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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade

23.02.18 | Fer.Ribeiro

GIL

 

DESTINOS

 

Chaves, cidade raiana, foi desde sempre pólo de atração para muita gente. Durante largos anos das terras vizinhas, ou mesmo de lugares mais distantes, rumaram à cidade famílias inteiras à cata de melhor vida: raparigas tenras para criadas de servir, mulheres feitas para serviços domésticos mais qualificados, rapazes para paquetes e homens maduros para os trabalhos mais pesados na cidade e na veiga. Mesmo até da vizinha Espanha, sobretudo durante a guerra civil de 1936 e 1939, veio muita gente assentar arraiais nesta urbe das águas caldas.

 

Da Galiza, precisamente, veio Dominguez Rámon, o protagonista desta estória.

 

Desertor das tropas do ditador espanhol e perseguido por ser do reviralho, com apenas dezoito anos parou em Chaves vindo de Xinzo de Limia, sua terra natal. Foi acolhido por António Carlão, um mestre serralheiro, cuja oficina se encontrava ao fundo da rua do Sol, no Tabolado.

 

Da arte de moldar o ferro o rapaz nada sabia. Porém, fino como azougue, prestes se especializou, orientado por mestre, este sim, um verdadeiro artista da forja. Passado pouco mais de um ano, dado o empenho e honestidade que emprestava à arte, a confiança que o patrão depositava nele era já enorme. Não hesitou em lhe confiar os mais refinados segredos do metier, exclusivo na região, da abertura de cofres-fortes, na ocasião a sua mais apurada especialidade.

 

O Rámon moldava o ferro como ninguém. Alegre e folgazão, acompanhava as pancadas cadenciadas do martelo na bigorna, entoando modas galegas da sua meninice. Uma delas, entretanto aportuguesada, rezava mais ou menos assim:

 

São Beneditino do olho redondo

Quiero ver mi madre senão morro

Quiero llevar-le uma bota de viño

E uma bôla de pan do forniño!

 

O galego vivia, por favor, nas traseiras da oficina que davam para o Tâmega. Ocupava os seus tempos livres pescando no rio, que lhe fazia lembrar o seu Limia. Colhia, no Monte da Forca, umas canas-da-índia que punha a secar nos caleiros da fabriqueta para que ficassem direitinhas. Depois de secas, acertava-lhes os nós, pendurava, na melhor, uma sediela na ponta fina e flexível, um anzol de bico de papagaio e duas chumbadas que ele próprio fabricava com o metal que o coveiro lhe arranjava. Prantava uma bóia de rolha de cortiça que ajeitava com uma navalha do Palaçoulo e lá ia para o rio. Os seus maiores cuidados eram postos na seleção do isco. Para ele o barbo só pegava bem à mioca do estrume! Por isso, tudo o que fosse verme da terra não lhe servia. O mais das vezes pescava no Poço do Leite, mais ou menos no local onde assenta hoje a Ponte Nova. Era um regalo observá-lo a pescar. Não tanto pelo calibre do peixe, que raramente era graúdo, mas sobretudo pelo espetáculo que emprestava à luta com os barbos palmeiros. O moço tinha jeito, parece que até falava em barbalez!... Então, quando o rio enlourásse com as fortes zerbadas de abril, era o ideal. Nesses dias Ramón não falhava. Um verdadeiro desinço dos barbos do Tâmega!... Para casa levava, quase sempre, uma caqueirada que a Ireninha, esposa do patrão, preparava em escabeche avinagrado. O pitéu ficava a recocar vários dias para que as espinhas amolecessem. Depois era comido, acompanhado com batata cozida do Brunheiro. Constituía um petisco muito apreciado pelos tainas, amigos de mestre Carlão, que normalmente convidava para o repasto, nos reservados do Geraldes.

 

A nomeada de Ovelha tinha origem na habilidade que tinha para balir. Fazia-o melhor do que o próprio animal. Sempre que fosse desafiado, imitava o ovino na perfeição! E fazia-o com muito orgulho. No entanto, não morria de amores pela alcunha e sempre que o atazanavam, respondia com um zurrar de burro velho que também muito bem sabia arremedar!

 

Domingos, provinha do aportuguesamento do nome original.

 

Pelos vinte anos, enrabichou-se pela Cacilda, uma moçoila mais velha e que desde tenra idade era criada de servir do padre Salgado, que paroquiava Santa Maria Maior. Uma espécie de criada para todo o serviço!.. Domingos pouco tempo namoriscou com ela. Aquela relação, ao estilo da janela para o postigo, não lhe agradava. Estava mortinho por provar as carnes maciças da rapariga e isso só poderia acontecer após o casório. Pediu-a em casamento ao prior, na curva do meio ano de namoro. O padrinho acedeu, apesar de contrariado. Preparou-se a boda. Os convidados eram poucos porque a família e os amigos contavam-se pelos dedos de uma única mão. Mas nem por isso deixou de se fazer festa rija. O Ti Carlão encomendou dois cordeiros ao peleiro de Izei. O prior uns cinco garrafões de maduro tinto à Adega do Faustino. Depois do compromisso, selado na Igreja Grande, o repasto. Escusado será dizer que foi raro o convidado que não tivesse apanhado uma respeitável cardiela! Mesmo o representante do Pai na terra não foi poupado. Estou que por falta de treino teve de esgomitar parte do cordeiro no arrumar da festa.

 

Mestre Carlão ajeitou-lhes uma casa de renda barata na rua do Poço. Aí se instalaram, mantendo as suas ocupações originais: o galego a malhar ferro, a Cacilda a dar volta aos saiotes do padre, a amanhar os trochos das couves de penca e a mudar as flores do Santíssimo.

 

O garanhão não perdeu tempo, a cada nove meses era pai. Já ia na quinta vezada!

 

A Cacilda, rapaça trigueira, passeava pelas ruas da cidade uma beleza saloia de bodrelho. Era reboluda como se queria uma mulher naquele tempo! Quando levava o cesto da roupa suja à cabeça, para os lavadouros do Ribelas, transindo o baraço do avental pela cintura, não conseguia esconder dos gulosos polidores das esquinas da rua do Postigo o bambolear provocatório das nádegas rechonchudas! Contudo, a cabrita tinha tanto de bela como de rapioqueira! Onde pudesse meter a mão de raposa ladina, não perdoava! Amiga do alheio, nem mesmo a caixa das esmolas respeitava. E assim ia governando a vidinha!..

 

Ao clérigo, seu amo, de vez em quando oferecia uma pita, criada nas traseiras da oficina de mestre Carlão, em arroz de cabidela e que ele muito apreciava. Presenteava-o ainda com uns cibos de febra do lombo do requito que matava pelo Natal e com outras preciosidades que a argúcia do leitor certamente não deixará de adivinhar!..

 

O Dominguez dava jeito a quase tudo e sempre que eram precisas pequenas intervenções na Matriz do cónego, lá o convidava para as fazer. E aceitava as tarefas de bom grado. O mandador era franco. Cada vez que recorria aos seus serviços não o deixava de mãos a abanar: um macito de cigarros ou uma lisca de presunto, nunca falhava! E, claro, o Domingos não renegava estes presentes porque trabalho tinha-o gracioso em seus braços e tabaco ou presunto apenas avezava a pus de vintém!..

 

Ora, um belo dia o abade pediu ao galelo para guiar um braço ao Santo Antoninho que tinha sido desguiado na ornamentação da Semana Santa. Emplouricado no altar do casamenteiro, lá corrigiu o remo ao santinho. O trabalho ficou tão perfeito que parecia executado por qualquer especialista santeiro da cidade dos arcebispos. Ao elogiá-lo junto das beatas, o abade deu uma facada nos bons costumes. Referiu-se ao dito cujo pela conhecida alcunha de Ovelha. Alcoviteiras como eram as hipócritas mulheres, logo meteram a novidade no cu de seus maridos. Claro que a notícia depressa chegou aos ouvidos da vítima que, por sinal, não ficou nada agradado! Aos lavadouros do Ribelas chegou igualmente célere à sua Cacilda. Esta, íntima do sotaina, logo se disponibilizou para acompanhar o ofendido a tirar satisfações na sacristia da Matriz, após a missa das seis. Enquanto o cura se desparamentava, não esteve com meias cantigas, investiu sacristia adentro arrimando:

 

Ah… seu abade abadinho! Seu barbas untadas do meu toucinho! Seu comedor das minhas frangas! Seu pai dos meus filhos! Vossemecê chamou Domingos Ovelha ao meu home? Chamasse-le entes carneiro barbudo com cornos e tudo!..

 

O vigário, rodeado das beatas que o auxiliavam, de tão envergonhado não sabia onde se havia de meter! A sorte é que as velhotas pouco mais sabiam do que desfiar Avé-Marias, pelo que não conseguiram decifrar o lado negro da mensagem da descompostura. E foi o que lhe valeu para continuar a manter o prestígio que todos, apesar de tudo, lhe reconheciam!

 

O Domingos, perante tão temerário arreganho, inchava de orgulho na fidelidade da mulher que tinha!..

 

Croncho, atirou estas palavras em jeito de agradecimento:

 

Ó mujer, por Dios… Que recado le passastes! Vem daí às minhas costas que te llevo daqui até caza!

 

A Cacilda não se fez rogada e aproveitou a boleia.

 

Destinos!

 

Gil Santos

 

 

 

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