Discursos Sobre a Cidade

A XARAGONA
Nem de riscado a Xaragona se sabia vestir!
Rais-te-parta que podão tamanho!...
Um bacamarte, como diria o povo!
Sobrava-lhe no corpo o que lhe faltava em miolo. E se o cérebro lhe tivesse medrado como o embrulho, haveria de ser uma das pessoas mais escorreitas do lugar. Mas a verdade é que, tirando a capacidade de se meter na vida dos outros e de retirar proventos do esforço alheio, nada mais se lhe aproveitava.
Uma microcéfala a Xaragona!
Má como um bestigo, era igualmente rancorosa, falsa e invejosa. Não podia ver um vizinho de camisa lavada que punha logo a sua à cora. E se alguém evidenciasse uma capacidade para si inalcançável, tudo fazia para a ridicularizar.
Cuspindo com frequência no prato que a alimentava, fazia da ingratidão lema de vida. Podiam dar-lhe a teta a vida inteira que na primeira oportunidade arrastaria pela lama a imagem de quem, cegamente, lhe alimentasse a incompetência!
Quando tinha que falar zurrava e fazia-o em tal registo que arrepiava até o mais incauto. Qual megafone anunciando a banha da cobra na Feira dos Santos!
Pior do que tudo é que conseguiu emprego na Junta de Freguesia. A pus de golpes baixos, conseguiu ludibriar o Presidente e fazer-se passar por muito competente nas coisas da coltura.
Ficou chefa da biblioteca da Junta!
Escusado será dizer que o Presidente era tão asno quanto ela, diga-se de passagem, porque quem se sujeita a ser escolhido pelo povo para o governar, tem de o conhecer bem, a não ser que finja que sim pelo poleiro, o que acontece o mais das vezes!
A biblioteca da Junta era a menina dos olhos da freguesia.
Já não havia necessidades da biblioteca itinerante da Gulbenkian todos os quinze dias. Mas se à Citröen da Gulbenkian ainda ia algum povo, à biblioteca da Junta não ia ninguém, só para não ouvir os urros da Xaragona!
A dita cuja transformou-se num espaço solitário, triste, cheio de teias de aranhão! Um espaço morto, bafiento que não despertava o interesse a ninguém. Parecia um jazigo de família, onde os livros dormiam um sono quase eterno! Só passar à porta já dava uma ranheira que nem o surto mais violento da pior sarna!
E se a biblioteca era rica!
Tinha até livros de estórias sobre a terra e as suas gentes, contudo, ninguém era capaz de saber que lá moravam!
O secretário da Junta, de nome Zebedeu, era um rapaz azadinho, que tinha andado na tropa em Mafra e que nos tempos livres se distraia a visitar a biblioteca do convento e a folhear alguns livros que lhe parecessem interessantes. Portanto, nutria pela livralhada um carinho muito especial e o facto de a sua biblioteca ser tão desprezada, andava a meter-lhe algum asco.
Começou a azucrinar os ouvidos do Presidente tentando convencê-lo de que tinha de pôr a Xaragona a cavar batatas que para isso ainda haveria de ter algum jeito. Custou-lhe, mas como “água mole em perda dura tanto dá inté que fura”, lá veio o dia em que o chefe ganhou, finalmente, coragem e lhe deu três meses para fazer a mala!
Caiu o Carmo e a Trindade!
Enlameou de tal forma o nome do autarca que dificilmente a reeleição seria um cenário possível. Mas o povo não é burro, pese embora muitas vezes o fingir!
A verdade é que quando ela soube que a responsabilidade do seu despedimento se deveu à insistência do secretário da Junta, não esteve com meias medidas, esperou que a aldeia fosse visitada por uma família cigana que vagueava de terra em terra e que tinha muito má fama, para encomendar um determinado serviço ao patriarca Jimenez. A troco de quinhentos marréis, por vingança, deveria partir os cornos ao Zebedeu na primeira esquina onde o encontrasse.
Pagou e aguardou pelo serviço.
Num domingo de invernia, jogava-se à lerpa na taberna do Milhais.
Numa das mesas estava Zebedeu e alguns amigos tentando esfolar os de Vale do Galo.
Páginas tantas, entrou o Jimenez acompanhado de dois farsolas, autênticos príncipes da navalha.
Ninguém previa que o copo de tinto que o Jimenez pediu ao taberneiro, servisse de mote à zaragata que se seguira. O cigano passou perto da mesa de Zebedeu, com o copo em riste e, como quem não quer a coisa, tocou-lhe, propositadamente, de raspão no braço para que o vinho se vertesse.
Tornou-lhe as culpas.
Após pequena discussão o pai dos ciganos pregou-lhe duas solhas no focinho. O Zebedeu, que não era para cantigas, ripostou. Os ciganos vieram em socorro do patriarca e armou-se tamanha zaragata que se não fosse a desproporção de forças tinha sido um caso sério. Os paisanos dominaram os gitanos com relativa facilidade e mais do que isso, obrigaram-nos a falar.
O Jimenez, apertado dos coletes, lá pôs a boca no trombone e contou tudo.
Ora, como as tascas na altura tinham o mesmo efeito que têm hoje as redes sociais na divulgação das notícias, o incidente fez cair a Xaragona em desgraça.
Doravante era desprezada por todos.
Caiu em tal desespero que teve de se ausentar para parte incerta sem que mais se lhe soubesse do paradouro.
O Presidente foi reeleito e a aldeia passou a viver na paz do senhor.
Xaragões agora, só mesmo os das camas de ferro forjado dos fregueses!
Gil Santos


