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CHAVES

Olhares sobre a cidade de Chaves

Discursos Sobre a Cidade - Por José Carlos Barros

13.06.14 | Fer.Ribeiro

 

Quando a Poesia Irrompeu nos Corredores do Liceu de Chaves

por José Carlos Barros

Era por finais dos anos setenta, quatro ou cinco anos depois da revolução de Abril, e a poesia invadiu o Liceu de Chaves. Francisco José Viegas, ainda em 1978, publica "O Verão e Depois", numa edição de autor que levava a chancela dos "Cadernos do Largo das Freiras". O livrinho havia de ser citado no Bookcionário do Fernando Assis Pacheco e de ser recenseado pela Maria Estela Guedes no suplemento literário do Diário Popular. "Barcelona Sobre as Águas" e "Elogio do Haxixe", assim de repente, eram poemas que saíam dos corredores do Liceu de Chaves para os jornais de Lisboa e para o conhecimento do mundo. Era o princípio de qualquer coisa que ninguém perdia tempo a perguntar que coisa era. Muitos anos antes de vencer o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, com "Longe de Manaus", o Francisco iniciava a sua carreira literária com um livrinho policopiado e vendido no espaço exíguo inscrito num triângulo isósceles com vértices na Madalena, no Café Aurora e na Livraria Ana Maria.

Pouco tempo depois da edição de "O Verão e Depois", teria eu ainda quinze anos, esperava-me o Florêncio Freitas, no intervalo grande da manhã, à saída da sala 19, para me convidar a colaborar na "Janela Aberta". Nesse suplemento escrevíamos crónicas de circunstância, poemas, contos. E se o mundo não mudou não foi por falta dos nossos ímpetos, mas pela razão simples de que o mundo muda sempre devagar e porque, a meio, um dia nos esquecemos de que um dia estivemos dispostos a mudar o mundo.

Tínhamos quinze, dezasseis anos, e tínhamos heróis literários. Os nossos heróis não eram apenas os Cristianos Ronaldos de então, que os havia, não eram apenas as Lady Gaga de então, que as havia. Nos breves intervalos da loucura de sermos jovens, num tempo em que nos começávamos a preparar para beber brancos no balcão do Faustino e girafas na Romana, e a namorar encostados aos troncos de largo perímetro dos plátanos do Jardim Público ou a olhar as águas do Tâmega sobre o paredão do Tabolado, discutíamos "As Mãos e os Frutos", os "Novos Contos da Montanha", a "Alegria Breve". E já então nos dividíamos entre os que mitificavam a escrita limpa do Torga, tão imbrincada no húmus e no destino de sermos homens como se fôssemos deuses, e os que o achavam vulgar, demasiado chão. Já então, lembro-me, alguém falava d' "O Amor em Visita", do Herberto Hélder, a caminho de querermos ser homens, que era um modo de rumarmos à tasca do Malgudo a beber uma jeropiga que sabia a petróleo.



A poesia invadia, por esse tempo, o Liceu de Chaves. Eu escrevia na "Janela Aberta" e o Fernando Ribeiro andava de cizânia com o Fernão de Magalhães Gonçalves, a enviar-lhe poemas por interposta pessoa como se não fossem dele. A ver no que dava a crítica literária em provas no escuro... E o Fernão, generoso além de sedutor, escrevia nos jornais locais sobre os poetas dos corredores do Liceu de Chaves -- e escreveu sobre um poema meu, entusiástico, e a literatura, assim de repente, era uma coisa tão mágica e simultaneamente tão próxima de nós como bebermos um fino no Sport ou descermos a Rua de Santo António e dizermos "esta é a varanda da casa do Nadir Afonso".

Também o António Manuel Alves Ramos, como o Francisco, publicava desde 1978, com "Luz Longitudinal", e depois em 1979 com "Tronco Quebrado", e depois em 1980 com "O Outono e Tu". Mais tarde, em 1981, "O Tempo dos Outros" teria uma chamada de capa com uma nota do mesmo Fernão de Magalhães Gonçalves que, professor do Liceu, atento, generoso, escrevia sobre o que escreviam os poetas do Liceu.

Daniel Pinheiro publicaria, ainda em 1980, "Urgente" e, em 1982, "Movimento Perpétuo". Havia na escrita do Daniel uma força, uma fragilidade, uma voz que merecíamos que tivesse continuado pelo tempo fora a surpreender-nos, a tocar-nos. Mas era também disso que se fazia o movimento poético dos corredores do Liceu de Chaves -- de sobressalto e esquecimento, de júbilo e perdas.



O Fernando Ribeiro, entretanto, publicava "Sempre", livro de 1980, e, no mesmo ano, "Palavras e Sombras". Com este conjunto de poemas vencera o Prémio Ferreira de Castro, destinado â literatura juvenil. Também Francisco José Viegas vencera o Ferreira de Castro, também o Manuel Francisco (que talvez viesse a ser o melhor de nós todos, se uma curva o não levasse para que nós o pudéssemos perder) vencera o Ferreira de Castro. Era como se a literatura do país não pudesse exercer-se fora dos corredores do Liceu de Chaves. Era como se alguma coisa de muito importante, na poesia, não pudesse acontecer fora de um arco de duzentos metros com centro no Largo das Freiras.

E também eu, antes de iniciada a década de oitenta, publiquei um livro de poemas. Eram edições de autor: fotocopiadas, policopiadas. Não chateávamos editores nem pelouros da cultura das Câmaras Municipais a pedir apoios ou subsídios: publicávamos por nossa conta e risco, cinquenta exemplares, cento e cinquenta exemplares. Apenas por sentirmos que éramos livres e que vivíamos num tempo em que o importante era estar, era dizer, era sentirmo-nos presentes.

Francisco José Viegas, António Manuel Alves Ramos, Daniel Pinheiro, Fernando Ribeiro, Teresa Joel e os seus "Sonhos de Pedra", Rosa do Adro (pseudónimo, se bem me lembro), o Florêncio como uma espécie de coordenador de talentos, o Humberto Teixeira, o Fernão de Magalhães Gonçalves a permitir-se o papel de tutor de uma geração, e tantos outros que agora não me ocorrem -- eis um exemplo de como a poesia pode entrar nos corredores de uma escola, pendurar-se nos tectos e nas paredes da escola, distribuir-se em folhas avulsas, em fotocópias, em volumes encadernados, em manuscritos, em suplementos literários de jornais da província, em palavras que se dizem em voz alta ou em segredo, para sempre, a um ouvido cúmplice.

É mais uma história, de entre tantas, que ainda ninguém contou. A história do tempo em que a poesia irrompeu pelos corredores do Liceu de Chaves.

 

 

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