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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Crónicas estrambólicas - O meio porco escondido

22.01.16 | Fer.Ribeiro

estrambolicas

 

O Meio Porco Escondido

 

A gastronomia é um dos temas que mais interessam às pessoas. Toda a gente gosta de visitar, conhecer e discutir restaurantes, fala-se das estrelas da Michelin, há vários programas de culinária na TV, cozinha-se de maneira elaborada em casa, conversa-se sobre ervas aromáticas exóticas, sobre reduções e confitados, há restaurantes de todo mundo nas cidades grandes, desde os italianos aos de sushi, há variadas taperias (uma palavra que não existe em Espanha, onde as tapas se costuma servir em bodegas...), nas pastelarias bebe-se chá com scones ou muffins (não acredito que seja por snobismo, são hábitos...), e há filas enormes nas grandes cadeias internacionais, como no McDonalds ou no KFC.

 

O que me parece irónico é que no meio desta forte cultura de experimentação, da avidez de provar e saber de tudo, alguns dos melhores pratos da culinária portuguesa continuam completamente desconhecidos de grande parte dos portugueses, incluindo aquela malta com a mania que sabe tudo, que já correu os melhores restaurantes, incluindo os estrelados Michelin. Julgo que os meus fiéis leitores do Porto e de Lisboa, gente finíssima e viajada, muito abocada dos bons bocados, estão já a pensar “lá está este parolo, é um gajo que às vezes até escreve umas coisas, mas hoje está a exagerar. Deve ter alguma dor de cotovelo por ter que andar a pastar na tasca da esquina sabendo que nós nos divertimos nos michelins”. A verdade é que os comeres de que falo nem sequer são servidos em restaurantes. Os lesvoetas continuam a sorrir e pensam “Este pascácio acha que por viver em Boticas e poder comer, diariamente, ovos caseiros das pitas do capoeiro privativo ou alguma orelha mal lavada de porco caseiro, já se acha um expert em culinária! Valha-lhe Deus!”. Não se trata nada disso, o que queria dizer é que acho que os rojões do soventre (por exemplo) são um dos melhores petiscos que comi na vida, mas que quase ninguém conhece. Uma busca no Google por “rojões do soventre” dá apenas uns 200 resultados, quase todos vindos de blogues de gente saudosa da vida da aldeia. Procure-se “cozido à portuguesa”e aparecem mais de 300 mil resultados. Os rojões do soventre, por vezes, comem-se sobre o nome de torresmos em restaurantes brasileiros, já que são populares no Brasil, mas a receita não é a mesma... Cá, nem nas taperias! Há algumas raras tascas que os servem, claro. Continuando com os rojões, outro prato excelente é o que se serve tradicionalmente no almoço da matança do reco, os rojões da costela, completamente diferentes dos rojões do soventre ou das tripas. Onde é que se come isso?! Em lado nenhum! Imagino que os leitores de Lisboa pensam “Nessas feiritas do fumeiro de Boticas e Montalegre, devem servir essas coisas, basta ir lá para ver se este parolo tem razão, pode até ser que os rojões sejam interessantes barrados com foie gras ou trufas, pode mesmo ser que até sejam crocantes!...”, mas estão enganados, não se vê disto nas feiras, nem nos restaurantes típicos e especializados em coisas típicas, só mesmo em matanças privadas. Os rojões da costela nunca são muitos e os lavradores nem se dão ao trabalho de os levar para as feiras. Outro prato que acho do melhor, estrondoso (eu sei que os adjectivos politicamente correctos seriam fantástico ou maravilhoso, mas eu ainda sou daqueles que não come comida porque está crocante e recordo-vos que isto é uma crónica estrambólica), são os ossos da suã, especialmente os caseiros, que mais uma vez vos asseguro que não são servidos nas feiras nem em restaurantes que servem material caseiro. Há um ou outro restaurante que serve os ossos, mas o sabor é diferente, embora na falta dos verdadeiros sejam bons. Há um restaurante em Coimbra que vive de servir os ossos e é bastante popular, não percebo é porque não há mais, poderia ser um prato popular. Podia continuar a falar doutros petiscos deliciosos e pouco conhecidos mas fico-me por aqui. O texto já vai longo e nunca se pode contar tudo senão os lesvoetas pensam que já sabem tanto como os parolos.

 

Luís do Boticas

 

 

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