Discursos Sobre a Cidade

CALDO DE BATRÁQUIO
Ter água canalizada em casa era um luxo quase proibido nas aldeias rurais dos anos quarenta. As fontes públicas resolviam quase todas as necessidades. Fossem os fontanários, ou as populares fontes de mergulho, toda a gente se abastecia aí do precioso líquido. Nos fontanários, os cântaros de barro ou de folha-de-flandres aparavam a água da bica, nas fontes de mergulho recolhiam-na de uma espécie de poço onde se mergulhavam. Está bom de ver que nestas fontes tanto se utilizava um cântaro limpo, como o balde dos recos que muito provavelmente teria andado aos trambolhões na estrumeira. Por isso a higiene não era propriamente uma preocupação. E assim se vivia como nos alvores da história!
No Carregal não se fugia à regra. No Prado, a um canto sombrio, está ainda a fonte, a cuja água se acedia através de uma grande janela com um parapeito de granito muito gasto pelo uso de séculos. A fonte há muito andava a meter nojo aos mais esclarecidos do lugar, nos quais se incluía o Ti Moreiras, antigo combatente da guerra dos dezassete. Assim, na impossibilidade de disciplinar os hábitos de uso da fonte por serem ancestrais, pensou o Ti Moreiras construir poço próprio no pátio novo de sua casa. Tanto mais que na altura estava na moda o furo artesiano. Para o efeito, contratou um artista de Serapicos. Acertado o preço, encomendou o trabalho. Semana e meia bastou para que de um furo de quarenta metros jorrasse água a rodos. À superfície a água chegaria através de uma bomba de roda, ou de um arcanho a que se chamava cacherelle. Optou-se por esta solução por exigir menos espaço de instalação. Dava-se ao zingarelho para cima e para baixo e após meia dúzia de bombadas era um regalo ver jorrar a água aos golos. Funcionava que era uma maravilha. Porém, passado algum tempo, o líquido começou a sair tão ferrugento que nem os animais o toleravam. Era da ferrugem do cano que conduzia a água até à superfície. Uma desilusão, ter de recorrer de novo à fonte do Prado para fazer o caldo!... Mas não havia outro remédio!
Naquele tempo, a iluminação das casas era fraquíssima. A candeia de petróleo ou de azeite, mesmo ajudada pela labareda da fogueira, não deixava nem sequer ler o jornal, quanto mais enxergar o que se jantava! Ora foi exatamente desta dificuldade que nasceu o caso que se relata.
Anoitecia quando a criada lá de casa se apercebeu de que o cântaro da água estava vazio. Como era hora de fazer o caldo havia que ir rapidamente à fonte. Chegou e, de mergulho, encheu-o e pô-lo à cabeça sem sequer ter tempo para dois dedos de conversa com os rapazes que aproveitavam o ensejo para cortejar as moças. Diretamente da vasilha encheu o pote, e quando a água fervia, juntou a batata, a couve o feijão e coirato do porco e tudo o mais que faz gorda a sopa do lavrador. Ferveu e apurou enquanto foi dar de comer aos coelhos de que se havia esquecido. Na hora de cear, como ao tempo se dizia, era uso comer a sopa no final da refeição.
O Manel Cabeça Grande, apreciava trincar os coiratos ainda mal cozidos que deixava religiosamente para a sobremesa. Mascá-los, vagarosamente, devia dar-lhe o mesmo gozo que hoje os chicletes dão à rapaziada nova! Lançaram-lhe o caldo na malga e à luz mortiça da candeia tragou-o apressado para ir ao serão da lerpa com os amigos. Coirato na boca, trincou, trincou, voltou a trincar, mas havia qualquer coisa de diferente naquele cibo do coiro cozido.
O gosto não lhe era familiar!
Não lhe parecia mau, o problema é que o bocado não dava de si como habitualmente, à força de suas mós. Insistiu, insistiu, voltou a insistir e à falta de paciência, chegou-se ao canto da lareira onde a luz era mais forte à conta da labareda de uma fronça que ardia. Botou o petisco para dentro da malga!...
Oh horror dos horrores!... Espanto dos espantos!... Diabo dos diabos!... Oh miséria desgraçada!...
Era uma salamandra que entrou para o cântaro e foi cozida com os feijões e as couves!...
Agoniado, o Manel não foi capaz de vomitar com pena de desperdiçar o caldo!
Gil Santos


