Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

19
Jun15

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

DA TRAQUITANA À SAINÇA

 

Naquela manhã gélida de janeiro, dos ramos pelados das carvalhas da Lampaça, bem como das telhas de meia cana dos beirais dos tugúrios, pendiam pingarelhos como se fossem luzeiros do mais fino cristal. Um carambelo que durava há semanas e que enfeitava as fronças das giestas brancas com navalhas de gelo, aguçadas por um vento boreal refinado nos cumes da Sanábria e do Larouco!

 

Rais parta, Ti Peliqueiro, parece que a puta da galega pariu dianho! – Queixava-se a Tia Brízida, com o xaile de merino encafuado, enquanto amarfanhava uma gabela de labrestos para acomodar os coelhos.

1600-santiago (29)

A noite havia sido agitada em casa dos Ladairos, na Ribeira do Pontão. A matriarca parira um raparigo, o derradeiro de uma ninhada de cinco. Um rapaz que havia de tomar o nome de Arlindo na pia batismal de Santa Leocádia, sob as praxes do Carabunhas. Contudo, pouco tempo o Arlindo se deu a esta graça. O povo rebatizou-o de Burraçudo. Assim passou a ser conhecido desde gargalhorte, não só por lhe incharem as carnes ao redor dos olhos, mas, sobretudo, por morrinhar, horas a fio, no escano da cozinha, confortado pelo borralho e pelo ronronar da gataria nas folgas da muração. Porém, a maior (des)virtude do Burraçudo era a de ser fanhonha. Todos arreganhavam os dentes dele, desde os tenros anos em que jogavam ao pião, ao rou-rou, à reca, ou à pincha carneira no prado. Já adulto, poucos o entendiam, sobretudo quando estivesse com um grãozito na asa, o que acontecia com certa frequência. Foi marca que lhe ficou e que haveria de o acompanhar à cova.

 

O Burraçudo não era mal parecido, tinha proa e haveres, por isso aquele defeito não o privava das melhores fêmeas, prevenidas ou desprevenidas. Na Ribeira, de onde era natural, bem como nas terras vizinhas, levava tudo a eito. Tanto, que andou muitas vezes envolvido em zaragatas. Levou muita lostra e pagou muita rodada pelas tabernas por mor de meter a foice em seara alheia. E teve mais sorte que o mano velho, o Perdigoto, que apareceu morto, dizem que por razões passionais, nas voltas do Fernandinho, com uma machada cravada no caco! Nunca se descobriu quem o escacholou, mas toda a gente sabia, mais ou menos, porquê!..

1600-carregal (152)

No Carregal, o Burraçudo catrapiscava a Aurélia da Rua, em Santa Ovaia, a Grifa, em Matosinhos, a Lívia, em Santa Leocádia, a Serena, em Fornelos, a Rabeca e, no Vale do Galo, a Pompeia. E nunca teve nenhuma de poulo!.. Mas, a sério, a sério, namorava a Milena na sua própria terra.

 

Com tal ocupação, aos domingos, era um corridinho! Quem as pagava era o inocente do seu alazão! Suava como um cavalo para dar conta do recado, porém, estou que menos do que o dono para dar conta do seu!..

 

Deste forrobodó carnal, a primeira a alcançar foi a Milena. Aconteceu, acidentalmente, numa das visitas culturais(!) que costumavam fazer ao Cerco do Pontão, uma fortificação em ruínas que teria servido, há séculos, como reduto defensivo do lugar. Foi um falatório, até porque a moça, de boas famílias, estava guardada para outro pimpão! Porém, como o povo diz que “a ração não é para quem se talha mas para quem na come, o marmanjo levou a dianteira ao de Loivos e papou-a. Ela era, inclusivamente, estudada e mais tarde, já casada, haveria de chegar a professora regente.

1600-Adaes (13)

Foram forçados a juntar fazenda, para grande desgosto da família da rapariga. Os pais, para seu sustento, dispensaram-lhes parte da herança ainda em vida, mesmo sob pena de o adágio “quem dá o seu antes que morra merece com uma cachaporra”, se poder vir a confirmar! Tocou-lhes meia dúzia de leiras que os sustentassem e à respetiva prole. Uma delas, de bom proveito, ficava a cerca de um quilómetro da aldeia. Era o linhar da Sainça. Terra mimosa, gorda e húmida. As novidades ainda vinham longe e já na Sainça se exibiam com abundância!

 

A Milena não tinha parido e já a Aurélia anunciava ao Burraçudo, numa das frequentes visitas ao Carregal, a gravidez do primeiro zorro e a Grifa, em Santa Ovaia, do segundo. Como soi dizer-se, era como quem cantava à desgarrada! Quando a legítima emprenhasse - ele dizia que bastava despir as calças e arrimá-las para cima da enxerga - emprenhavam as amantes! Os amigos da copofonia, na galhofa, tornavam a culpa à lua nova!

 

O nome dos legítimos inspirava o dos zorros que nascessem a seguir! Na Ribeira, a Milena teve três rapazes e duas raparigas, a Cremilde e a Graziela, o Agripino, o Alpoim e o Heitor. No Carregal, a Aurélia teve três rapazes e duas raparigas, todos batizados na capela do lugar, que curiosamente data de 1480, com os mesmos nomes dos da Ribeira. E o mesmo aconteceu em Fornelos, em Santa Ovaia e em Vale do Galo! Estranhamente, todos os rebentos puxaram ao pai, mesmo os femininos: nariz curto e grosso, rosto bolachudo, corpo atarracado, roliço, cabelo farto, tez morena e voz roufenha. Parecia castigo do criador!

1600-carregal (73)

O Burraçudo estimava muito a esposa, quase tanto como as amantes. Porém, a rainha das concubinas era, sem dúvida, a Aurélia do Carregal. Com ela passava mais tempo, porque tinha a cobertura de uma sua irmã que vivia naquele lugar e lhe dava rebuço. Também porque no Carregal apanhava a carreira para Chaves, onde dizia ter de ir com muita frequência! Depois, era o regabofe pelos palheiros, pelos fanencos das poulas e pelas chamiças das touças, desde as Padanas ao Corgo!

 

A legítima fingia nada saber desta vida excomungada do marido. Evidentemente que sabia, até porque as alcoviteiras não deixavam de lhe ganhar os favores com a troca de novidades, sempre frescas! Portanto, andava bem informada, mas fazia à de conta!.. Desde que fosse bem tratada e aos filhos não faltasse pão, deixava dar que para si bondaria! A verdade se diga, também não constava ser mulher de grande mantença!..

1600-carregal (133)

E se a todos os ilegítimos, que o Burraçudo nunca perfilhou, ajudava como podia, os do Carregal eram especiais. No tempo da produção hortícola, a Aurélia era a única que tinha ordem para colher o que precisasse no linhar da Sainça! Era uma farturinha no tempo das baijes, das alfacias, das tomates, das cebolas - que consolavam rachadas com sal à merenda e faziam nutritivos caldos de porretas - das cinouras - rilhadas nas maçadouras do prado. Enfim, neste tempo era vê-la, quase todos os dias, da Traquitana, onde morava, à Sainça e da Sainça à Traquitana! Tudo coletava pela hora da sesta para que desse menos no olho. Também estava autorizada a apanhar guiços para o lume nas poulas do Burraçudo, níscaros nas suas touças, bem como as castanhas nos soutos. Pelo Natal, era a única que recebia, por intermédio do cunhado do Burraçudo, consoada especial: uma remeia de vinho, do de Cova do Ladrão, um pão centeio cozido pela sua irmã, e uma almotolia de azeite.

 

A Aurora Serritcha do Carregal tinha dois filhos gémeos a frequentar a escola da Ribeira, na classe da Milena. Dois morqueliáiros que não conseguiam sequer aprender o nome da Padrela, a serra que alcançavam da janela da sala de aula. A Serritcha tornava a culpa à mestra e dizia que era ela que não fazia caso deles e que por isso é que não passavam da primeira. Assim, pensou que se a pusesse a par das manobras da Aurélia para se abastecer na Sainça, poderia ganhar a sua atenção!

 

− Ó senhora pressora, vossemecê conhece a Aurélia do Cargal? Pois olhe que é ela lhe anda a comer a horta da Sainça e a bem dezer o restro! Não perde uma sesta! Aprobeita a calmaria, bai-se-lhe ao renovo e enche o cu. Uns trabalham, senhora pressora, e outros governam-se! Olhe que é uma boa porra!..

 

A professora há muito que andava com a pulga atrás da orelha. Agora tinha a confirmação. Preparou-lhe a estrangeirinha. Só que, inadvertidamente, confidenciou-a a uma amiga. Esta, por mero acaso (!), privava com o marido que, assim, se inteirou das intenções da mulher.

1600-fornelos (17)

Ora, numa tarde de canícula, no mês do S. João, a Milena ajeitou uma vergasta de marmeleiro e, logo após o almoço, sem sequer arrumar a cozinha, deixou que o marido se espojasse na cama para gozar a sesta e meteu pés ao caminho para a Sainça. Acocorou-se num centeio contíguo e fez-lhe a espera. Não tardou que a Aurélia escancarasse a cancela e, com grande à-vontade, se introduzisse na horta. Não tinha ainda começado a colheita, quando uma vergastada lhe atravessou o lombo de lés-a-lés. E outra e mais outra, até assobiavam!..

 

− Ah minha puta dos infernos, atão és tu que andas a comer a minha hortinha? Deixa estar que te vou encher a brajuega!..

 

A Aurélia, que não era mulher para se ficar, mal recuperou das vergastadas, engalfinhou-se na Milena e, aos rebolões, assobalharam o talhão das cebolas. Nesta refrega, entre gritos, palavras que não me atrevo a reproduzir e o verde-gaio ao léu, as mulheres, desgrenhadas, pareciam o diabo em figura de gente!.. Entrementes, o Burraçudo pinchou o portelo para as separar. Intrometeu-se e apanhou por medida! Foi o catano para as apartar!.. Após uns longos vinte minutos de gritaria e de toma lá, dá cá, conseguiu as tréguas entre arrebunhanços e manhuços de cabelo!

 

No final de um sermão, sábio, diga-se de passagem, acabaram os três a dormir a sesta - que sesta - numa fresca da Galgueira, embalados pelo trinar de um rouxinol que das avelaneiras os mirava descorçoado!

No rego de um lameiro do Belão ficou a cesta de vime da Aurélia, repleta, a refrescar as mais viçosas delícias da Sainça!..

 

O Burraçudo era levado do catano p’rás mulheres!..

 

Gil Santos

 

 

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

.17-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Obrigado pela leitura, pela reflexão e pela gentil...

    • Zé Onofre

      Boa tardeBelo texto.O mal não é só das cidades pe...

    • cid simoes

      É um bálsamo viver este dia entre poesia, música e...

    • FJR

      Ainda me lembro de apanhar bocados de metal para i...

    • FJR

      Tantas vezes ali joguei à bola. Era um dos nossos ...

    FB