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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

17
Abr15

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

O ENG(A)RANHADO

 

― Não sei se é por ser o mês da Brige mas maio é lubado do catano! Bago que se dê à terra é abençoado! E atão mulher que emprenhe neste mês dos burros, pare sempre boa cria ― dizia o Ti Milheiro a propósito da prenhez da Margarida.

 

A Margarida era uma cachopa azadinha! Da sua puberdade desabrochava uma mulher cobiçada, completa e criadeira. Um semblante rosado, um ar trigueiro, safado, um sorriso maroto, convidativo, uma tez morena, uma peituga farta, uma cinta de vespa, marcada pelo baraço do avental de chita, emprestavam à Margarida uma atração quase fatal! Uma mulher de estalo, no dizer do Zé Toutiço, que a trazia, há muito, entrasgada no coração. Ele bem lhe afagava a crina no tempo das malhadas, bem a enleava no empalheirar dos fenos, mas tá queta loura! Ela espanava-o como o rabo do marelo espana a mosca no lameiro! Diziam que o arrenegava mais do que a beata Sanfrozia renui Belzebu! Contudo, como diz o povo, no melhor pano cai a nódoa. E não é que caiu mesmo!

 

Um dia, desses benditos do mês de maio, o Zé apanhou-a de cócaras no Belão. Arrebanhava labrestos para os coelhos. Botou-lhe as unhas, à falsa fé, e pregou-a de cangalhas sobre um lameiro de feno que o Ti Moreiras tinha guardado pelo S. Brás. A franga nem piou. Submeteu-se, resignada, quiçá mesmo consolada, às forças da natureza! Consentiu! O maio fez das suas e a Margarida alcançou! O barrigo crescia-lhe a olhos vistos e em agosto já não o conseguia disfarçar. Botou a boca no trombone e arrimou com as culpas a quem a tinha depenado!

 

Num me finto! ― dizia a mãe descorçoada! ― o que é que tu fostes fazer minha besta? Inda por cima com esse cão sarnento!

 

O mal estava feito e nem o raminho da salsa que a Tia Cândida colheu na horta do poço e que costumava usar para os desmanchos surtiu qualquer efeito!

 

Órfã de pai, a Margarida não tinha pulso de homem que olhasse por ela. A sua mãe, Maria Taleta, não teve outro remédio senão resignar-se à sorte da filha. Viviam juntas numa carrufa, mal amanhada, na encosta do pinouco de S. Cibrão.

 

A sorte delas é que o Toutiço era filho de gente honrada e o seu pai, Malaquias, mal soube do sucedido, chamou o rapaz à pedra!

 

― Meu menino, quem as faz págas! Emprenhastesia, casas co ela!

 

E assim foi.

 

Marcou-se a boda para outubro por já estar a palha no palheiro e o grão na caixa. Festa a expensas do Malaquias.

 

Um esposório de arromba, tendo em conta a escala do lugar. S. Cibrão foi convidado em peso, dez famílias ao todo. Casaram na matriz de Santa Leocádia. Quem administrou o sacramento foi o padre Babiano Zebedeu. Ela vestia de branco para simular a virgindade que o Belão lhe arrebatou. Ele de fato preto de risca ao fundo, talhado à medida pelo Queirós de Chaves. Na lapela um cravo vermelho. Do repasto constava uma vitela assada no espeto sobre um brasume de carvalho negral. Para beber um pipo de tinto, do de Cova do Ladrão. No final, para o sossego, um bailarico de rebimba ao malho, animado pelo realejo do Porrório de Tresminhas. A noite de núpcias, com nadinha para estrear, foi passada num palheiro que o pai do noivo ajeitou para residência do casal.

 

Fevereiro, mês do entrudo naquele ano, prestes chegou e com ele o paridura. E foi precisamente na terça desse Carnaval que a mãe Taleta assomou à soleira do cardanho bradando em altos berros:

 

Inde depressa tchamar a Tia Cândida que já arrebentou o saco das áugas à rapariga!

 

E lá veio a parteira, arregaçando as mangas para o trabalho. E que trabalho!

 

Viu-se negra para a fazer parir. As carnes rijas da parideira, talvez por ser a primeira vez, estavam tomadas pelos nervos e pela dor. Ainda por cima, o raparigo parecia vir atravessado! Depois de grande esforço e prolongada gemideira, lá conseguiu que o rapaz se desse ao mundo. Vinha roxo como os lírios do adro da capela. Só depois de meia dúzia de azoutes, é que desdobrou os pulmões e se deu à vida! Chorava como mia um gatinho franzino, sem força nem convicção.

 

Rais-te-fonha o moço! Que rebunhoso naceu! Parece um chincharrabelho! É tolheitinho de todo! ― comentava a Tia Cândida depois de o deitar nos braços de sua mãe.

 

E nem à teta se agarrou! Cuidavam que não vingava. Mas, a modinho, lá foi dando de si, até que, de tanto fuçar, acabou por topar o mamilo que o ligou à terra.

 

Os meses foram passando sem que o catraio medrasse. Ele bem se atirava, amiúde, ao avantajado ubre da mãe, porém, continuava raquítico. Parecia tísico, no dizer da avó Taleta. Uma cabeça grande, uns olhos esbugalhados e um corpo enfezadinho faziam dele um quase enjeitado. Foi batizado, à pressa, na capela S. Cibrão, não fosse a gadanha ceifá-lo antes da expurga do pecado original! O prior plantou-lhe o nome próprio de Anatólio, o apelido de Toutiço e a alcunha de Engranhado!

 

Pelos onze meses ainda não fazia o tem-tem e mal gatinhava.

 

― O rapaz não é escorreito, parece tolheito das gâmbias! ― diagnosticava a Tia Cândida que o ajudara a nascer! ― Ó mulher, tu tens de o lubar a Castelões, à Senhora do Engaranho que é advogada do mal das pernas!

 

Meu dito, meu feito!

 

O Zé Toutiço pediu a égua ao Ti Moreiras e o macho ao Patalão. Arreou os animais a preceito e meteu a merenda nos alforges. Convidou a Tia Cândida para os acompanhar. É que ela, para além de parteira, era também rezadeira. Sabia de cor e salteadas todas as rezas e mezinhas, fossem para o mal da inveja, o mau-olhado, a espinhela caída, a cochices, o pelão-bravo, a zirpela, o ventre caído, o cocho ou o sarampelo. A tudo sabia rezar. E também conhecia, muito bem, o ritual do desengaranho que constava mais ou menos do seguinte:

 

“Lavagem do doente na cova do penedo do santuário, atirando oito conchas de água por cima da cabeça do doente e à nona atirando também a concha. Depois, dirigir-se à capela e no altar dar-lhe nove tombos. A seguir rezar uma novena de Padre-nossos, Ave-marias e Santa-marias. Seguidamente, despir o doente e trocar-lha a roupa por uma nova. Por fim, deixar uma generosa esmola à santa e regressar por caminho diferente.”

 

Lá foram na madrugada de um primeiro domingo de setembro, dia da festa daquela Senhora. Cumpriram tudo como manda a cartilha e como orientou a Tia Cândida.

 

Não sei se por milagre da santinha de Castelões, a que Torga se referiu, com respeito, no seu Diário, se por qualquer outro motivo, o certo é que o rapaz começou a medrar como maio força o renovo. Aos quinze anos já era um latagão e já punha a navalha na cara. Aos dezanove assentou praça no Batalhão de Infantaria 19 de Chaves, onde chegou a ser primeiro-cabo. Na tropa supervisionava tudo o que fossem obras, dentro ou fora no quartel. Tal foi a experiência acumulada e o gosto por este trabalho que, quando passou à peluda, não quis regressar a S. Cibrão, onde o esperava a rabiça do arado do pai. Ficou-se pela urbe de Trajano onde, passado poucos anos, se fez empreiteiro de obras. E o sucesso foi tal que prestes enriqueceu. Não havia obra que se fizesse na cidade que não tivesse a chancela do Anatólio.

 

Casou com a Sora Aurora, uma matrafona reboluda, filha de uns novos-ricos da Veiga. Uma mulher que, aos dezoito anos, não conhecia mundo para lá do Vidago! E assim continuou até aos quarenta. Cozinhava requintadas refeições. Contudo, no tempo das alheiras e sempre que lhas servia ao mata-bicho, acompanhadas de café e pão centeio, tinha que ouvir:

 

― Ó Sora Aurora, pão com pão, só no inferno é que o dão!..

 

Porém, ela não se importava e empanturrava-o para que o trabalho do dia lhe corresse à feição. Uma mulher prezada!

 

O seu marido, por mor do negócio da construção, deslocava-se com muita frequência à Invicta, sempre de comboio. E a cada viagem era massacrado pela Sora Aurora, suplicando-lhe que a deixasse acompanhá-lo. Que não conhecia a grande cidade e que queria ir passear. Tantas vezes foi o cântaro à fonte que, um dia, o Anatólio, farto de a ouvir, anuiu à pretensão.

 

― Prepare-se Sora Aurora, passado manhê, vai comigo ao Porto!

 

Palavra que ele disse!...

 

Foi-se ao cabeleireiro e botou requintada permanente. Ao Sarmento e comprou um vestido folclórico, viu-se negra para se meter nele, tal a elegância! Por fim, foi às Curadoras e botou sapato de toalete!

 

Para quem nunca tinha largado o avental, bem se te vai!

 

Apresentou-se, na madrugada da partida, parecia a rainha do gado bravo: encabada nos sapatos de tacão alto, encapada pelo vestido travado, de cabelo armado, beiços pintados de um vermelho papoila e com as bochechas embloutadas de rebique. Anatólio ficou boquiaberto ao vê-la, meio desconchavada, a descer as escaleiras naqueles preparos. Foram de táxi para a estação. Apanharam o comboio das seis na manhã de uma quarta-feira e seguiram para o Porto de onde regressariam na sexta.

 

Chegaram a S. Bento por volta das catorze. A estupefação que lhe provocou a grandeza da estação e os painéis de azulejos da entrada, bem como os respetivos comentários em voz megafónica, mostravam a tacanhez da Sora Aurora. Estava siderada, tudo o fazia pasmar! Que parolinha!..

 

Almoçaram numa pensão, rasca, da rua do Loureiro, a mesma onde Anatólio costumava pernoitar nas suas deambulações pela grande cidade. Mandaram vir tripas à moda do Porto e um litro de verde tinto. Após o repasto, foram fazer a digestão subindo a rua do Almada, onde Anatólio visitou diversas casas de ferragens, encomendando a correspondente mercadoria. Da Praça da República voltaram à baixa, por Santo Ildefonso e pararam no Bolhão p’ra botar um pirolito. Ainda não iam a meio deste percurso de regresso e já os sapatos de salto alto tinham rilhado os calcanhares à Sora Autora. Aguentou, estoicamente, o resto da tarde e só fez curativo à noite. No dia seguinte, tinha os pés num molho. Mas não se incomodou, a beleza do Porto merecia todos os sacrifícios! Encabou-se novamente nos sapatos e acompanhou o marido a uma loja na Boavista para a compra de louças sanitárias. Anatólio mercou umas quantas sanitas, lavatórios, autoclismos e bidés de vários tamanhos e feitios. Ficou admirada com a diversidade dos produtos, mas sobretudo com a dos bidés, que lhe era coisa estranha.

 

Compras feitas, reservaram a tarde para um passeio na Santa Catarina para verem as modas.

 

Chegaram aos Clérigos e não aguentou mais os sapatos. Tirou-os, um em cada mão, pata pelo chão até à Batalha. Apesar da vergonha que o fez passar, Anatólio sentia-se vingado pelo incómodo de a ter levado consigo ao Porto comprometendo as suas incursões noturnas pelos Caldeireiros.

 

No final da saga, a Sora Aurora estava desfeita. Cansada mas feliz. Nunca na vida tinha visto coisas tão lindas.

 

― E como o mundo é grande!... ― constatava, satisfeita, enquanto contemplava o Douro de cima da ponte de D. Luís!

 

No seu regresso a Chaves sobrava matéria para o soalheiro. Rapidamente se esqueceu do sacrifício que foi aguentar, quilómetros, aqueles malditos sapatos de tacão alto que lhe moeram os calcâneos, os gémeos e a espinhela!

 

― Ai, raparigas, o mundo é tão grande e o Porto tão lindo!.. Ele tem prédios altos e bonitas, gente bem vestida e bem-falante, muitos automóves pelas ruas. Ele há cada menumento que mete o nosso dos combatentes num chichelo! Olhaide que inté tem camboios a cirandar pelas ruas e troles cargadinhos de gente que parecem as carreiras de Braga. Mas eu gostei muito foi de ber uma águia acabalo num lião no jardim da Boavista. Olhaide que a pássara, que é de ferro, com as asas abertas, inda debe ser maior do que o penedo do eitiro da Cunha! Fosca-se que p’ra pregarem com aquele bitcho, tamanho, em cima de uma caluna de pedra que é mais alta do que o nosso castelo, debe ter sido o catano!

 

Mas digobos, eu benho muito vaidosa com o mou Anatólio. Ele é uma pessoa muito afamada lá pelo Porto! Ao descemos uma rua estreitinha que começa perto da cadeia da Relação, todas as senhoras, bem apresentadas, que estavam à porta dos cafezes o cumprimentabam pero nome!..

 

Mas ó raparigas, o que bós não sabeides é que o Porto é tão lindo tão lindo que até há lá bidezes para todos os cuzes!..

 

Como de facto!

Gil Santos

 

 

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