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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

27
Out17

Discursos Sobre a Cidade - Por Gil Santos

GIL

 

NA TASCA DO RAMADA

 

Almerindo Preguiceiro era um vagabundo!

 

Nem sabia nem queria fazer nada. Passava os dias a derringar polaina de tasca em tasca, amanhando conversas de ocasião com os parceiros copofónicos ou a tainar com outros da sua igualha.

 

O bandalho nasceu com o rabo virado para a lua, como soi dizer-se. Foi plantado nas poulas do Toucedo pelo sotaina da aldeia e apesar de não o ter perfilhado, nunca lhe negou sustento para o fazer homem. Contudo, saiu-lhe a porca mal capada. O rapaz cresceu bem estrumado e bem regado, medrou, mas descambou e deu vadio. Sua mãe, uma cabaneira pobre, pasto de muitos por necessidade, não tinha dúvidas quanto à paternidade do rebento e, com propriedade, lá sabia porquê!

 

De calças de peitilho e alças, rachadas no rabo, aprendeu temperano os prazeres do non far niente e passava os dias na gandulice. Da escola retirou pouco proveito uma vez que eram mais os dias em que se baldava, roubando castanhas ou indo aos ninhos, do que aqueles em que sentava o traseiro nas velhas carteiras do mestre Matos. Ainda assim, aprendeu a juntar algumas letras, a assinar o nome e a fazer meia dúzia de contas, sobretudo de somar e de multiplicar.

 

Gargalhote, assentou praça no dezanove e aí refinou as manhas de viver à pala dos outros. Incólume a castigos mais duros, passou à peluda quase virgem. Regressou ao ninho materno ainda mais salafrário do que o havia abandonado.

 

Prestes cogitou botar casa. Carecia, para isso, de parceira que lhe aprouvesse. Havia de ser asadinha, trabalhadeira, boa parideira e com mão para a cozinha. Contudo, sendo bem conhecido pelas moças das redondezas, as mais ajeitadinhas e com dois dedos de testa fugiam-lhe como o diabo da cruz. Apesar de bem-parecido, aquela veneta de detestar o trabalho fazia com que chaldrasse somente a quem não queria. Por isso teve de topar parceira em aldeia longínqua onde ninguém lhe conhecesse o sestro.

 

Após fuçar alguns meses pelos mais recônditos lugarejos, acabou por catrapiscar a Tchica Sarilheira, também ela originária de cabaneira pobre. Todavia, a moça era dotada de algumas das qualidades que lhe convinham. Era trabalhadeira e uma aturada dona de casa, no entanto tinha um defeito de fabrico que a privara de melhor partido, nasceu com uma gâmbia mais curta e manquitava um cibo. Nada com que o sacripanta não pudesse bem.

 

A boda, suportada pelo padrinho, abade da freguesia, foi de arromba. Uma vitela no espeto, meia pipa de vinho do de Cova do Ladrão e uma fornada de pão, para que todos enchessem as bentas à conta do casório do Almerindo. Mal eles sabiam que afinal quem pagava a boda era a côngrua a que por serem católicos apostólicos romanos estavam sujeitos!...

 

A vida a dois corria bem, tanto assim que passado nove meses a terra festejava já o primeiro rebento do casal.

 

Todavia, aquele vício da calaçaria estava a encher de sofrimento a Sarilheira. Era por demais! O Preguiceiro, à ajuda, em chaldrando-lhe o patrão, ainda ia bolindo nem que fosse somente meio-dia. De tarde descansava na massadoura do prado. De resto para si não fazia nada, esperando que a mesa se compusesse com o que a desgraçada da mulher ganhava nas magras e raras jeiras que pudesse alcançar. Fome, a bem dizer, não passaria pois a mulher era diligente e paciente ao ponto de conseguir que não lhe faltasse o caldo. Agora mimos, só mesmo os das tainadas com os amigos, o mais das vezes na tasca do Ramada. Queimava, nestas andanças, os míseros tostões que pudesse juntar. E não lhe perdoava, pelo menos uma vez por mês tinha tainada e bebedeira certa.

 

Quando o peixeiro passava pelo lugar com sardinha, quase sempre recessa, a Tchica lá fazia um esforço por botar meia dúzia para o marido, no entanto tinha de lhas estripar muito bem que o biqueiro não as comia com tripas e muito menos fritas. Tinham de ser assadas na brasa e bem regadas com azeite e vinho dos mortos.

 

Ora um dia, ali pelo São João, quando o povo diz que a sardinha pinga no pão, o Ramada encomendou uma canastra delas para uma sardinhada servida ao final da tarde de um sábado, para meia dúzia de comensais dos da igualha do Preguiceiro.

 

Enquanto comiam e bebiam à tripa-forra a Tchica Sarilheira calhou de passar no caminho, de regresso da sacha de uma leira de batatas que o Sr. Prior lhe havia encomendado. Quando se apercebeu do festim, parou debaixo de um caramanchão fronteiro que a rebuçava e pôs-se à escuta dos dezeres do marido.

 

― Ó Niceto, bota aí mais uma sardinhita, que elas estão bem boas!

 

― Tu és um lambão Almerindo, comes mais do que nós todos. Pudera, não lhe comes as tripas, mamas só os lombinhos, por isso, enquanto nós comemos uma, tu lerpas três… Fosca-se, só comes mais alguma se for com as tripas!

 

Para não ficar mal,

 

Bota cá mas é a sardinha que essa vai com tripas e tudo.

 

A Tchica acabara de ouvir o que faltava para lhe tirar a biqueirice.

 

Que esperasse!

 

Passado oito dias o sardinheiro voltou e a Sarilheira comprou meia dúzia delas. Preparou-as para assar mas de uma forma especial. Num almofariz esmigalhou muito bem algumas malaguetas bravas que faziam bufar o mais pintado! Misturou-lhe um pouco de azeite e encafuou a mistela na tripa das sardinhas que tocavam ao parceiro. Salgou-as e estavam prontas para a brasa.

 

Almerindo chegou para a janta, alapou-se no escano e reparou que as sardinhas assavam no braseiro com as tripas, tal como ele não gostava.

 

Reclamou.

 

― Olha lá ó estojo, num te disse já que não gosto de sardinhas com tripa! Parece que és burra!...

 

― Ó meu querido maridinho, aqui é como na tasca do Bento Ramada, comes e calas!...

 

Ele ligou os fios e percebeu a deixa!

 

Calou moreta e esperou que as sardinhas lhe caíssem no prato.

 

A muito custo lá as foi roendo.

 

Quando chegava à parte da barriga torcia-se todo.

 

Ele suava, ele bebia, ele botava a língua de fora, bufava, contudo, para não dar parte de fraco, calava-se como um rato!

 

Dali por diante deixou de ser biqueiro e fosse o que fosse que lhe caísse no prato morria! Todavia, das sardinhas nunca mais quis ouvir sequer falar!

 

Abençoada Thica!

 

E isto é o que se sabe!

 

Quantas outras biqueirices não lhe teria curado aquele pobre anjo, na intimidade das paredes de pedra solta do casebre em que viviam?

 

Uma coisa perecia certa, à medida que os anos passavam, Almerindo arrepiava caminho e se pudesse viver cem anos, haveria de ser um homem exemplar tal como seu pai que só cobrava batismos e funerais a quem se olvidasse de lhe untar as barbas pelos sarrabulhos!

 

Gil Santos

 

 

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