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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade

06.07.18 | Fer.Ribeiro

SOUZA

 

 

PERDA DE MEMÓRIA OU FALTA DELA?

 

Não sabemos muito bem qual a razão que, todas as vezes que somos convidados por amigos, amantes da fotografia, para irmos para o Barroso, nos impulsiona sempre uma vontade de encontrarmos uma nesga de tempo, nos nossos afazeres quotidianos, para os acompanhar.

 

O mundo rural e o contacto com as suas gentes são mais a nossa «praia» do que o sofisticado, artificial e, tantas vezes, mesquinho meio urbano em que, hoje em dia, nos movimentamos e vivemos.

 

Percorrendo as aldeias, o casario tradicional, os campos e as serras do nosso mundo rural, sentimos, no contacto com as suas gentes, um halo muito maior de genuína autenticidade.

 

Aí há como que um voltar à nossa infância. Não uma infância de privações e misérias. Uma infância em que, independentemente das condições de vida, havia inocência, mais espírito de interajuda, solidariedade. Enfim, em que sentíamos um verdadeiro sentido de comunidade.

 

Infelizmente, hoje está tudo se desmoronando, tal como a nossa arquitetura rural tradicional, os nossos campos abandonados, à voragem das intempéries e do fogo. E, no meio destas ruínas ou escombros, apenas vamos encontrando alguns – muito poucos - «maiores», à espera da sua «chamada».

 

Olhemos para a nossa cidade e para as vilas próximas, que durante tantos séculos foram o suporte de um mundo rural ativo e dinâmico, e perguntemos-lhes: o que fizeram para que a matriz da nossa identidade, como transmontanos, durienses, altotameguenses e barrosões não definhasse?

 

Muito pouco. Ou quase nada. E nada digam que a responsabilidade foi dos sucessivos poderes centrais que deixaram o interior ao abandono! O que nós – os que cá ficaram e os da diáspora – fizemos? A culpa, aqui, não pode ficar solteira, ou apenas à responsabilidade de um só vilão!

 

Fomos na «onda» daquilo que interiorizámos como se fosse uma inevitabilidade dos tempos, assente na urbanização maciça e na globalização e homogeneização total das sociedades modernas. E esquecemo-nos de lutar e trabalhar para preservar as diferenças que nos distinguem e que, por isso mesmo, nos torna distintos.

 

Porque só lutando pela variedade das diferenças das diversas regiões que somos e temos em Portugal é que nos podemos impor como povo, sob pena de nos diluirmos na massa informe de simples e meros assalariados – por mais instrução e «canudos» que tenhamos – do capitalismo selvagem que hoje, por toda a parte, nos «vende», nos governa, impondo as suas normas.

 

E quanto admiramos um Homem, com letra grande, um grande transmontano que, durante uma vida inteira, outra coisa não fez  senão lutar, usando a sua pena, para que a nossa própria e genuína identidade, o sentido daquilo que nos faz(ia) um povo singular, não desaparecesse!

 

Era um duriense de gema, mas, acima de tudo, sentia-se um verdadeiro e autêntico transmontano.

 

E quanto ele gostava da cidade de Chaves quando, durante décadas, no período balnear, por aqui passava longas temporadas!

 

Veio-nos, aqui há dias, ter à mão um livro de João Céu e Silva, com o título «Uma longa viagem com Miguel Torga», da Editorial Asa. O autor desta obra, a certa altura, nas entrevistas que faz a diversas personagens que, de alguma forma, privaram com Torga, dialogando com o padre Valentim, da Gráfica de Coimbra, face à pergunta se conhecia muito bem Miguel Torga, este responde-lhe: “Talvez como ninguém conheça, à excepção da família! É que para além desta vivência de Coimbra, todos os anos íamos os dois passar férias a Chaves, nas termas. Passávamos o tempo sempre juntos, dormíamos no mesmo quarto e comíamos à mesma mesa. Por essa razão, há uma intimidade que me causa algum pudor quando me pedem para falar desses tempos de uma forma livre (…) Andava sempre com um caderno de apontamentos na mão e depois, em Chaves, acabava por construir tudo aquilo que ao longo do ano tinha escrito. Eu vi nascer muitos poemas, observei como começavam (…)”.

 

E à pergunta porque é que Torga gostava tanto de Chaves, padre Valentim responde: “Era por causa daquele silêncio, daquela paisagem e das termas. Além disso, os arredores de Chaves são muito ricos em monumentos, principalmente românicos, e ele gostava de os ver. Todos os dias tínhamos de ir a um lugar qualquer, nem que fosse para Espanha. Chaves era o lugar onde se sentia melhor, uma espécie de céu para ele. Não o incomodavam muito (…) Quando saímos de lá, o homem quase chorava porque era ali que estava bem. Como disse, era ali que praticamente fazia o arranjo final das obras e depois, quando vínhamos para baixo, dava-me os originais para eu fazer o trabalho na tipografia”.

 

No Barroso, algumas terras, não esqueceram este empedernido transmontano, gravando ou esculpindo as suas palavras no material que ele mais adorava – a pedra.

 

Nós, em Chaves, onde temos a presença de um homem que, aqui, fez brotar grande parte da sua Obra?

 

Perdemos a «memória» deste nosso «Maior».

 

E, em Chaves, quantas «memórias» gravadas dos nossos antanhos, mais coevos, ou mais próximos, temos nos nossos espaços públicos?

 

Fora os Santos, poucos, como a «Mãe», no Jardim do Bacalhau, e o pequeno Santo Amaro, no largo com o mesmo nome, existem, em termos de estatuária, apenas 5 bustos: D. Afonso, 8º duque de Barcelos; padre Joaquim Marcolino Fontoura; Cândido Sotto Mayor, cujo busto o banditismo fez desaparecer do Jardim Público; António Granjo e Mário Gonçalves Carneiro…

 

Para uma cidade milenar, tão pouca ou falta de «memória» da nossa história, deveria deixar-nos envergonhados!

 

Olhemos, por exemplo, para a cidade de Bragança e para os seus espaços públicos. Quem Bragança faz perdurar nos seus espaços públicos? O seu povo, nas suas diferentes atividades, aquele que Torga, nas muitas deslocações que fazia pelo nosso Portugal, ia ao encontro!

 

Em Chaves, já há muitos anos, apenas um autor, natural de Murça – Fernão Magalhães Gonçalves – se debruçou sobre a obra deste nosso «Maior» em «Ser e Ler Torga».

 

O que faz em Chaves a maioria da nossa dita elite intelectual?

 

Empanturra-se – trazendo cá, de vez em quando, pressupostas vozes sonantes da literatura «nacional» - com obras que apenas evidenciam o tamanho do seu enorme umbigo e não procuram analisar testemunhos, ainda vivos, e os nossos genuínos autores, e, com as suas obras, irem à descoberta e ao encontro da «alma» do nosso povo. Este deve ser o papel fundamental não só de um intelectual como de um artista, digno desse nome.

 

Uma comunidade que não se identifique com a sua «intra-história» - e as mulheres e homens das artes são os elementos fundamentais, se não essências, para estabelecer este «religar» - não tem verdadeira autenticidade e, consequentemente, a sua memória porque ausente, desaparece, diluindo-se na amálgama de uma sociedade que tudo nivela e nada diferencia.

 

António de Souza e Silva

 

 

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