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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

14.08.15 | Fer.Ribeiro

GIL

 

FILINTO OSÓRIO GIRÃO

 

Filinto Osório Girão era a (des)graça de um professor de História, que muitos dos que passaram pelo Liceu Fernão de Magalhães lembrarão com saudade. Creio que não haverá ninguém que por lá tenha andado, nos anos quentes de Abril, que não recorde, com certa nostalgia e algum remorso, esta figura impar, quase mítica, do nosso velho Liceu. Gostaria até de poder afirmar que se trata de um nome lendário que povoa o imaginário coletivo do Liceu. Contudo, Filinto Osório Girão foi um professor de carne e osso, que um destino quase cruel trouxe, algures, do Douro e desterrou na cidade de Trajano, contra a sua vontade e a da própria família, dele tão carente. Isso marcou a nossa vida académica!

 

Filinto foi um lázaro, a quem nem o próprio nome favorecia. De meia-idade, era uma figura caricata, dada ao escárnio e ao mal dizer. Careca, meio-taco, óculos pequenos, redondos, com lentes de fundo de garrafa, fala maneirinha e andar de saltão, eram alguns dos predicados que faziam deste profe uma figura de um mundo outro. Mas não eram únicos!.. De fato escuro e chapéu de feltro, aluado, cai-nos na apresentação como o escravo no circo romano!

 

Osório era, apesar de tudo, um homem inteligente, culto e com o dom da palavra, mas, simultaneamente, demasiado liberal e com pouco jeito para alunos, ainda para mais, embriagados pela liberdade dos cravos e das rga’s que tudo decidiam. Quase maníaco, invocava os filmes da vida privada, quase com a mesma frequência com que o nevoeiro se instala no vale do Tâmega, nas manhãs de inverno e aos quais dava mais importância do que à Revolução Francesa ou à Grande Guerra. Por isso, bondaram cinco ou seis aulas, para que lhe ficasse traçado o destino. Os mais galferros depressa lhe tiraram as medidas, como o cangalheiro ao féretro e fizeram-no de fel e vinagre!

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Logo na primeira aula escachou a intimidade, como a rameira as pernas, pondo ao léu o que não devia! Efetuou uma preleção muito elaborada sobre a disciplina, a política, o tempo, mas sobretudo sobre si próprio: quem era, onde nascera, de onde vinha, do que gostava e do que não gostava, do que fizera e do que não fizera, do que gostaria de fazer, dos amores e dos desamores, das quimeras, das expetativas e das frustrações, da família, dos filhos e da mulher, a sua princesa, como ele dizia! Parecia a homília do Carabunhas na Semana Santa! Quase como um lãzudo desnorteado, pinchou o parapeito da trincheira e abriu o peito às balas do boche! Porém, apesar de tudo, aquele setôr foi uma espécie de bênção que nos caiu dos céus. Naquela ocasião, carecíamos de gente fraca, para expiação dos pecados mortais da liberdade, tantas vezes confundida com tantas outras coisas!

 

A segunda aula foi do mesmo e a terceira e a quarta e a quinta. Portanto, não nos tendo conseguido interessar pelos temas da História, desprezados pela natureza dos tempos e dos cábulas, conseguiu, sequer ao menos, interessar-nos por si próprio, expondo a fragilidade que rapidamente devorámos à tripa-forra. Quem caísse na aula, por acaso, desconhecendo de que disciplina de tratava, haveria de pensar ser qualquer coisa que não História Universal!

 

O circo estava armado e palhaço já tínhamos!

 

O Amaral, rapaz dado à excentricidade, tantas vezes expulso das aulas apenas pela fama de lapantim, granjeada à força de muitas injustiças e outras tantas cobras de água apanhadas nas margens do Tâmega e levadas para o Liceu entre o couro e a camisa, passou, desta feita, pelas Caretas para ver se ainda tinham peidos chocos que sobrassem do entrudo. Que sim. E que também tinham bichas de rabiar e bombas de carnaval, das fraquinhas. Mercou cinco garrafinhas de peidos, meia dúzia de bichas e algumas bombas.

 

Na aula do dia seguinte, sob a almofada da cadeira da secretária, rebuçou três bombinhas de mau cheiro. Osório entrou, e como fazia sempre, alapou-se para escrever o sumário. Não deu conta que tinha esmigalhado as garrafinhas do ácido clorídrico, que começaram a exalar um pivete quase insuportável. Escrito o dito cujo, revisões da matéria dada, esperava-se que Girão reagisse à coca e nos mandasse ausentar para gozo de um feriado tão desejado. Que nada! Sacou do bolso do paletó uma carta que havia recebido de sua esposa e preparava-se para a ler. Ainda hesitámos entre degustar as intimidades, suportando, estoicamente, o pivete, ou gozar o feriado! Apesar de a missiva prometer farta galhofa, não quisemos saber e em alvoroço manifestámos a impossibilidade de resistência àquela pestilência. Veio o senhor Capela e mais tarde o próprio Vice-reitor que nos ameaçou com severo castigo que nós sabíamos ser para inglês ver! Mandou-nos sair, reconhecendo a impossibilidade da aula continuar. Girão, ficou mais frustrado com a impossibilidade de nos ler a carta do que com a peste ou a perda da própria aula.

 

As seguintes reservariam ainda mais surpresas.

 

Na primeira aula da semana seguinte, estou que para nos sensibilizar para a desgraça do seu desterro, Filinto aprontou-se para nos ler a tal carta. Mal acabou o sumário, atirou-se a ela como um cão ao osso. E bota e bira, aquilo era de caixão à cova! Os dezeres, desde a cama à mesa, eram hilariantes! Mal a leitura acabou, tal como acontece no fim do arraial de Valpaços, houve fogo-de-artifício. Três bichas de rabiar percorreram a sala em girandola, no final dois morteiros para rematar. Cuidando tratar-se de alguma desgraça, toca a esvaziar a sala com direito a mais um feriado. Desta vez, ganhámos um sermão do próprio Reitor e a ameaça de que se voltassem a acontecer os disparates que vinham acontecendo naquela aula, íamos todos para casa, com uma semana de suspensão. Tratámos de abrandar a guerrilha mudando a estratégia.

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Então, já que não podia ser a turma toda a sair ao mesmo tempo, ao menos que fossem alguns de cada vez! Ora, depois da chamada, ao longo da oratória, sempre despropositada, quando o apanhássemos de costas ia saindo um de cada vez, até que cinco estivessem de gazeta nas Freiras. Fizemos uma escala e a coisa resultou, até que uma das levas foi descoberta pelo Sr. Mota que pôs o Reitor de sobreaviso.

 

Já que não podíamos facilitar e nos privavam dos feriados, mudámos de agulha e em vez de gozarmos fora da sala, fá-lo-íamos lá dentro.

 

Organizou-se um concurso de eructações. Muitos não sabiam como arrotar propositadamente, então, Marco, um dos mais entendidos, organizou uma ação de formação de curta duração! Quase todos ficaram aprovados e com distinção. Até as meninas, menos atreitas a estas excentricidades, alinharam.

 

Aquilo foi o fim do mundo!

 

O professor a tentar explicar a intervenção de Portugal na Grande Guerra e a ser interrompido, a cada quinze segundos, por uma enxurrada de arrotos. Que tinha sido o almoço da cantina que tinha caído mal! E, como eram muitos os que por lá almoçavam, muitos eram também os que tinham ar na canalização! Comeu-a e pacientemente foi solidário com os infelizes. Deu a aula por acabada, muito antes de tocar para sair. O desafio foi ganho pelo Arnaldo cujos arrotos pareciam roncos de um vulcão em erupção. Ninguém percebia como era capaz, por querer, de engolir tanto ar, passando largos segundo a expandi-lo com tamanha sonoridade!

 

A próxima estratégia seria mais sofisticada e não acessível a todos: um confronto de flatulência. Para o efeito, foi necessário preparar o terreno de véspera, com uma feijoada a preceito no fim-de-semana. Não vos digo nem vos conto, na aula de segunda-feira, foi tamanho o foguetório que perecia haver festa rija! Entre o ribombar de uns e o silêncio de outros, instalou-se um tal ambiente que nem as bombinhas de mau cheiro, de há duas semanas, conseguiam remedar. E para a festa ser completa, o Peixinho, a certa altura, alça a perna, levanta a nalga e solta um sonoro traque dizendo em alta voz:

 

― Oh Amaral troca-me este por miúdos!

 

E o marlante fez-lhe mesmo os trocos, com um chorrilho de rateres como se da mota do Freitas se tratasse!

 

Nunca percebi porquê, mas este concurso não deu estrilho e nem chegou ao Reitor, mas deu brado na escola. O vencedor foi o Queirós, cuja feijoada deveria ter sido a mais condimentada! A diretora de turma, envergonhada, convocou a sua mãe, para lhe dar conta daquela pouca vergonha!

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Que não fizesse caso, o rapaz fazia o mesmo à mesa e o pai aplaudia, defendendo que só se caga quem tem saúde!..

 

Privados dos feriados, porque o professor nunca faltava e o reitor se tinha prevenido, teríamos, então, de arrepiar caminho. Começámos a ponderar o saneamento do docente por incompetência.

 

Primeiro, alguém lhe roubou o chapéu que colocava sobre a secretária no início da aula, o que o deixou muito arreliado e mesmo ameaçador, como, aliás nos convinha. Depois, convocou-se uma rga e mandatou-se o Ernesto, autor de inusitadas teorias pedagógico-didáticas, para argumentar sobre a incompetência pedagógica e até científica do professor. Depois de acesa discussão, a assembleia, democrática, vergou-se ao argumentário e votou, unanimemente, a favor do saneamento.

 

Doravante, até ao fim do ano, deixámos, agora legitimamente, de ir à aula de História do Osório Girão.

 

O infeliz não deu parte de fraco. Ao toque dirigia-se compenetrado para a sala, com o livro de ponto numa mão e a pasta de couro na outra, escrevia o sumário, marcava as faltas, que pelos vistos não contaram para nada, e dava a aula para as paredes que não lha boicotavam. E assim andou até junho.

 

Na última aula do ano, topou, sobre a secretária, o seu amado chapéu de feltro. Parecia um pastel de Chaves por ter estado enfiado entre o colchão e a rede da cama do Felismino, durante mais de cinco meses!

 

Ao lado um manuscrito:

 

Em honra ao desterro, o seu pastel de Chaves!

 

Como diria o poeta Aleixo:

Descreio dos que me apontem

Uma sociedade sã:

Isto é hoje o que foi ontem

E o que há-de ser amanhã!

 

Filinto Osório Girão, hoje, seria apenas mais um infeliz a ter de deixar o conforto do seu lar e a segurança da sua terra para vaguear, erradamente, por esse mundo cão à cata de pão para a mesa de seus filhos!

 

Eu até gostava dele e por vezes a sua ingenuidade chegava a comover-me.

 

No fundo, Osório era um homem bom, mas como professor muito mau, por se deixar devorar, tão facilmente, pela crueldade voraz dos alunos.

 

Para se ser bom professor não basta saber-se muito, é também necessário saber colocar a máscara que mais se adeque a cada momento das nossas vidas!

 

Saudades do professor Filinto Osório Girão!

 

Gil Santos