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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

26
Set14

Discursos Sobre a Cidade - Por Francisco Chaves de Melo

 

 

Conceções de ideal urbano pré-construídas em modelos de cidade compacta

 

 

Em Chaves, como em outros locais, os fenómenos de suburbanização e periurbanização resultaram da “expulsão” da cidade de população pelo efeito conjugado do forte crescimento demográfico, registado no concelho na década de 90 do século XX, do êxodo rural e da má qualificação[1] do sítio inicial da cidade.

 

 

Este tipo de fenómenos propiciou o desenho de sistemas de polinucleísmo urbano, sistemas que unem “cidade e campo num vasto conjunto, na escala da região, organismo de múltiplos centros mas funcionando como um todo”.[2] Referindo-se mesmo virtualidade a este sistema de “estruturação urbana que conservaria as vantagens das pequenas aglomerações ao mesmo tempo que, rivalizaria com as grandes metrópoles”.[3]

 

 

 

Como é óbvio, as novas ideias surgem geralmente para dar respostas a novos questionamentos. Assim, a degradação urbana e, por essa via, a degradação da qualidade de vida dos urbanos, conjugada com o importante desenvolvimento dos transportes[4], e ainda os diferenciais de custo de solo levaram à necessidade de pensar soluções de residência fora da cidade compacta. Soluções de residência geralmente unifamiliares. Assistiu-se, por conseguinte, à “explosão da cidade” lançando fragmentos que se dispersaram no território. Na realidade, embora em espaços diferentes, ainda hoje se verifica o fenómeno referido, já que aos fatores que o despoletaram a explosão, se juntam os recentes processos de dispersão industrial[5] e disseminação das redes de comunicação e informação que, pela contínua melhoria das acessibilidades e redes logísticas de transportes, possibilitam o distanciamento entre os locais de produção e consumo, e os locais de residência e convívio social.

 

 

É óbvio que esta visão não está isenta de críticas, dado que, não é possível iludir o contínuo crescimento das cidades compactas, quer em efetivos populacionais quer ainda no seu número. Desta forma os fenómenos de dispersão, muitas das vezes, não representam mais que o ordinário crescimento centrífugo das cidades consumindo a periferia, em consonância com as diferentes fases do ciclo[6] de urbanização, desurbanização e rurbanização definidos por P. Hall e Van de Berg, referenciados por Gonzalez.[7] É de conveniência referir também que parte da preocupação que expressam se prende com a necessidade de travar o processo de desconcentração[8], o que permite antever conceções de ideal urbano pré-construídas em modelos de cidade compacta e, porque não dizê-lo, pouco flexíveis[9] ou talvez apenas se trate do tempo que o “novo” demora a ser enquadrado nos cânones.

 

Francisco Chaves de Melo


[1] As cidades apresentaram nos últimos 50 anos um rápido desenvolvimento extra-urbano ao mesmo tempo que se verificou a crescente decadência do seu interior e a nefasta obsolescência do ambiente suburbano e do edificado.

[2] MUNFORD, L. (1965) A cidade na história.

[3] Idem

[4] Em velocidade, capacidade de carga, especialização e conforto.

[5] “os empreendimentos económicos e produtivos - e os capitais - migram em busca de novas vantagens locacionais. (...) A mobilidade de capitais e de empreendimentos, capitaneada pela re-localização dos segmentos económicos de alta tecnologia, repercute na projecção de novas áreas e regiões e no declínio de outras, geralmente aquelas de industrialização baseada no antigo modelo fordista de produção em massa.” In ALBAGLI, Sarita (1998)

[6] A ideia de ciclo também se encontra em escritos mais atuais. Estes referência o aparecimento de um novo paradigma, o paradigma informacional em substituição do paradigma comunicacional. O cruzamento de diversos fluxos é central nesta nova conceptualização. Para André Lemos existem assim, “neste espaço de fluxo três fatores: a des-espacialização, o descentramento e a des-urbanização”, que são responsáveis por transformações nos processo e formas de povoamento. “O primeiro refere-se à ênfase no tempo das trocas, no fluxo de informações que transforma os lugares em espaços de fluxos. O segundo, que se refere a perda do centro, significa que, no espaço de fluxos, todos os lugares são equivalentes, acarretando a desvalorização de lugares antes tidos como centrais, como praças, monumentos ou ruas. O terceiro fator lida com à perda cada vez maior de uso da cidade pelos cidadãos. Isso significa que o fluxo pelas ruas, praças, avenidas e monumentos se fazem, agora, na lógica da consumação e do trabalho, fazendo com que os cidadãos fujam do caos urbano, seja refugiando-se em espaços paradisíacos privados (shoppings, condomínios fechados, guetos), seja fugindo para espaços periféricos dos grandes centros.” LEMOS, André (2001) – Cibercidades.

[7] GONZÁLEZ, Xosé dir. (2001) Planeamento estratéxico e mercadotecnia territorial

[8] hoje, no nosso país, o “lápis azul” das administrações centrais mostram a mesma preocupação, quando limitam os perímetros urbanizáveis de cidades vilas e aldeias, pois chegaram á conclusão  que, se fosse ocupada a capacidade construtiva contida nos PDM’s, haveria capacidade para albergar vários milhos de novos residentes.

[9] Por vezes nova visões encontram limites difíceis de transpor. A este respeito Manuel de Forn refere que “en las ciudades más avanzadas, estabilizadas en población y con alta calidad de vida, hay crisis de imaginación y comprensión”, acrescentando ainda que “el imaginario físico tradicional no es suficiente para abordar los cambios.” FORN, Manuel (2002)  Claroscuros de los planes estratégicos.

 

 

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