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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

26
Jun15

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

SOUZA

 

ATÉ SEMPRE, CAMARADA IRMÃO!

 

Benjamim Ferreeira.jpgBenjamim Ferreira

 

Corria o dia 22 de abril de 1974 quando o conheci.

 

Vindos do Norte, tomámos o mesmo comboio que nos transportou até à Escola Prática de Infantaria de Mafra, onde entrámos como cadetes para, a maior parte deles, ir como milicianos «fazer a guerra» no Ultramar.

 

Na mesma carruagem destacava-se um jovem a aspirante a cadete. Irradiava um otimismo transbordante, que contagiava os futuros camaradas que o acompanhavam. Alguns, notava-se, olhavam para ele, antecipando um futuro líder; outros, vendo-lhe a sua frontalidade, verticalidade, ousadia de opiniões – embora circunspetas e cautelosas – e, simultaneamente, a sua afabilidade e emotividade, viram-no como um irmão, um deles.

 

Passados três dias acontece Abril. Nessa noite libertadora, nas nossas casernas, estávamos atentos, presos com os ouvidos na telefonia, para «ouvir o sinal». Também queríamos partir. Mas, estes cadetes de três dias, pouca serventia tinham no uso de armas que mal sabiam manejar. Seu papel foi o ficarem de «reféns» até que o «movimento» saísse vitorioso.

 

No dia 1 de maio saímos da caserna e fomos celebrar o Dia do Trabalhador, ouvindo, no Estádio 1º de Maio, os líderes exilados, entretanto regressados.

 

Eu e o meu camarada amigo continuámos a vida militar, cada um depois seguindo sua Arma. Até que, entre 1974 e 1975 nos encontrámos na mesma guarnição militar, em Chaves. Chaves foi a terra a que fui forçado a viver e que, mais tarde, acabei por adotar e amar. Para o meu camarada amigo, entretanto «preso pelo coração», depressa a adotou como sua.

 

Findas as nossas vidas militares, acabámos os dois por ficar por Chaves: ambos casados com duas flavienses, professores na mesma Escola do Magistério Primário e militantes do mesmo partido.

 

Durante cerca de uma dúzia de anos partilhámos e fomos cúmplices de projetos na área das Ciências da Educação, na Formação Inicial e Contínua dos Professores do Ensino Primário e na Experiência das Escolas P3, a par de uma militância política ativa na área do socialismo democrático.

 

Meu camarada amigo foi, por mérito próprio e liderança nata, Diretor da Escola do Magistério Primário de Chaves e, durante duas eleições autárquicas, candidato a Presidente da Câmara Municipal de Chaves, por falta de comparência de outros «notáveis» militantes do PS.

 

Se, como professor e Diretor da Escola do Magistério Primário de Chaves, meu camarada amigo se irmanava num lema, que o perseguiria a maior parte da sua vida, como vereador do PS, na Câmara de Chaves, cumpria um dever cívico e de militância socialista, empenhada em causas sociais, que nunca abandonou, mesmo quando, não raras vezes, estava em causa a sua vida pessoal e familiar, e, porque não dizê-lo, algumas «incompreensões» de certas «individualidades» partidárias locais da altura.

 

Para o meu camarada amigo não funcionava a doença da «partidarite», porque se tem de ser do contra. Enquanto vereador único, que ocupou grande parte do tempo, nunca abandonou o seu ideário político e social, mas jamais se esqueceu, como verdadeiro democrata que era, que estava ali para servir o povo que o elegeu (e não se servir), pondo os interesses da terra flaviense em primeiro lugar.

 

Mas, para além da sua verticalidade e honestidade como ser humano, houve um traço da personalidade deste meu amigo camarada que nele se distinguia dos demais e que me levou a admirá-lo – em tudo que fazia, não se entregava por metade, dava-se todo, sendo solidário quanto baste, até se esquecer, muitas vezes, de si próprio!

 

Nunca lhe perdi o rasto ao meu camarada amigo! Mesmo quando as vicissitudes da vida lhe despertaram a vertente «emigrante» que cada português traz no seu ADN, lançando-o na diáspora, «mourejando» por terras helvéticas.

 

Mas meu camarada amigo nunca se esqueceu da terra que adotou como sua, onde casou e lhe nasceram os filhos. Por isso, um dia regressou para chefiar a Comissão Regional de Turismo do Alto Tâmega e Barroso, onde pôs todo o seu saber e experiência feita noutras paragens ao serviço destas terras e destas gentes, na vertente do desenvolvimento turístico. Mas foi uma estadia curta, meteórica, pois outros interesses que ele não servia se impuseram, fazendo-o regressar à cidade que passou a amar.

 

Periodicamente nos visitávamos. Ora na cidade que passou a amar, ora em Chaves. Meu amigo camarada, paulatinamente se transformando num «irmão» quando o tema de conversa era Chaves, esta terra e as suas gentes, seus olhos tinham outro brilho, seu coração emocionava-se!

 

Meu irmão camarada nunca deixou de ser um sonhador inveterado. E um profundo defensor da dignidade do ser humano.

 

Inesperadamente, há cerca de dois meses, comunica-me: “Má notícia meu caro amigo: entro no hospital amanhã (…)” [28 de abril de 2015, 19 horas e 18 minutos].

 

Sabia que o meu irmão camarada estava doente e que o seu estado de saúde era extremamente grave.

 

Na passada quarta-feira (dia de S. João), juntamente com dois amigos, de Portugal, dirigimo-nos a Genève para o ver e estar com ele.

 

Tarde demais. Antes de aterrarmos em solo suíço, Domingos Benjamim Carneiro Ferreira, por volta das 8 horas da manhã, tendo a mãe de seus filhos a seu lado, «tinha já partido».

 

O meu irmão camarada morreu na cidade que amava para viver, levando Chaves, os seus entes queridos e amigos no coração.

 

Na próxima segunda-feira, por expressa vontade sua, irá partilhar o mesmo solo daqueles que lhe deram o ser – seus pais – em Campagne-sur-Seine (França).

 

Na hora da despedida, os amigos que iam para estar com ele, deixaram-lhe a seguinte mensagem:

 

“Benjamim, sabíamos que o teu estado de saúde era extremamente grave. Viemos a Genève para estarmos contigo e despedirmo-nos de ti. De um homem profundamente lutador. Que pugnou militantemente pelas causas sociais e que, em especial, fez da educação o lema da sua vida. Eras um sonhador. Um ser profundamente solidário, que tantas vezes se esquecia de si próprio para acudir ao seu semelhante e amigo. A tua valentia cívica foi pela dignidade do ser humano, no qual acreditaste, sempre! De um homem assim a gente não se despede. Nunca se esquece. Porque jamais se apaga das nossas vidas e sai de nossos corações.

 

Até sempre, Benjamim amigo!

Amélia Rosa

Américo Peres

António Silva”

 

Até sempre, camarada irmão!

António de Sousa e Silva

 

 

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