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CHAVES

Olhares sobre o "Reino Maravilhoso"

09
Mai14

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

 

A curva da estrada

 

José Carlos Barros

 

 

Éramos jovens e decidimos fazer a revolução. Mas para mudar o mundo era preciso começar por mudar a geometria da curva da estrada do rio onde por mais do que uma vez nos espetámos regressando dos copos às três da manhã. A nossa primeira luta foi contra o presidente da câmara e depois contra a junta autónoma das estradas quando o edil civilizadamente nos explicou que a via não era municipal. Escrevemos cartas. Mas a junta autónoma devia ser tão autónoma que não respondeu a nenhuma. Então fomos pessoalmente entregar uma petição exigindo a imediata intervenção no asfalto e nas bermas e a reposição das indispensáveis condições de segurança. Recebeu-nos um funcionário zeloso que não nos permitiu passar além dos bancos corridos de madeira da salinha de espera e nos despachou dizendo «bom dia» e que estivéssemos descansados que a petição seguiria os trâmites normais. Um ano passou e nem um oficiozinho da junta autónoma dizendo por exemplo «o assunto mereceu a nossa melhor atenção». Foi então que pensámos em meter uma bomba na escadaria das traseiras do edifício-sede acionando-a por controlo remoto no instante preciso em que o sr. engenheiro-diretor das estradas a subisse com a pastinha de calfe do despacho debaixo do braço. Mas alguém mais avisado propôs a alternativa de pedir-se mas era uma audiência no governo civil e resolver-se logo o assunto. Pedimos a audiência. Quatro meses depois fomos recebidos. E o senhor governador assegurou que tomaria boa conta do processo e que não havia de passar muita água por baixo da ponte até que a curva da estrada tivesse o perfil corrigido. E a verdade é que decorridas poucas semanas um ofício com os melhores cumprimentos do chefe de gabinete do governador civil explicava que o assunto havia sido remetido ao cuidado do sr. secretário de estado dos transportes. Mas nessa altura já a revolução não podia contar com o entusiasmo inicial destes seus tão fervorosos membros. Até porque o armando tinha ido para tancos cumprir o serviço militar e lá ficou como miliciano. O luís alberto emigrou. O mendes arranjou emprego numa multinacional e passava o tempo a viajar. A teresa entrou em engenharia civil. Encontrávamo-nos cada vez mais espaçadamente e começávamos a sentir a estranha sensação de faltar-nos espaço para mudar o mundo e construir os alicerces de uma sociedade nova. O tempo correu e a curva da estrada ainda lá está sem ninguém lhe bulir. Não somos velhos mas é como se tivéssemos envelhecido mais depressa do que o tempo que foi passando por nós. O luís alberto tem uma empresa de construção de obras públicas nos estados unidos e regressa de dois em dois ou de três em três anos. Eu abri um restaurante. O mendes deixou a multinacional e trabalha agora por conta própria em consultoria financeira. O armando morreu num acidente de automóvel. A teresa meteu-se na política e é actualmente secretária de estado dos transportes. Às vezes penso em telefonar-lhe. A lembrar-lhe que está nas suas mãos resolver o velho problema da regularização do perfil da curva da estrada do rio. Mas o tempo passou. E eu receio que a teresa ainda se começasse a rir na minha cara se eu tivesse a ingenuidade de lhe recordar o nosso sonho antigo de arranjarmos uma curva da estrada e depois mudarmos o mundo.

 

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