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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

11
Set15

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

REMÉDIO SANTO

 

Adalgisa Senhorinha era uma mulher com pelo na venta, uma mulher como há poucos homens!

 

Flaviense de gema, nasceu em Santo Amaro ainda antes da República, por obra de seus pais e graça da Misarela. Os vizinhos diziam que Urraca Camila, sua progenitora, era matchorra. De tão velhaca, nem sequer ao menos se astrebia a emprenhar!

 

O seu consorte, Alpoim Malhadeira, tinha um desgosto de morte por ela lhe negar filhos legítimos. Tinha a certeza não ser seu o defeito, provavam-no os zorros dessas cabaneiras da Pastoria a Curalha! Portanto, só poderia ser da companheira, que no dizer da entendida Cândida Catrapisca tinha as trombas do falório desguiadas! Por isso, só havia uma maneira de se ajeitar criação de lei que era a de recorrer às divindades da Misarela.

 

Contextualizemos:

Conta a lenda da Misarela[1] que um pobre criminoso, fugindo à justiça dos homens, se viu encurralado nas fundas gargantas do Regavão. Incapaz de as vencer, em desespero, recorreu à ajuda divina, negada, quiçá, pelo peso excessivo dos seus pecados. Para salvar o corpo, desprezou a alma, pactuando com o diabo, sempre pronto a colher da desgraça alheia. Instantaneamente o mafarrico uniu as duas margens construindo uma alcandorada ponte de arco único que o foragido se apressou a atravessar. Para que os carrascos não o alcançassem, o cornudo, num ápice, fez desaparecer a dita cuja, regressando às parafundas do inferno na posse da alma do infeliz. Este seguiu caminho, munido, apenas, do corpo salvo pelo negócio.

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Não tardou que se arrependesse, pois gente desalmada é quase cão! Quis reverter a situação e recorreu aos favores do frade Saladino Arrouça do convento franciscano de Nossa Senhora do Rosário situado na colina da Pedisqueira em Chaves, especialista em matéria de diabos. O frade, inteirado do sucedido, urdiu uma teia para enlear o chifrudo e devolver a alma ao pobre infeliz.

 

Que fosse para a ponte e que chamasse pelo anjo das trevas. Já que eram sócios, que lhe pedisse para o ajudar a atravessar, de novo, o Regavão. Ele ficaria de atalaia acoitado atrás de uma fraga.

 

Assim se fez.

 

O desalmado invocou o mafarrico e ele deu de si.

 

Que reconstruisse a ponte que ele precisava de a atravessar.

 

Num estalar de dedos a ponte reapareceu. Ainda o homem não ia a meio do tabuleiro quando o frade saltou à vereda e começou a espargir água benta sobre o lajedo. Belzebu, soltando um urro medonho sumiu-se, deixando para trás uma fumaça de enxofre queimado.

 

O penitente recuperou a alma e a ponte permanece, até hoje, como testemunho vivo da vitória do bem sobre o mal.

 

Fruto desta espécie de milagre, o povo ainda crê, atualmente, que a Ponte da Misarela tem poderes sobrenaturais e quando uma mulher não consegue emprenhar ou já prenhe pretende uma gravidez sem sobressaltos, dirige-se à ponte e pernoita sobre o seu arco. Se não tiver já pegado, em breve pegará. Em estando já prenhe, então a primeira pessoa que na madrugada passe sobre a ponte, apadrinhará a criança, que nascendo sob os desígnios da lenda, se há-de chamar Gervásio se for rapaz ou Senhorinha em sendo rapariga.

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Daqui o sobrenome da Adalgisa.

 

Urraca, não chegou grávida à Misarela, o milagre deve ter-se dado no caminho de regresso a Chaves, sob o pó das maias de alguma giesta piorneira e a bênção dos fluidos na Misarela!

 

O nome próprio foi escolha da madrinha, uma senhora fidalga de Santo Estevão.

 

Não sei se por ter sido bafejada, na feitura, pelos ares bravios do barroso, ou se por qualquer outra razão, a verdade é que Adalgisa era, como a mãe, das felpas do catrino! Mulher raçuda, jungia uma parelha de bois galegos e assucava uma terra, como quem bebe um copo de água, ou de vinho, melhor dizendo, que gente assim não se nutre com água lisa! O certo, é que em nenhum trabalho de homem ficava a dever nada ao mais pimpão! Então nas malhadas, era sempre a sua banda a dar cartas!

 

― Malha minha banda! ― Assim dizia, e os malhos, do seu lado, caiam sobre a palha centeia como enxadas de ganchos sobre as embelgas das canabeques.

 

Gabava-se de não precisar de ninguém para segurar uma ceva no banco da matança. E nas festas, não havia zaragata onde a Senhorinha não molhasse a sopa!

 

Casou, com ainda novata, com o Cabouqueiro, como era conhecido o seu marido em Faiões, de onde era natural. Não careceu das bênçãos da Misarela, como sua mãe, para emprenhar. A primeira gravidez, evidentemente, trouxe-lhe alguma prudência, não fosse ela mober e arrebentar com o sonho da descendência!

 

Não tinha completado ainda os nove meses, quando se lhe rompeu os saco das áugas e a Cândida foi chamada, com urgência, para lhe assistir à paridura. Botou um raparigo de quatro quilos que mais parecia um leitão já desmamado! Seguiram-se mais dois rapazes, como palóios, que acabaram com o falatório sobre a possibilidade do defeito das trombas do falório da Urraca ter sido herdado pela sua filha Senhorinha!

 

Os rapazes cresceram tão viçosos como o renovo das hortas da Veiga que cultivavam.

 

Contudo, a vida dá muitas voltas, e o mais velho, Anacleto, não resistiu à enxurrada da emigração. À procura de melhor vida, fez-se ao Atlântico e atravessou para as Américas. Instalou-se no bairro de Ironbound em Newark, onde obteve grande sucesso trabalhando nas obras de sol a sol. Os outros dois quedaram-se pelas hortas da Veiga e não passaram da cepa torta!

 

Raramente o Anacleto vinha a Portugal. Apenas quando sua mãe caiu numa cama, derreada pela doença a veio visitar e a curou miraculosamente, não fosse ele neto das divindades da Misarela.

 

Conta-se assim:

 

Tal foi o desgosto da Senhorinha com a ida do seu primogénito para as Américas, mas sobretudo com a morte, prematura, do Cabouqueiro com a tísica, que a partir daí deu em beber! Era cardiela em cima de cardiela. De caixão à cova, como soi dizer-se!

 

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Proclamava, à boca cheia, depois de consultar o Dr. Fernandes, que ele a poribira de estar mais de meia hora sem bober! E sendo assim fazia do vinho remédio para todos os males. Era até lhe chegar com um dedo! Qualquer hora do dia, ou da noute, era boa para bober, no entanto dizia que:

 

― A melhor vez de vinho é depois de comer, daí a um cibinho!..

 

Ora, certo dia caiu enferma, de tal forma que não havia remédio ou mezinha que a livrasse das tremuras e das febres de que padecia. Os médicos receitavam químicos a granel e as bruxas chazes e defumadoiros, contudo, não havia maneira de a tirarem da enxerga. O filho mais novo, Agripino, que lhe era mais próximo, talvez para sossegar a consciência, chamou, desesperado, o Dr. Alcino a sua casa. Depois de diagnosticar o mal de Senhorinha, deu-lhe, apenas, um mês de vida. Tempo curto, mas suficiente, para mandar dizer ao Anacleto que se quisesse ver a mãe ainda viva que viesse o mais breve. Foi-lhe enviado um telegrama a toda a pressa dizendo:

 

― Américo, nossa mãe muito mal, dura um mês. Anda vê-la!

 

O filho, encafuou-se num aeroplano e passados cinco dias estava em Chaves.

 

Ficou descorçoado ao ver a sua querida mãe naquele estado! Era mesmo de cortar o coração!

 

Pediu para ficar sozinho com ela e após largos minutos de confidências, saiu em silêncio do quarto da moribunda e dirigiu-se à adega da casa onde encheu uma malga do caldo com um tinto de Lebução. Botou-lhe duas colheres de açúcar amarelo e enfiou-o pela goela abaixo da agonizante. Os irmãos quiseram matá-lo, cuidando que tivesse dado o golpe de misericórdia à infeliz.

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Que nada! No dia seguinte acabaram as tremuras, a febre baixou e a Senhorinha começou a ganhar cores. Mais duas dozes, reforçadas, do mesmo romédio e passado cinco dias já se sentava nas escaleiras a dar ao taramelo com as amigas!

 

Cais médicos, cais bruxas cais carito, quem sabe do que a minha santa mãe gosta sou eu! ― Dizia, orgulhoso, nos Quadradinhos aos amigos!

 

Anacleto regressou à América radiante!

 

Só tornou passado quinze anos ao funeral de sua mãe que pereceu velhinha, com quase um século de idade.

 

Remédio santo!

 

Gil Santos

 

[1] Cf. Silva, Joaquim Lino, “A Ponta da Misarela”, in Revista Lusitana, 8, 1987, pp. 61-96

 

 

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