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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

21
Mar14

Discursos Sobre a Cidade - Por António Tâmara Júnior

 

CHAVES, PARA ONDE VAIS? ...

 

Tenho de confessar: tenho um fraco por Chaves.

 

Não, que de todo em todo, seja uma cidade deslumbrante. Possui, naturalmente, os seus encantos. Que me ficaram bem gravados aquando da minha passagem por aquela terra na adolescência e primeira juventude.

 

Mas, confesso, que esta cidade que tantas recordações e coisas boas me evoca, toda ela, hoje em dia, «cheira» a não sei quê. De princesa, herdeira de um cetro real, não passa de uma rainha sem coroa e sem trono.

 

Minha predileção por Chaves, tem a ver não só com o encantamento do seu centro histórico e das recordações que me traz, mas também das minhas afeições: nela residem pessoas que muito estimo e preso.

 

Infelizmente, em mais de meio século, anda associada a uma porta de saída fácil e franca de uma pátria que pouco estima e acarinha seus filhos. Filhos que tão denodo têm por ela!

 

Tudo o resto em Chaves não passa de lembrança de uma glória passada de seus antanhos. Hoje, o que vemos verdadeiramente, é mera prosápia retórica de alguns, poucos, felizmente, que se «encavalitam» nos seus «pergaminhos», mas que, pouco ou nada, fazem para os «pôr a render». Triste sina a desta terra| Aliás como de muitas outras espalhadas pelo interior do nosso país. Cantam-se muitas loas ao facto de este cantinho estar à beira mar plantado. Contudo - malfadada sorte a nossa - quem nos governa e dirige, esquece-se, reiteradamente, das terras originárias da gesta lusíada que, atravessando mares tenebrosos, deram a conhecer novos mundos ao mundo! Depois foi o desvario de tantos séculos até aos dias de hoje! Quando esta nossa má sorte, de toda a maltrapilha que nos tem governado, acabará?

 

Vem todo este arrazoado a propósito de uma visita que recentemente fiz a Chaves para ir ver e estar com tio Nona. Desde que se meteu o inverno, nunca mais estive com ele. Meus primos iam-me informando do seu estado: que andava acabrunhado; cada vez mais deprimido e que não saia de casa.

 

Aproveitei estes últimos dias lindos de sol, pronunciadores de uma primavera a aproximar-se, e, das arribas do Douro, dei uma «saltadela» até às portas de Trás-os-Montes profundo.

 

E tirei tio Nona de casa para dar uma «passeadela» comigo, vagueando pelas ruas da cidade, ou seja, dar um passeio a pé, tão a seu gosto.

 

Notei-lhe um pouco as «dobradiças» enferrujadas. Mas sempre me foi acompanhando.

 

A páginas tantas estávamos quase na saída da cidade, pelo lado norte.

 

E fiquei deveras admirado com o que fui presenciando. E, depois, estupefacto com o que vi. A pé tem-se uma visão muito diferente das coisas!

 

Como trago sempre comigo uma pequena máquina fotográfica, aqui vos vou deixar o registo.

 

Inopinadamente, saídos de um dos bairros, construído mais recentemente, - que mais lhe chamaria urbanização que bairro -, por entre um emaranhado de casas humildes, de um lado, e de prédios de andares, por outro, servidos por amplas ruas, fomos por uma humilde rua desembocar a um Centro de Saúde, ao quartel da GNR e à Escola Profissional. Infletindo um pouco à direita, demos com uma enorme rotunda.

 

 

No centro da rotunda uma placa:

 

 

 

A partir desta rotunda, a meus olhos, Chaves parece-me um outro mundo. Mas que grandiosos acessos!

 

Perante este cenário, comentava com tio Nona:

 

- Ainda bem que esta gente está empenhada na construção de bons e rápidos acessos à sua cidade, aproveitando os dinheiros da União Europeia...

 

Tio Nona olha para mim com aquele seu ar meio sarcástico, meio crítico e, puxando-me pela mão, arrasta-me para um ponto um pouco mais acima, e diz-me:

 

- O que vês aqui, apontando-me para uma placa sinalizadora:

 

 

 

De imediato lhe respondo:

 

- Uma placa indicativa para o centro da cidade de Chaves e para o Hospital!

 

De rajada, volta-me a perguntar:

 

- Sabes onde fica o Hospital?  Vês onde está o que resta do Hospital de Chaves? E vês alguma rodovia direta ao Hospital? Pois, aqui tens uma rodovia que, com certeza, em 2012, foi inaugurada com pompa e circunstância. Mas queda-se por aqui, meu espertalhão, na confluência do Centro de Saúde nº2!

 

Intrigado, pergunto-lhe:

 

- O que resta do Hospital?!

 

- Sim, responde-me tio Nona! Sabes, porventura que raio de serviços hospitalares nós hoje temos em Chaves? É uma vergonha os serviços hospitalares que temos instalados em Chaves! Não sabes que a lógica política em Portugal é mais napoleónica que o próprio Napoleão? Tudo para a capital! No país funciona simplesmente a lógica da capitalidade. Que infecta, inclusive, as ditas capitais de distrito, que acabam por «engordar» à custa da pobreza de todos nós que as sustentámos com os poucos recursos que positivamente, dia a dia, e cada vez mais, nos estão roubando. Isto que nos estão a fazer os «cretinos» que nos governam (e infelizmente aqueles que nos têm governado), a soldo do capital e dos senhores que comandam a batuta, desde a União Europeia, é um autêntico esbulho! Mas adiante... Nós aqui em Chaves ficamos sem serviços e os da Vila vivem na ilusão que são reis... em terras de cegos! Coitados, pobres de espírito, que não se dão conta que ninguém prospera com a miséria dos outros! Mas o que verdadeiramente me preocupa é a completa apatia, inércia ou, quiçá, incompetência, dos que aqui gerem a causa pública municipal.

 

E continuou:

 

- Agora, o que vês mais à frente, para norte? Não é, manifestamente, uma obra verdadeiramente faraónica?

 

 

 

Uma verdadeira autoestrada a servir três, quatro equipamentos: dois lares privados para a terceira idade (que até lhe chamam hotéis e resorts); uma Unidade de Cuidados Continuados, que nem sei se funciona e cumpre cabalmente a sua missão, a par de um serviço de fisioterapia, e o Casino de Chaves, já na confluência da entrada na A24.

 

 

 

O resto é terra de ninguém, digo, de alguém, à espera de mais uma especulaçãozinha. Um polvo, mal se conhecendo a cabeça. Uma enorme mancha de obra construtiva, espalhada por todos os quadrantes. Começou pela destruição da Veiga, como recurso agrícola nacional fundamental para a agricultura, com o gasto de milhões no seu regadio e acaba aqui, neste «santuário», onde se gasta, todos os dias, a vida dos que nada ou pouco fazem para o enriquecimento da sociedade, na procura vã de uma sorte (lucro) fácil nas mesas de jogo! É assim, meu rapaz, que esta minha gente entende construir uma cidade e suas respetivas infraestruturas: sem planeamento, sem qualquer critério ou nexo. Gere-se o território ao sabor das ondas e gostos do momento daqueles que «metemos no poleiro» e dos apetites especulativos de algumas gentes da terra e outros forasteiros. É triste ver como se gere esta cidade! A falta de critério e o gosto de saber - e bem - ordenar uma cidade está ausente. Chaves é um verdadeiro despautério de bens e recursos utilizados sem qualquer nexo. Não somos, não fomos capazes de saber como construir uma polis.

 

Vendo as coisas por este prisma, não podia deixar de estar mais que de acordo com tio Nona.

 

E, interiormente, interroga-me: mas, afinal, onde estão, verdadeiramente, os flavienses amantes da sua terra? Porventura, têm efetiva consciência para onde vai parar a sua querida cidade de Chaves?...

 

É nos momentos de crise, de penúria e dificuldades, que mais nos devemos questionar sobre que sociedade estamos construindo; que cidade temos e que cidade queremos para o futuro. Não apenas por nós, mas pelo ingente e inalienável dever ético: o de passarmos aos nossos vindouros o testemunho de uma terra na qual afincadamente trabalhamos com carinho e amor. Uma terra bem lavrada.

 

Se não tivermos a atitude de um bonus pater familias não seremos capazes de preparar um futuro alegre e risonho para os nossos filhos! Não lhes deixaremos uma herança, uma autêntica e verdadeira herança. Mas um chorrilho de dívidas e dificuldades.

António Tâmara Júnior

 

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