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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos sobre a cidade - Por António de Souza e Silva

05.11.16 | Fer.Ribeiro

SOUZA

 

BREVE REFLEXÃO SUSCITADA PELA FEIRA DOS SANTOS

 

Razões de natureza pessoal imponderáveis impediram-nos de, na quadra dos Santos, estarmos em Chaves.

 

Pelo que temos respigado nas redes sociais, perdemos pouco ou nada.

 

Desde longa data que vimos defendendo o repensar a Feira dos Santos. E de um papel mais interveniente, profissional e criativo por parte dos comerciantes de Chaves.

 

Aliás, não se entende muito bem apenas existir uma associação que congrega os comerciantes e da forma como está constituída: em primeiro lugar, encontramos uma amálgama de «ofícios» - comerciantes, industriais e serviços; por último, do Alto Tâmega, como se, a nível do Alto Tâmega e Barroso, houvesse uma homogeneidade tal que dispensasse a caracterização e a autonomização de cada «ofício» por cada cidade ou vila.

 

Na nossa modesta opinião, em termos dos diferentes «ofícios» para o Alto Tâmega e Barroso, a ACISAT (Associação de Comerciantes, Industriais e Serviços do Alto Tâmega), de tantos representar - ou querer representar -, não representa efetivamente ninguém, a não ser os seus Corpos Gerentes.

 

Trata-se unicamente de uma nomenclatura que não gera dinâmicas proactivas no seu seio. E, pior ainda, exibindo apenas uma pura e simples imagem (pública?). Fazendo-nos crer ser muito dinâmica, mas, praticamente, de costas voltadas para os seus associados, ou estes para ela, sendo, por isso, pouco intervenientes e raramente chamados à participação construtiva do papel dos seus «ofícios» na construção das suas cidades e vilas nas quais se integram.

 

Mas, mais que tudo isto que vimos dizendo, - repete-se -, na nossa modesta opinião, de observador externo, que procura estar um pouco a par do que se passa na sua cidade - ou talvez os seus meios de comunicação não funcionem eficazmente -, o «pecado mortal» da ACISAT foi, (e creio que ainda é), o ter-se tornado refém, «cativa» ou prisioneira», do poder político, especificadamente do autárquico, ao longo de sucessivas vereações.

 

Uma associação, que para dinamização do comércio local, pede e «aceia» as receitas do uso do solo público pelos feirantes, na Feira dos Santos, para a iluminação «artística» das ruas do Centro Histórico da cidade na quadra do Natal, - e não é ele tão pouco dinheiro -, ipso facto, deixou de ter qualquer autonomia e verdadeiro poder reivindicativo junto dos poderes públicos autárquicos. Encontra-se sempre condicionada perante ele. Porque aquele dinheiro é de todos os munícipes e não exclusivo da associação.

 

E, porque de justiça e honestidade se trata, temos aqui de fazer o nosso mea culpa por esta coresponsabilidade! Mas não nos deve condicionar e deixar-nos calado, porque errar é humano e o mais importante é saber reconhecer o erro e fazer «inversão de marcha». Para bem de todos. Particularmente dos comerciantes flavienses.

 

Gostaríamos de ver nos nossos comerciantes flavienses uma outra postura: mais dinâmica, interventiva, enfatize-se, uma vez mais, proactiva. Que tivessem em devida conta que o comércio, enquanto atividade predominantemente urbana, para além da sua função económica e funcional, comporta uma dimensão social e artística que pode desempenhar um papel chave no planeamento das cidades.

 

Vemos com enorme tristeza, neste fazer a cidade, o que, pela passividade de todos, deixamos construir, numa das entradas principais da nossa cidade, na dita Rotunda do Raio X.

 

Nada temos contra as grandes superfícies, ou suas afins. Gostaríamos que os nossos comerciantes tivessem envergadura económica e poder reivindicativo para evitar o atentado urbanístico que naquela Rotunda existe e persiste. Uma cidade que, a uma das suas principais entradas (ou saídas) apresenta dois grandes «mamarrachos», sem o mínimo de qualidade arquitetónica. Uma vergonha! E, mais uma vez, para um deles, o nosso meu culpa pelo descuido e, consequente, corresponsabilidade. Infelizmente, ao longo destes anos todos, pouco aprendemos com os erros que cometemos, quando o território urbano, tal como as pessoas, não pode ser subsumido a mera e pura mercadoria, ao gosto do mais comezinho mercado capitalista.

 

É também com enorme tristeza que vemos a passividade dos nossos comerciantes, em particular, e dos flavienses, em geral, em deixarem as nossas ruas serem palco de «hordas» que para aqui vêm na Feira dos Santos.

 

Não estamos contra o facto de todo e qualquer cidadão, com a atividade de feirante, venha a Chaves «cuidar» da sua vida. Ficamos tristes por vermos que, em vez de os recebermos, com organização e critério, somos, pelo contrário, «invadidos». Porque, ao longo dos anos não cuidámos de espaços dignos para exercerem a atividade comercial e de dispor de superfícies que, nesta quadra, pudesse também ser usufruída por quem aqui vem para ganhar a sua vida. Na verdade, não somos verdadeiros anfitriões!

 

A Feira dos Santos, tal como acontecia antigamente, já não é maioritariamente dos comerciantes flavienses que vendiam os seus produtos para o nosso mundo rural, flaviense, do Alto Tâmega e Barroso e Galego (transfronteiriço), na hora de estes venderem os seus produtos e aqueles lhes fornecerem os de que necessitavam para as novas colheitas. Esta é a génese da nossa Feira. Daqui vem a nossa tradição. Foi com estes intervenientes que a nossa cidade prosperou e cresceu, se foi construindo.

 

Que palavra hoje os nossos comerciantes têm? Efetivamente têm-na? Como a afirmam?

 

Porventura a cidade que temos apresenta alguma importância significativa como fator de desenvolvimento e atração?

 

Ora, está provado que um dos intervenientes/atores fundamentais do desenvolvimento das cidades está ligado ao desenvolvimento do comércio. Que nos diga o Porto da segunda metade do século XIX e da primeira do século XX!

 

É necessário e urgente que os comerciantes flavienses apareçam e deem a cara pela sua cidade! O seu planeamento, estruturação e ocupação dos diferentes espaços públicos é de todos os flavienses, entre os quais os comerciantes têm uma palavra importante a dizer. Sempre com eles!

 

É urgente que os nossos comerciantes entendam que há uma nova visão sobre o relacionamento entre o comércio e a cidade. A nova política das cidades deve ter uma nova perspetiva - olhar o papel que o comércio pode representar não só para os negócios mas, principalmente, para a coesão da cultura urbana e a qualificação do espaço público, que dá acesso e atratividade aos diferentes negócios.

 

Como alguém já dizia, o facto de vivermos atualmente numa aldeia global, levou a pensarmos as nossas cidades como «os nossos bairros». E, aqui, a cultura tem um papel preponderante na gestão das cidades. Ela está intimamente ligada à identidade e ao desenvolvimento dos territórios, às nossas raízes. Por isso, é importante sabermos rececionar o legado que os nossos antepassados nos deixaram, sabendo vivê-lo e transmiti-lo às gerações vindouras, preservando o património cultural, na sua forma tangível como intangível. E a Feira dos Santos deve ser assumida como tal, também.

 

Neste enquadramento, defendemos, na esteira de um nosso mestre (Santos Solla), que uma cidade, e nomeadamente a cidade de Chaves, não deve ser contruída para turistas, mas com turistas, encarando a atividade turística como uma atividade mais na cidade, ou seja, não de uma maneira mono funcional, senão poli funcional e multi funcional, evitando, assim, os riscos de uma economia urbana de excessiva dependência face ao turismo; defendemos também que, ao entendermos a arte pública como um conjunto de práticas que, sob o ponto de vista urbano, têm como missão «embelezar a cidade», que se deve aproximar a arte contemporânea dos cidadãos, - construindo uma imagem da cidade apelativa, atrativa, com nítidos proveitos também para os negócios -, mas mantendo viva a tradição da «comemoração» e do resgate da memória dos personagens, pessoas e lugares de uma cidade, que nós, desgraçadamente, tão pouco soubemos cuidar!

 

Para este desiderato, nada melhor do que o espaço «imaterial» do Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, o arquiteto/pintor, para estabelecer pontes, concitar diálogos, transformando-o num centro de excelência de reflexão, também sobre a nossa cidade e o seu futuro. Com todos. E em especial com os flavienses seus principais usufruidores. Tendo como grandes atores/intervenientes os nossos comerciantes, porventura a necessitarem de uma maior sensibilização para esta nova tarefa.

 

Doutra forma o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso, como obra e com obras materiais de valia, não passará de um simples «depósito de obras». Mas morto de vida. Porque não olha para a vida, para a cidade e para todas as outras formas de arte - quer as tradições populares, performances, outras «imersões» artísticas ou obras de arte propostas por artistas de vanguarda -, verdadeiramente enquadradas em todas as atividades ou eventos da cidade, como a Feira dos Santos, dando-lhe Vida.

 

Serão estas iniciativas que delimitarão e criarão uma espécie de inédita crença de herança cultural e estética na cidade, dinamizando-a em todas as suas vertentes, transformando, desta forma, o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso verdadeiramente inserido no verdadeiro espaço urbano público flaviense, subjazendo à vida quotidiana dos seus cidadãos.

 

Deverá ser esta a sua verdadeira, útil e nobre função. Com dividendo para todos. Criando uma cidade viva e atrativa, dinâmica, não apenas para os negócios, mas para todos aqueles que, na pacatez de uma cidade média, podem usufruir de uma boa qualidade de vida, com diversidade cultural e boa convivência social.

 

Sem o desempenho deste papel fundamental, o Museu de Arte Contemporânea Nadir Afonso transformar-se-á numa enorme e pesada herança para os nossos vindouros.

 

 

António de Souza e Silva