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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

08
Jan21

Crónicas Estrambólicas

Crónicas de um Primeiro-Ministro sobre o Barroso – 14

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Crónica de um Primeiro-Ministro sobre Barroso 14

 

Mais uma crónica do antigo Primeiro-Ministro António Granjo, um ilustre flaviense. É a penúltima das 15 crónicas sobre Barroso publicadas no jornal A Capital em 1915. A crónica está escrita como foi publicada, no português da altura, incluindo gralhas tipográficas.

 

Podia pegar nalgumas coisas da crónica para dizer algo mas vou deixar para uma crónica mais longa e que inclui outras coisas não relacionadas com esta crónica. De resto, Impressionou-me a leveza com que o autor relata um assassínio numa zaragata, embora ele tenha alguma desculpa por ter sido um homem de armas. Mais nada. Agora fica apenas a faltar a última crónica desta série.

Luís de Boticas

 

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Fotografia de Artur Pastor

 

 

A RELIGIÃO DE BARROSO

 

Era domingo e o guia quis ouvir a sua missa, como bom catholico. Essa pequena circunstância permittiu-nos fazer uma idéa do que é o culto catholico em Barroso e vale a pena talvez falar d’isso, se dão licença aquelles livres-pensadores que todos nós temos conhecido envergando as opas do santíssimo de Mafra, assoprando os incensários da patriarchal ou cantando pela encosta do Sameiro o hymno à lmmaculada.

 

A egreja está sempre no melhor sítio. D’entre as casas, cujos colmos têm reflexos fulvos de pelles de animaes selvagens e cujas paredes parecem os abrigos duma caverna dos contemporaneos do período terciário, a egreja, com o seu pretencioso telhado de telha vã e a sua gentil torrela em que se abre a bocca amiga e sonora do sino e d’onde uma cruz deixa cahir a sua bênçao —a egreja escortina-se sempre da última volta do caminho, como um sorriso branco ou como um convidativo acenar de lenço. A casa de Deus nao tem pórticos, nem naves, nem azulejos, nem talhas, e nas sachristias nem ha thesouros nem paramentos ricos. Mas, ao menos, que o Todo Poderoso, lá do céo, não diga que aquela gente nem o cuidado teve de carregar de Chaves alguns milheiros de telha e uma pipa de cal. Não há uma archivolta, um nicho, uma lanterna de prata, um manípulo de seda, uma folha d’acanto que o cinzel ou a escoda hajam recortado.

 

Mas que importa? Que mais quererá Deus? A egreja tem a cal, que ninguém mais possue e tem a telha que só a Deus é dada.

 

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Em volta da egreja, no pequeno adro, algumas Iamagueiras, enristam os seus ramos aggressivos. Os cachos vermelhos destacam-se do verde-negro das folhas como pingos de sangue. É a árvore ornamental barrozã. Encontra-se à volta das egrejas e dos cemitérios, estendendo para o alto os seus braços súplices; encontra-se junto das eiras, offerecendo à gula da passarada as suas florescências vermelhas; e uma ou outra vez lá se encontra n’um cruzamento de caminhos, n’um alto, à entrada das povoações, como um ponto de referência para o caminhante.

 

Antes da missa, o parocho, de sobrepeliz, dá a volta à egreja, com a Custódia. É a procissão. Os cânticos elevam-se nos ares como bateres d’azas; as mãos postas parecem fazer parte dos próprios peitos.

 

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Logo começa a missa. As mulheres, com os rostos, emoldurados nas capuchas, têm um certo aspecto de freiras. Os homens, apertados junto da teia do altar-mór, com as gorras debaixo dos braços ou os chapéus enfeitados de penas de pavão depostos no pêto do orago, espreguiçam-se familiarmente. Ao crédo um grande rumor enche a pequena egreja. Os homens levantam-se, tossem, espreitam as raparigas, raspam os socos sobre as campas dos antepassados. Alguns olhos encontram-se e brilham na penúmbra propícia com mais fulgor do que as velinhas dos altares. Ao Evangelho, o parocho avisa o povo de alguma rez perdida, do conteúdo de algum edital, lê as proclamas de algum casamento, faz a sua praticasinha contra a impiedade dos republicanos.

 

 

A hóstia ergue-se nas mãos alvas do parocho como uma pequena lua de marfim. Os peitos curvam-se. Passa um sopro de contrição. O calice sóbe, levemente inclinado, refulgindo contra o fundo escuro do altar. O sachristão pega das galhetas, e os beiços esbarbados dos homens distendem-se em longos bocejos. Por fim, o parocho volta-se, desenha uma cruz, ajoelha e enquanto atropela as trez avé-marias e o murmúrio das rezas esvoaça sobre as cabeças como uma arcada leve, de violinos, as boccas riem. Já cá fora, no adro, os moços dilatam orgulhosamente os troncos, mettendo os pollegares nas cavas dos colletes de carapinha ou de pelle de lebre. Algumas velhas ficam-se à porta, falando das vidas alheias, e o regedor convoca o «conto» ou «chamado». Apparece um vizinho a queixar-se que a «fazenda» (gado) de outro lhe comeu umas perneiras de milho e pede à assembleia que applique a respectiva multa. O accusado defende-se, nega, brama, blasphema. Formam-se partidos, a discussão accende-se. O regedor apresenta uma proposta conciliatória. D’esta vez não se applicará a multa; mas o culpado que não alarde da acção e que não repita o feito, ficando elle regedor, no caso de nova queixa, auctorisado a applicar logo a multa. Approva-se a proposta, desfaz-se o adjunto e cada qual vae para a sua cabana comer a sopa de leite desnatado.

 

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O parocho desparamentou-se à pressa, metteu a sobrepeliz e o manípulo n’um pequeno sacco, enguliu duas trutas, folheou nervosamente um semanário, e assim preparado em carne e em espírito montou na égua e foi pregar a uma freguesia vizinha sobre os milagres do seu padroeiro.

 

Esta é a vida religiosa de todos os domingos. Mas, ao menos uma vez no anno, há a festa da aldeia. Chama-se o gaiteiro, arma-se um andor, compram-se na villa os foguetes e as rodinhas de fogo e todo o dia e toda a noite a mocidade, com os seus harmónios e os seus ferrinhos, enche a aldeia de alegria e de tumulto. Como me dizia um velhote, os corações saltam para as palmas das mãos e as pernas fazem-se azas. Canta-se ao desafio. Às vezes, no calor da improvização, o cantador joga a sua piada a uma moça que o repelliu ou a um rival feliz, e então os lodos cantam alto, o sangue espirra das cabeças e não raras vezes a fouce ou a espingarda fazem o seu apparecimento, ficando no terreiro algum dos da mocidade, a empastar com o seu sangue a poeira e a abrir para o céu os olhos parados.

 

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Toda a aldeia tem a sua festa de anno. Há porém, terras desgraçadas, perdidas entre os fraguendos, nos quaes apenas uma dúzia de vizinhos vegeta e não é possível arranjar dinheiro para armar um andor, comprar as rodas de fogo ou pagar ao pregador. Em taes casos, o mordomo péga no santo ao colo, e abre a procissão, atraz vão os vizinhos, com as suas caras compostas e as suas opas emprestadas; e no couce guisalha e espinoteia o cortejo das vaccas, com ramos de carvalho presos das hastes, prestando também a sua homenagem à divindade.

 

De quando em quando, a festa redunda em enorme tragédia. A lágrima d’um foguete cahe sobre um colmado. Levanta-se um pé de vento. Uma chama lambe, como uma grande língua, a primeira casa. O sino toca a rebate. Uma fogueira immensa se ergue logo até ao céu. É a aldeia que arde em meia hora. As outras povoações acodem, mas quando chegam apenas vêem as paredes denegridas e apenas ouvem as mulheres gritando a sua afflição, enquanto os homens consultam angustiosamente o horizonte.

 

Entregues à sua sorte, sem o socorro mútuo e sem o socorro do estado, o pobre barrosão vira-se para Deus.

 

Antonio Granjo

 

 

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