Discursos Sobre a Cidade

SER OU TER?: – EIS A QUESTÃO
Tínhamos, nas nossas agendas, uma vez munidos de uma Carinha Todo Terreno emprestada, guardado dois dias para no Gerês barrosão, irmos à procura das cascatas.
No segundo dia, a certa altura, os amigos Pluto e Berto dão uma guinada e viram para a serra de Alturas.
Descendo do parque eólico ali instalado, fomos ter a um pequeno vale, um enclave, onde encontrámos uma aldeia, completamente em ruínas, verdadeiramente fantasma.

Duas cadeias de televisão, a 27 de outubro de 2013, e a 18 de novembro de 2013, depois de apresentarem a reportagem «Aldeia à venda em Boticas» e «Aldeia à venda», respetivamente, (http://videos.sapo.pt/e10Z5ffed8DZB1GUNwf1); (http://portocanal.sapo.pt/noticia/11187/) comentam, da mesma forma, sobre este assunto: “O despovoamento do interior está a abrir as portas a uma nova área de negócios: a venda de aldeias. A ideia é atrair investidores para projetos turísticos. É o caso de Covelo do Monte, em Boticas. Uma localidade que perdeu os últimos habitantes há cerca de 50 anos e que agora está à venda por 4 milhões de euros”.
Chegámos ao local e, máquinas em punho, não parámos de fotografar. Um autêntico cenário de abandono e desolação.

Que agora é apenas pasto e guarida para o gado. Um belo horrível, que, verdadeira e profundamente, nos deixou pensativo: a que ponto chegou o estado do nosso interior, da nossa matriz rural!

Feita a nossa reportagem fotográfica, no regresso, lembrávamo-nos de um escrito por nós publicado, a 4 de fevereiro de 2013, sob a epígrafe «Poemas Ibéricos versus Mensagem». (https://zassu.blogs.sapo.pt/2521.html).
Nesse texto, a propósito de uma intervenção de Teresa Rita Lopes, da Universidade Nova de Lisboa, com o título «A Ibéria, de Torga e Nós, Portugal e poder, de Pessoa», proferida por ocasião do centenário do nascimento de Miguel Torga, no Centro Cultural Calouste Gulbenkian, em Paris, na qual a autora procurava dar uma visão que estes dois autores tinham sobre Portugal, dizíamos que, para Torga, a Ibéria é um corpo magro, pobre, «saibroso e franciscano», mas materno, à qual seus filhos, que mamaram nas suas tetas de pedra, devem fidelidade eterna. Na obra de Torga há a permanente oposição corpo-alma, optando sempre este autor pelo corpo.
Pelo contrário, para Pessoa, o país não é um corpo, mas sim uma alma.
Não é por acaso que os «Poemas Ibéricos», de Torga, acabam assim:
“Venha o Sancho da lança e do arado,
E a Dulcineia terá, vivo a seu lado,
O senhor D. Quixote verdadeiro!”
Pessoa, sendo sempre pelo barco, contra a raiz, num poema da sua «Mensagem», «O Quinto Império», escreve:
“Triste de quem é feliz!
Vive porque a vida dura.
Nada na alma lhe diz
Mais que a lição da raiz –
Ter por vida a sepultura”.
Para Torga, somos humildes filhos de uma mãe rude e pobre, (a Ibéria), mas dotada de uma grandeza de que nos devemos orgulhar. É ao seu apelo que devemos acudir, não ao do mar, a sereia traiçoeira. Por isso, exorta Sancho a que regresse ao seu arado.
Para Pessoa, no período áureo em que nos revelámos aos nossos próprios olhos, fomos «navegadores e criadores de impérios». Por isso, a mensagem da «Mensagem» é o contrário da dos «Poemas Ibéricos».
Torga, premonitoriamente, insistia: “Olha esta Ibéria que te foi roubada e que só terá paz quando for tua». Porque é preciso que Sancho a recupere, de arado em punho, rejeitando traiçoeiros sonhos de grandeza e volte a cultivar os seus campos e a travar a tal quotidiana «batalha de ser fiel à vida».
Estaremos perante dois autores com visões opostas quanto ao Portugal que desejavam?
Cremos que não. Pessoa, mais tarde em prosa, explicava que na sua «Mensagem» o que pretendia era fazer passar a ideia de que os portugueses, no presente, agissem de uma forma idêntica ou equivalente à época das Descobertas do passado, mas apenas no domínio do ser, não do ter, como então. Por isso incita os seus concidadãos a reencontrarem-se em «Nós, Portugal, o poder ser».
Debalde o incitamento destes dois vultos da nossa portugalidade!
Ao longo do tempo, fomo-nos esquecendo da lição destes dois grandes mestres - o de ser português: sonhar com os pés bem assentes na terra, no nosso terrunho, recuperando, «com o arado em punho» a terra que, pelo nosso descuido, incúria e negligência, «nos está sendo pilhada» e, numa nova gesta de descoberta, desenvolvermos, todos, toda a nossa terra – do mar à planície, da planície ao planalto, do planalto à montanha, do norte a sul, do litoral para o interior – fazendo-nos, de novo, dignos do nobre nome que, ao longo dos tempos, nossos antepassados tão bem souberem erguer e preservar – Portugal.
E como nos faz tanta pena, sempre que percorremos o terrunho sagrado do nosso Trás-os-Montes, como o nosso Alto Tâmega e Barroso, o constatarmos quão certeiras eram as palavras do nosso «maior», Miguel Torga, quando, do Gerês, a 7 de agosto de 1953, vertia para o seu Diário as seguintes palavras:
“Em Portugal, decentemente, só se pode ser cavador. Apenas a manter terra um homem atinge nesta pátria a perfeita dignidade da espécie. Fora disso, é uma limitação irremediável que cinge cada um e o não deixa ultrapassar a crosta defensiva que o reveste. Mal largamos o enxadão e subimos um grau na escala social, corrompe-nos não sei que lepra, que já não há simplicidade possível, nem grandeza correspondente. Tornamo-nos furtivos, inconvenientes, desconfiados, incapazes de qualquer harmonia social baseada na articulação voluntária do que somos com o que não somos. O diálogo cessa, para dar lugar a um monólogo de pragas e vociferações. Espreitamo-nos uns aos outros por detrás das cortinas dum mundo interior de enconchado egoísmo, e nada nos dá mais alegria do que as falências alheias, assim contempladas a respeito de qualquer responsabilidade cívica. Colaborar nas alegrias e tristezas do semelhante, trocar palavras, ideias e sentimentos, só os componentes de uma roga, os companheiros de uma vessada, os que a fraternidade do suor amalgama na sinceridade e honradez natural. Os civilizados, aqui são os analfabetos”. (Sublinhado nosso).
A entrada acima citada dava para, sobre ela, fazermos uma profunda meditação e uma acalorada discussão. Fiquemo-nos apenas no tema que aqui hoje nos trouxe.
A essência do ser português deve ser cuidar do que é seu, não o deixar morrer; descobrir «novos mundos», novas formas de nos desenvolvermos; e não o fazer tudo a todo o custo, reduzindo tudo quanto temos a pura mercadoria, particularmente quando se trata do mais rico e mais querido legado histórico e cultural das nossas comunidades. Nas as deixando morrer…
Pensarmos apenas no ter – a qualquer preço – é deixarmos alienar tudo aquilo que, na essência, somos, esquecendo-nos verdadeiramente do que é ser transmontano, altotameguense ou barrosão, entre outras regiões que constituem o Portugal que hoje somos.
Nas nossas constantes incursões pelo nosso mundo rural, outra coisa, no fundo, não pretendemos do que captar – e não deixar morrer em nós – tudo aquilo que nos identifica verdadeiramente como portugueses. É esse, pelo menos, o nosso desiderato.
Mas, infelizmente, casos como o Covelo do Monte, começam a aparecer a cada dia, cada vez mais!
E nós, aqui por Chaves e pelo Alto Tâmega e Barroso, o que estamos a fazer para não nos transformarmos num território de aldeias fantasmas, como a reportagem fotográfica que a seguir se mostra?
Urje que tenhamos uma visão de futuro para o mundo rural do qual fazemos parte. Uma visão do nosso futuro comum, sob pena de, a breve trecho, todo o nosso rico legado histórico e cultural se esvair neste mundo e nesta sociedade globalizante, rejeitadora das particularidades e das diferenças, transformando o nosso património (material e imaterial), já não em simples mercadoria, mas em pura e simples ruínas, como alguns «Covelos do Monte» que vão aparecendo por este nosso Portugal interior, tão incuriamente, por todos nós, esquecido.
COVELO DO MONTE – ALDEIA FANTASMA
(https://www.youtube.com/watch?v=A6_sbMNBiNA)
António de Souza e Silva


