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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos sobre a cidade

25.05.18 | Fer.Ribeiro

GIL

 

 

A ABELHA E O NANO

 

O Nano, Adriano de seu nome próprio, velho amigo, era travesso como um arrôcho. Terror dos pardais novos, passava a vida na candonga e no rapinanço. Fossem as cerejas de Junho, ou as castanhas de Outubro, tudo lhe servia.

 

Aprendi com ele algumas das suas técnicas. Uma delas marcou-me bastante, dada a singularidade e o gosto ímpar que proporcionava. Pelo fim do Verão, aprendi a procurar pedaços de caules secos de silva brava que tivessem o miolo furado numa das pontas. Abertos com jeito, continham umas bolinhas de mel, de cor lilás de um gosto excelentíssimo. Produto do labor de uns pequenos insetos voadores, quiçá da família das abelhas. Um manancial de gosto e prazer. O Nano sabia dos melhores lugares e das pontas de silva que melhor produziam.

 

Acompanhá-lo era uma escola de vida, fosse para o que fosse: fussar à cata de níscaros, topar ninhos de pássaros nobres – melros, rolas ou eivões – ou descobrir luras de coelho bravo. Quem é que o batia?

 

O Nano parecia possuir um sexto sentido, ainda mais apurado do que aquele que caracteriza o sexo feminino na descoberta de inconveniências!..

 

Um dia, ao fim da tarde, meados de Outubro, regressávamos de Adães, da escola do professor Matos, que ficava a uns três quilómetros do Carregal. Não fossem as travessuras que era costume animarem o caminho e seria um degredo calcorrear aquele caminho todos os dias para cima e para baixo, com o sol escaldante da primavera ou o carambelo dos invernos gelados. Nuns dias trilhávamos a estrada principal, noutros caminhos alternativos sempre prometedores de grandes aventuras. Naquele dia, deu-nos para regressar pelo Belão. Era um sítio de carvalhadas, giestais e lameiros, recortados por uma ou outra leira de cultivo.

 

Numa das touças do Belão, tinha o Chico Milheiro cinco colmeias que ajudavam ao sustento da sua pobre casa. Colmeias eram coisas raras naquelas bandas geladas do Brunheiro. Não sei, mesmo hoje, como é que o Milheiro conseguia manter esses laboriosos insetos que são as abelhas. Mas o certo é que produziam um mel de excelente qualidade e de que ainda hoje me lembro pelo sabor único que guardava.

 

Está bom de ver que o regresso por aquele sítio tinha a assinatura do Nano. Para quê? Rapinar uns favos das colmeias do Chico Milheiro.

 

Foi pensado e feito!

 

Seríamos uns cinco: eu próprio, o Nano, o Joja, o Gripino e o Madeu.

 

Combinado, o plano foi posto em prática. Coube-me ficar de vigia juntamente com o Gripino. Ao Nano, ao Joja e ao Madeu cabia a ingrata missão de abrir o cortiço e sacar parte do mel que havia sido deixado na colheita para que servisse de alimento durante o inverno duro que estava prestes a começar. As abelhas, agitadas pelo movimento desusado e decerto adivinhando a intenção dos farsolas, zuniam nervosas e ameaçadores sobre os sargaços e as giestas rasteiras. Porém, operava-se um milagre: o trio conseguiu fanar um favo, carregadinho de mel, e sem uma única ferroada. Ainda hoje estou para saber como foi possível isso acontecer.

 

Todavia, o pior estava para vir!

 

Ao Nano, não sei se pela excitação da vitória se pela força da própria natureza, deu a vontade de mudar a água às azeitonas. Não havendo entre os parceiros o menor pudor, abriu a braguilha, puxou do instrumentico e aliviou-se. Eis senão quando, não sei se por vingança se pelo cheiro amoniacal da excreção, uma abelha espetou, corajosamente, o seu ferrão venenoso na glande do desgraçado.

Ah tormenta das tormentas!... Desgracia das desgracias!...

 

O aço da navalha do Madeu ainda acudiu, mas sem efeito algum. Daí a uma meia hora o aparelho deu de inchar de tal forma que já nem cabia no sítio que as calças de serrobeco lhe reservavam.

 

Um espanto!

 

No fundo até era engraçado! Nunca se tinha visto coisa mais disforme!

 

A mim fazia-me lembrar uma daquelas mocas que os pastores usavam para guardar o gado, evidentemente guardadas as devidas proporções!

 

Eu não sabia se havia de rir ou de me manter, solidariamente, sério e chorar com ele!

 

E agora que fazer?

 

A dor lá a ia suportando, o pior foi quando a bexiga perdeu a capacidade de armazenar as excreções urinárias. O infeliz urrava como lobo emparedado, suava como um camelo, desfazia-se em impropérios.

 

Lá teve que perder a vergonha e recorrer à Tia Cândida, curandeira do sítio, que com umas benzeduras e umas papas de linho conseguiu pôr de novo o aparelho a funcionar devidamente.

 

Contudo, o episódio não lhe serviu de emenda, nem a ele nem a nós, pois voltámos a repetir o feito vezes sem conta!

 

Pudera, por aquele mel valia a pena correr todos os riscos!

 

É claro que nunca mais ninguém se aventurou a pôr ao vento o dito cujo, pelo menos perto das colmeias do Ti Chico Milheiro.

 

Arre!..

 

Gil Santos