De poldra em poldra...

Não quero acreditar no sobrenatural e quando às vezes, as circunstâncias da vida, me podem levar a pôr a hipótese de poder acreditar, depressa desmonto a teia de pensamentos que me levam a tal. Hoje, por exemplo, passei parte da noite a pular de pensamento em pensamento como se estivesse a pular de poldra em poldra as poldras do rio, num vai em vem de quem chega à outra margem e regressa de poldra em poldra à margem de origem, assim continuamente… Entre mãos tinha a publicação dos posts de hoje, o responder ao mail de um amigo, aparentemente coisas de rotina, em que só custa começar, depois é só navegar por aí fora até chegar a bom porto. O problema é quando o nosso barco encalha num banco de areia e por mais que se insista em sair de lá, mais se enterra… mas num de repente, zás, abrimos o arquivo de fotografias e logo a primeira que vemos, dizemos, é mesmo esta. Instintivamente e sem qualquer razão, levantamo-nos, vamos à estante dos nossos livros de companhia, mandamos mão a um livro qualquer, abrimos ao acaso numa qualquer página, começamos a ler a partir de um ponto qualquer e quando chegamos ao fim, vemos que eram mesmo aquelas as palavras que nos faltavam, que queríamos, que procurávamos para desencalhar e para parar de vez com o vai e vem da travessia das poldras. Foi assim que encontrei a imagem de hoje e as palavras para a ilustrar, que agora vos deixo:
Coisa limitadora, a amizade!! Sobretudo negativa, no ponto de vista intelectual. Ou é uma contínua transigência, ou uma fonte de arrelias. Só a oposição anónima — inimiga, no fundo — estimula e faz criar. Diante dela, o espírito voa como entende. Nem há direcções proibidas, nem poços de ar pessoais, onde se cai com o coração na boca.
Parece à primeira vista que seria justamente de um convívio pacífico, diário, fraterno, que sairia o tónico ideal de que todo o artista necessita. Mas não. Sem falar no cansaço a que somos atreitos, e que ao cabo de certo tempo deseroíza tudo — poemas e virtudes —, criando à volta de cada obra ou de cada atitude um vácuo de aceitação amorfa, neutra, habitual, por temperamento e por motivos de vária ordem a nossa vida individual e social, passados os breves dias da mocidade, entra num túnel crepuscular de anedotas e digestões. E, naturalmente, uma presença ou consciência de que possa perturbar esse nirvana é olhada com enfado. Daí que instintivamente cada qual vá limando, até sem dar por isso, as arestas do seu espírito, para não levantar atritos. A guerra perpétua é impossível, tanto nas relações dos povos, como nas das criaturas. E surge insensivelmente o compromisso: nem se medem as irregularidades do caudal criador, para não ofender, nem se agitam as águas estagnadas do afecto, para não perturbar. Ora um artista não pode limar as arestas de maneira nenhuma. Pelo contrário. Se os outros envelhecem, desistem, e por cansaço ou piedade o poupam a críticas e a desilusões, ele é que precisa de estar sempre vivo e alerta. E eis a mortificação. Sedento de calor humano e agrilhoado ao seu destino de inquietador, o desgraçado vê-se entre a espada e a parede. Para ser fiel aos sentimentos, tem de parar; para não trair a sua estrela, tem de prosseguir. E nessa incómoda carroça de duas rodas, que caminham em direcções opostas, lá vai ele, umas vezes a esconder o que faz, outras a ler uma página como quem espeta um punhal ou arrisca a própria vida.
Miguel Torga, In Diário VI


