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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

25
Jan19

Discursos Sobre a Cidade, por Gil Santos


GIL

 

bota-le binho, catano!

 

Conheci o Ti Chico Milheiro já velhote.

 

Nas torreiras de agosto, juntava a mocidade à sombra da copa do negrilho do Prado e alapado na massadoura, entretinha os seus largos anos com as reações às curiosas estórias de vida que sorvíamos como a água da bica em tardes de canícula.

 

Escutei-lhe muitas!

 

Olvidaram-se-me quase todas.

 

Retenho, tão-somente, esta que vos conto.

 

O Chico Milheiro nasceu pobre em Milhais, lá para os lados de Mirandela.

 

Ficou órfão de pai e mãe muito cedo, por isso, teve de ser fazer à vida, na qualidade de moço de servir, na tenra idade dos quinze anos,

 

Tirando a fartura de bogas do Rabaçal que pescava na desova, em tempo das formigas fazerem carreira como ele dizia, dos coelhos e das lebres que caçava nos laços que armava com mestria, passou fome de rato.

 

Serviu inúmeros patrões, levou muitos pontapés no rabo, trabalhou de sol a sol, comeu o pão que o diabo amassou, mas assim aprendeu a ler nas entrelinhas da agrura da vida o que mais lhe convinha em cada momento.

 

O Chico Milheiro tinha a sapiência da coruja e a manha da raposa. E, desta forma, tão cedo se fez à vida de serviçal como a deixou.

 

Não teria ainda um quarto de século quando, proprietário de uma leira de couves, passou a servir-se a si próprio. Botou umas colmeias, únicas nas redondezas, e quase só com elas se sustentava no Carregal, onde fixou residência. Ao tempo, o mel era remédio para quase todos os males. Vendia-se bem para qualquer mezinha. Contudo, a escassez de produção, mal dava para a sobrevivência.

 

Pobre sim, mas orgulhosamente dono de si e da sua vontade!

 

Como dissemos antes, fez-se à vida pelos quinze anos, idade em que a força de crescer tonifica os músculos e dá ao corpo a forma masculina do homem bravo. Procurou trabalho por terras de Valpaços. Encontrou-o em Água Revés, na casa de um lavrador rico mas usurário. A produção de vinho era a sua principal atividade. Durante o ano, o Chico, quando não trabalhava na vinha, trabalhava no bacelo. Porém, aguentou-se pouco tempo neste patrão. O homem estava sempre com pressa de o fazer bulir e mesmo nas sagradas horas do repasto, pressionava-o com a urgência dos trabalhos. Quase não o deixava engolir o cibo!

 

Um belo dia, o agiota, reparou que o Chico soprava ao caldo de vagens chitcharras que fumegava numa malga, sobre a tábua do escano onde comiam.

 

─ Despacha-te rapaz, temos a vinha da Silva para satchar!

─  O caldo escalda patrão!...

 

─ Ó home, bota-le áuga!...

Áuga?!!!.. Não, este patrão não me serve, concluiu!...

 

E tão depressa o pensou, como rumou a novo mundo à cata de melhores promessas!

 

Deu com novo patrão no Planalto, para os lados de Carvela. Um homem austero, que vivia unicamente da batata e do centeio. Sofria, porém, da mesma doença do anterior, o tempo era sempre curto para o trabalho.

 

Um certo dia, ainda no primeiro semestre do novo emprego, o Chico preparava-se para dar cabo das bentas a uma bela malga de caldo de lombarda, reluzente e fumegante. Fora lançada diretamente do pote, que à força do braseiro apurava num borbulhar de cachoeira nervosa. O Chico bem lhe bufava mas o raio do caldo não havia maneira de arrefecer.

 

─ Despacha-te, rapaz! Temos a leira dos Bagueiros para agradar esta tarde. Uma campina!...

─ O caldo está quente patrão!

 

─ Ó Chico, miga-a com pão!..

─ Pão?!!!... Ora essa, pão tenho-o eu à fartazana à minha frente, pensou o criado em silêncio.

 

Não demorou um mês a pôr a trouxa às costas e a procurar novo amo.

 

Rumou, desta feita, ao Carregal onde encontrou trabalho na casa do Ti Moreiras. Um lavrador remediado que repartia os seus dias entre o trabalho árduo da terra magra, que mal dava para a sobrevivência e o relato, apaixonado, das peripécias que viveu na Grande Guerra, onde fora combatente e prisioneiro em La Lys.

 

Também o Ti Moreiras gostava pouco de perder tempo, nomeadamente, a comer.

 

Um dia de malhada, pelo fim de um julho muito quente, criado e patrão sentaram-se à mesma mesa para repor as forças num lauto almoço de couve, toucinho e feijão vermelho. Encheram as bentas, que lá isso para comer, o Ti Moreiras, nunca deixou o crédito por mãos alheias! No final, como ainda é hábito em Trás-os-Montes, veio a malga de caldo, desta vez, de baijes.

 

Fervente!

 

O Chico bufava-lhe quanto podia, não só para a arrefecer, mas, sobretudo, para ver no que é que aquilo dava.

 

─ Apressa-te, home! A malhadeira não espera. Temos de acabar a malhada hoje!

─ O caldo está quente patrão!..

 

Bota-le binho, catano!..

─ Ah grande patrão, este é que me serve, finalmente!.. Disse para com os seus botões!

 

Laborou em casa do Ti Moreiras até desposar a Rosa, que ficou a ser Milheira também. Uma rapariga simples, mas trabalhadeira, filha da Tia Carminda da Rua, uma cabaneira pobre.

 

O empenho do Chico Milheiro foi tal que o patrão Moreiras aceitou apadrinhar o seu casamento. Prendou-o com uma pequena horta contígua ao casebre onde o Chico morava.

 

Não demorou que se despedisse.

 

A Rosa e o Chico trabalhavam à jeira. O soldo, a hortita e o mel das colmeias, sempre dava para viver, mal, mas, sequer ao menos, eram livres como passarinhos!

 

 

Tenho saudades das estórias do Ti Milheiro.

 

Alimentou muita da imaginação que me havia de fazer voar por sítios onde nunca fui capaz de ir sozinho.

 

Obrigado, Francisco Milheiro, também por reconhecer no Ti Moreiras, meu avô, as qualidades de homem bom que ele sempre foi!

 

Gil Santos

 

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