicadas no jornal A Capital em 1915. A crónica está escrita como foi publicada, no português da altura, incluindo gralhas tipográficas.

 

Não tenho grandes comentários a fazer a esta crónica, que é quase uma continuação da última onde é descrita a subida ao Larouco. Nesta, o Granjo começa na descida do Larouco e vai até Pitões. Tem piada ver que alguns dos desejos do Granjo para a região foram realizados apesar dos resultados não serem bem os previstos. Notei aqui e ali uma outra coisa que me parecem incongruências, mas deixo para os leitores as apreciações sem eu meter o bedelho.

Luís de Boticas

 

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Serra do Larouco

 

BARROSO, FONTE DE SAÚDE

 

A descida quasi a pique, sob uma chuva diluviana, entre touças queimadas, ó coisa de que o leitor nunca fazia bem ideia. Os ramos carbonizados batendo o ensarrafuscando as cargas, as bestas deixando-se escorregar, nós segurando-nos aos cabrestos das ditas, e a água entrando-nos pelo já minguado pescoço sahindo-nos pelas já desfeitas plantas, é qualquer coisa que escapou ao Dante do Inferno. Verdade seja que chegar ao posto da guarda fiscal de Padornelos, accender uma fogueira para enxugar a roupa no corpo, beber dois golos da borracha e comer um bocado de atum de conserva com cebola e um dedal d’azeite, é qualquer coisa que escapou ao Milton no Paraizo.

 

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Padornelos

Pelo cahir da tarde estavamos em Montalegre. Certamente o leitor acredita que comemos e dormimos bem, e como isto de comer e dormir bem, sobretudo de dormir bem, vae sendo, com a crise de subsistências e a crise de revoluções, coisa por deveras apetecida, o leitor acredita que démos por bem empregada a enorme jornada e por bem ganho o nosso dia.

 

Espera-se pelo correio. O que se teria passado pelo mundo? Ter-se-hia feito a paz?  O Sr. Leotte do Rego não seria já commandante da divisão naval? O Sr. Dr. José de Castro teria deixado de ser o estadista «empalhado»? O que teria acontecido?

 

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Montalegre

Veem os jornaes. Na frente occidental, os mesmos duelos d’artilharia na oriental, a tomada da decimamilionesima fortaleza russa pelos austro-allemães; nos Dardanelos, algumas cargas de baioneta. A divisão naval continua a fazer exercícios em Cascaes; e o Sr. Dr. José de Castro continua a convencer-se que o não fadaram os destinos para cavallarias altas e se deveria ter deixado ficar pela presidência da Associação da Árvore.

 

Sacudo os jornaes, como um lobo sacode a presa. Levanto o olhar para as montanhas, para o céu. Mando apromptar a caravana: e fujo para o Alto Barroso.

 

O Cávado decorre serenamente. Uma parpalhaça canta. Por cima das restolhas plana um milhafre. Cae uma chuva miudinha. Por entre as silvas, as amoras espreitam como grandes olhos de insectos.

 

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Ponte de Frades

Passa-se o Cávado em Frades, alcança-se Covellães, e eis-nos em Paredes. Despenhamo-nos nos braços robustos do Accacio de Barros, o mais perfeito barrosão que Barroso gerou e em cuja casa o viajante encontra sempre ancoradouro seguro.

 

Já o sol declina, quando nos pomos a caminho para Fecha Velha. Não me demoro a fazer a discripção da caminhada desde Parada do Outeiro até Pitões, pelo sopé do Gerez. É qualquer coisa que vale um tomo; e é qualquer coisa que não é lícito tentar aos meus recursos descriptivos. Imagine-se um encapellado oceano de pedras, que de repente se immobilizou.

 

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As vagas ameaçam ainda o céu, suspendem-se ainda sobre o pequeno vale. É chapinhando na espuma verde desse oceano petrificado, que vamos trotando. Nada que nos revelle o homem. Aqui e ali, um ou outro muro de pedra solta que serviram para levar os lobos até aos fojos. Atravessam-se moitas de carvalhos. O sol desapparece; e na densidade da floresta o crepúsculo toma uns tons violaceos.

 

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Prendem-se os cavallos a meia encosta, e é derrubando árvores, deslocando penedos. seguindo um corrego por onde suspira um fio de água, que chegamos à formosíssima cascata. Hei-de deixar à photograpfia o encargo de dar uma ideia da beleza selvagem d’este canto de Barroso. Não há-de haver no mundo muitas coisas semelhantes.

 

O ribeiro perfura o enorme rochedo, precipita-se por um canal que a água cavou, e vem tombar entre os fraguedos, dentre os quaes irrompe uma vegetação equatorial. Por cima da Fecha, pairam algumas aves de presa; no fundo, recorta-se o Gerez; a água ruge sob as penedias em que mal equilibramos os corpos cançados; as vozes repercutem-se ao longe.

 

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Cascatas de Pitões das Júnias

Passam há séculos embasbacadas as gerações perante os rochedos, os vales, os lagos da Suissa, e eu morto ando por lá ir também embasbacar-me. Mas se alguns archimilionarios americanos presentissem estas maravilhas, viriam certamente das fontes do Mississipi e das Montanhas Rochosas passar alguns dias na contemplação destas bellas coisas.

 

Um outro paiz...

 

Sim, um outro paiz, uma estrada pelo vale do Cávado até Parada do Outeiro, à vista do Gerez, junto dos derradeiros refúgios do corço e do javardo, e um caminho acessível até à Fecha, além de trazerem ao Alto Barroso os aquistas das Pedras, Vidago, Chaves e Verim, chamariam essas creaturas tomadas do delírio deambulatório, enfastiadas dos museus, fartas das praias, resaibiadas da cidade, e sedentas da natureza e do movimento.

 

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Nenhuma estação do verão existiria em Portugal como Montalegre, desde que uma alma piedosa, ou um negociante arrojado, construisse nas proximidades um bom hotel, e desde que a estrada do Cávado, um bom caminho vicinal até ao Larouco, e a estrada já em construção, que liga a capital barrosã directamente com Braga, facilitassem alguns bons passeios.

 

Barroso seria para o paiz uma fonte de saúde, a grande estação de cura e de repouso. E essa pobre gente, cujo alimento principal é a sopa de leite desnatado, e precisa de emigrar, em camaradas, para as terras do vinho e do azeite, á busca d’uns patacos com que indireite a vida, conheceriam a prosperidade.

 

Era preciso para isso, no entanto, que os governantes pensassem n’outra coisa que não fosse nas intenções dos chefes dos grupos revolucionários e que o paiz deixasse de tremer perante o carbonário, como uma criança deante do papão. E era preciso que todos nos descemos ao trabalho de sabermos valorizar as nossas coisas.

 

N'um outro paiz...

 

Antonio Granjo

 

 

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