Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

16
Out15

Discursos Sobre a Cidade, por Gil Santos

GIL

 

Amanda Senisga

 

Quando procurámos no dicionário de nomes próprios o significado de Amanda, encontrámos aquela que é amável, que deve ser amada, ou, ainda, alguém que é digno do amor. Ficámos satisfeitos por dizer a letra com a careta, como adiante se verá.

 

Efetivamente Amanda nasceu para ser amada, ou talvez nem tanto para isso, mas para ser usada em nome daquele, que alguns apelidam de nobre sentimento. E ela deixava-se usar e chegava a ser feliz fazendo disso uma, quase, profissão que a alimentava a si e à alimária do Rambana, seu marido, que era um escroque, cuja, única, ocupação se cingia a passear a pseudo macheza pelas ruas e vielas da cidade de Trajano.

 

Mas falemos primeiro da Amanda, depois do Rambana e, por fim, do 101 de Fafião que de outras andanças já conhecemos. Quando juntarmos os ingredientes, veremos no que dá a caldeirada!

 

Amanda nasceu de uma cabaneira nos Aregos, pelos anos trinta do século passado. Sem pai que a perfilhasse, cresceu aos emboleques da vida e foi aprendendo, desde tenra idade, os segredos da ocupação principal de sua mãe. Fê-lo com a mesma facilidade com que aprendeu a jogar aos bodrelhos ou à macaca com as parceiras. Umas vezes, por observação, outras, por imitação, foi consolidando as manhas do ofício e deu em verdadeira especialista! Depressa ganhou fama, passando a perna à progenitora num vê se te avias. Concorrente séria, teve de dar à soleta e fazer-se à vida. Desaninhou. Para calar as bocas incendiárias do povo, sem que isso a preocupasse de sobremaneira, apanhou o laparoto do Rambana antre pernas e casou. Tratava-se do parceiro que lhe convinha ao negócio, como adiante veremos. Acoitaram-se na rua dos Gatos, na zona medieval da cidade, num pardieiro. Esta rua, ao tempo, era uma parente, pobre, de uma qualquer betesga do Red Light de Amesterdão! Uma viela de má fama, muito frequentada por facínoras, mas, sobretudo, por magalas do 19 que aproveitavam para desenferrujarem a culatra da Mauser que, por falta de inimigo, raramente fogueava.

 

Amanda ganhou popularidade, não só pela sua compulsividade sexual, mas também pela publicidade, camuflada, que o marido lhe fazia pelas tascas e cafés que frequentava! Não havia militar no quartel de Infantaria que não a conhecesse. A bem dizer havia um que dela sempre ouvira falar, mas que nunca lhe tinha provado a fragância, o 101 de Fafião.

 

O Rambana, cujo nome de batismo se me olvida, era assim chamado pelas semelhanças da fuça com a batata Arran Banner, conhecida, entre os nós, por Rambana. Tratava-se de uma figura pitoresca, não só pela bissexualidade que o caraterizava, mais ou menos assumida, mas, sobretudo, pela figura azeiteira que ostentava. Todavia, aparentava mais do que aquilo que era. Convinha-lhe, para o negócio, sobrepor a dimensão do macho à da fêmea que havia nele. Por isso, maneava-se pela cidade com os ralos pelos do peito transbordando da camisa aberta até ao terceiro botão, o dedo mindinho, da canhota, exibindo um grosso anel de ouro maciço, com um rubi e o da destra outro, com a bandeira nacional. Ao pescoço mandava um fio de oiro com a cara de um cristo sofredor que mais parecia a corrente de prender o cão. Rematava com um perfume, bárbaro, de Feces que deixava um rasto enjoativo pelos espaços que frequentava. Bigode à Cantinflas, cabelo colado ao caco, embloutado com brilhantina, chapéu às três pancadas, calcante bicudo de verniz e calça de risca ao fundo, emprestavam-lhe um ar verdadeiramente aviltante.

 

Vivia, como soi dizer-se, dos rendimento do Panrrelha, o mesmo é dizer do suor da sua consorte e passeava-se dias e dias pelas praças e jardins, pelas tascas e pelas tainadas e orgias com os da sua igualha.

 

Um dia, na tasca do Serritcho, na Betesga do Olho (também conhecida por outro nome, caricato, que desafio o leitor a descobrir) alguém perdeu a paciência com os seus trejeitos afeminados e, não estando para lhe aturar a panca, o mandou pr’ó carbalho, mas de forma declarada. O Rambana não se descompôs e, em vez de lavar a honra com dois tabefes no focinho do safardana, deu uma de coltura, neste termos:

 

― Olha lá ó meu filho da parreca, se te instróis e deixas de ser néscio. P’ra isso ouve lá esta…: Rapou do bolso um recorte do Comércio do Porto e começou a ler em voz alta. Pelo inusitado, os beberricas, prestaram atenção. Assim rezava:

 

“Mandar alguém para o c*** significa desejar-lhe mal, uma vez que o c***, num sentido metafórico, é um sítio temível e indesejável onde vamos ser maltratados e sofrer as estocadas de um qualquer animal raivoso. Se nos portamos mal é para lá que nos mandam. Este desejo pode ser expresso através de palavras ou gestos. Todos nós sabemos bem o que significa levantar o dedo médio e recolher os restantes. Enfim, o c*** nas suas múltiplas representações está por todo o lado. Encontramo-lo facilmente nas portas das casas-de-banho, nas discussões mais acesas entre amigos ou inimigos… É algo simbolicamente forte, duro, rude, agressivo, violento, que confere poder a quem o detém. (…)

 

O seu congénere feminino, pelo contrário, está menos presente no nosso dia-a-dia. Também pode ser usado como insulto, é verdade, mas ao contrário do c*** é usado para insinuar que alguém é fraco, frágil, efeminado, franzino… É como se ter uma senisga fosse algo de que nos devêssemos envergonhar. Para além de vergonha, a crica sempre esteve envolta em mistério e misticismos. Tem ponto G ou não tem ponto G? O que é o exatamente o clitóris? Como é o orgasmo feminino? É real ou fingido?

Elisabete Rodrigues in http://twixar.me/tfp

 

― Sei que não percebeste um carbalho (declarado) do que aqui diz, porque não passas de um penedo com dois olhos, um pascácio!...

 

― És tu fino, mou larilas! Antão, já qu’és tão esperto, bamos lá ber quem de nós sabe mais nomes prá ractha. O que se engasgar primeiro paga uma rodada à malta. Que te parece?

 

― Aceito! Bota lá!..

 

― Rata, passarinha, aranha babosa, agrião, beiçuda, bitcho peludo, patareca, senisga, rosinha, laranjinha de dois gomos, crica, papoula, rolinha, pito, pipi, bacalhoa, berbigão, pêssega, xarduela; cidouro; … (e por aí fora).

 

A páginas tantas, o Rambana entupiu e vai de pagar vinho para todos!..

 

Mas retomemos o fio à meada.

 

O 101 de Fafião assentou praça no Regimento de infantaria 19 em Chaves e foi a sua sorte. Nascido nas fragas da Serra do Gerês, pastoreou cabras desde o tempo em que ainda andava com as calças rachadas nos fundilhos. Não fora a tropa e o seu mundo circunscrever-se-ia aos penhascos e às veredas alcandoradas daquelas serranias.

 

Fazia o caminho de mais de uma centena de quilómetros, até Fafião, à pata. Tanto que o passaporte de fim-de-semana só lhe permitia uma volta à aldeia, um cumprimento aos vizinhos, uma racha de bacalhau com uma malga de verde e ala que se faz tarde p’ra Chaves. O 101 era rude como as urgeiras do Tôco e nem com uma pedra na destra o comandante de pelotão o conseguia fazer volver à direita na ordem unida. O mesmo esforço para o Furriel Calvão, entregue à escola regimental, para o pôr a ler. Nunca foi capaz de conhecer uma letra do tamanho de um carro de feno, contudo, ainda assim, lia, pelos desenhos! E nem mesmo quando estava de sentinela à porta de armas era capaz de ganhar uns pintos com o contrabando do rancho, como todos faziam. A única coisa em que se desenrascava era na faxina às latrinas e nas zaragatas, onde ninguém lhe fazia o ninho atrás das orelhas. O 101 era um autêntico lambão, o bombo da festa da Companhia. Contudo, que se precatasse quem lhas fizesse! Não sendo capaz de resolver a contenda de outra maneira, era ao soco e à cinturada!

 

No fundo, no fundo, o 101 de burro não tinha nada. Era detentor de um outro tipo de esperteza que não se coadunava nem com os ares da caserna nem com os da cidade. Grosso como a casca de um sobreiro velho, nunca avezou mulher que o quisesse. Por isso, tinha o sonho de, pelo menos a pagar, poder ter uma que o aliviasse de anos e anos de faz de conta!.. Sabendo desta fraqueza não tardou que os camaradas de armas lhe armassem a estrangeirinha.

 

O Matraquilha e o Pincelão, dois bornais do pelotão, habituados a fugir aos carabineiros pelos trilhos do contrabando e que tinham a mania de armar ao pingarelho, quiseram mangar com o pobre do 101. Amigos da borga, da copofonia e do Rambana, combinaram tudo no Escondidinho entre copos e tchincalhão. Levá-lo-iam à casa da Amanda e quando o circo pegasse fogo, assobavam-lhe o Rambana que, fazendo de cornudo, havia de o pôr em fuga, em pelota, pela Rua dos Gatos, para galhofa dos muitos que o esperavam.

 

Assim foi.

 

Numa noite de junho, depois do toque do recolher, o 101, por falta de autorização para se ausentar do quartel, desceu a muralha para o lado do hospital velho, como muitos faziam, e pôs-se ao fresco. Ataviado, foi ter com os dois marlantes que o esperavam no Postigo. Botaram um copo no Parpalhaça e dirigiram-se para a Rua dos Gatos. Entretanto, pelo caminho, foram-no instruindo, dada a sua assumida inexperiência.

 

― Ó 101, quando tchigares bates à porta. Quem ta abre é a própia Amanda Senisga. Dizes que queres desenferrujar o prego. Ela, ó primeiro, vai-se fazer desentendida. Tu ateimas, dizes que é p’ra olear a culatra! Quando te parecer que ela percebeu, proguntas-le canto custa o tombo. Ela vai abrir muito a boca e botar lá p’rás cinco croas! Tu marralhas e dizes que não dás mais de quinze testões. Acertaides nos dois escudos, mais coisa menos coisa. Aspois ela manda-te assubir as escaleiras e tu assobes. Indes para o quarto e aí é contigo. Assápa-le duro qu’ela pode bem! No fim põe-te a milhas para dar a bez a outro!

 

Percebestes?

 

Que sim!

 

Chegaram, indicaram-lhe a porta e ele bateu, delicadamente, com os nós dos dedos. Passados uns minutos apareceu-lhe uma mulher e peras, uma quase diva, uma fêmea que ele nunca conseguiu ver na melhor cabra do seu rebanho. Louraça, olho pintado de verde alface, maçã do rosto entchapuçada em rebique, beiço grosso, embloutado de baton escarlate, garra comprida, envernizada de vermelho, perna ao léu até à coxa roliça, pose de revista, uma toura!.. O 101 passou-se! Inté trocava as bistinhas!

 

― Tu que queres meu saloio? ― Perguntou.

 

Transtornado com as visões e com o coração a latejar-lhe nas fontes, gaguejou!

 

Bi…bi…bitchoula!...

 

― Ah, meu lapantim, aqui não há nada disso, aqui só há costela mindinha, serve-te?

 

O 101, atroviscado e olvidado dos conselhos dos amigos arrimou-lhe:

 

― Só te dou quatro croas! Escusas de me pedir cinco!..

 

― Pois é, meu sacripanta, para ferrares a dantola na costeleta não pagas quatro nem cinco coroas, vais pagar cinco marréis e é se queres!...

 

Baralharam-se-lhe as contas e as ideias! Pensou: “Que se fod** os cinco marréis!... Mas olha que te bão sair do lombo minha pu**!..”

 

Que aceitava.

 

Penetrou e sumiram-se escaleira acima. Deram numa alcova escura e bafienta, iluminada por uma vela de estearina, babada num castiçal de barro Nantes. A um canto uma enxerga, manhosa, de ferro, sob um xaragão, de palha, muito coçado, noutro um bidé de esmalte azul, meado de água chilra, encaixado numa estrutura de verguinha ferrugenta. Que ficasse ali e se fosse ajeitando que ela já tornava!

 

A sua cabeça rodopiava! As mensagens que o cérebro emanava para as extremidades do corpo eram tantas, que mesmo antes de tirar as calças, já os botões da carcela das ceroulas saltavam como pulgas. Espumava de desejo, qual chibo do rebanho na maré da cobrição!...

 

Interim, abriu-se a porta e apareceu uma rainha, com uma camisa de renda, quase transparente que mal tapava o sim senhor, descalça, desgrenhada e com um andar de passerelle. O 101 não quis saber de mais, atirou-se à febra como o melro ao grilo da pescoceira. Ela não se fez rogada. Também para si aquele ímpeto era novidade e augurava farto repasto! E sabia-lhe bem! Espojaram-se na cama como dois burros na poeira do caminho. Ela chiava como uma rata entalada, ele grunhia como um reco de ceba no banco da matança! Foi de escacha pessegueiro! A contenda, porém, não durou o tempo que ela desejaria. Soube-lhe a pouco e suplicava por mais. E tinha a sua razão pois o101 despachou-se como um coelho e caiu para o lado, quase fulminado, deixando a pobre com a língua entre os dentes!

 

Não tinham, sequer ao menos, normalizado a respiração, quando, de rompante, a porta do quarto se escancarou e o Rambana, simulando a angustia do marido enganado, entrou brandindo um estadulho da acarreta. O fito era que o 101 se tralhasse e se pusesse ao fresco com as calças na mão. Conquanto, saiu-lhes a porca mal capada, pois nada do que planearam aconteceu.

 

O de Fafião, quando viu o fueiro no ar, botou-lhe a gadanha e antes que lhe caísse nos cornos, já o Rambana estava desarmado. Depois, foi-se a ele e desancou-o até mais não. Ainda pensou sodomizá-lo, mas poupou-se, deixando-o, ainda assim, capaz de fugir, pese embora todo esmoucadinho!

 

Para assombro, ninguém viu o 101 em coiro rua dos Gatos acima, como se esperava, mas antes o Rambana, numa lástima, dirigindo-se ao hospital para se curar!

 

O 101 continuou no quarto, com direito a novo repasto. Desta vez comeu mais descansado, não só pelo arrefecer da comida, mas também por ter já a te(n)são arterial mais baixa!

 

Desta vez a Amanda Senisga ficou consoladinha, foi até lhe chegar com um dedo. Teve tudo a que a fortuna dos cinco marréis deu direito!

 

No dia seguinte era ver o de Fafião, na parada da manhã, com um sorriso de orelha a orelha, o Matraquilha e o Pincelão, com uma cabeça do tamanho de um malho carreiro e a Amanda Senisga a gingar a peida, atestando a seira na praça, com os cinco escudos do 101!

 

A mulher ia feliz, todavia com um andar um cibo escangalhado!..

 

Do Rambana não mais se quis falar!...

 

Um palerma é o que é!..

 

Gil Santos

 

 

2 comentários

Comentar post

Sobre mim

foto do autor

320-meokanal 895607.jpg

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

 

 

.17-anos

Links

As minhas páginas e blogs

  •  
  • FOTOGRAFIA

  •  
  • Flavienses Ilustres

  •  
  • Animação Sociocultural

  •  
  • Cidade de Chaves

  •  
  • De interesse

  •  
  • GALEGOS

  •  
  • Imprensa

  •  
  • Aldeias de Barroso

  •  
  • Páginas e Blogs

    A

    B

    C

    D

    E

    F

    G

    H

    I

    J

    L

    M

    N

    O

    P

    Q

    R

    S

    T

    U

    V

    X

    Z

    capa-livro-p-blog blog-logo

    Comentários recentes

    • Anónimo

      Obrigado pela leitura, pela reflexão e pela gentil...

    • Zé Onofre

      Boa tardeBelo texto.O mal não é só das cidades pe...

    • cid simoes

      É um bálsamo viver este dia entre poesia, música e...

    • FJR

      Ainda me lembro de apanhar bocados de metal para i...

    • FJR

      Tantas vezes ali joguei à bola. Era um dos nossos ...

    FB